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Feliz ano novo, vizinho/a!

Lembra-se do homem que nos contava como tinha sido dormir e viver nas ruas de Lisboa? O Jorge Costa. Foi ele que disse: “Tomei três duches quentes e ando pela minha nova casa nu, a dançar.” Tinha finalmente uma casa, ao abrigo do programa Housing First. Ia para Alfama. E foi assim, com este conto sobre o primeiro dia do resto da vida dele, que entramos em 2022 – já lá vai um ano.

Entretanto, muito mudou – ainda que haja tanto por fazer. Foi com essa mudança em mente que um grupo de empreendedores e jornalistas – de várias idades, origens, passados – se uniram para criar a Mensagem de Lisboa.

A vida do Jorge foi parte dessa mudança: ele viveu os últimos meses entusiasmado, feliz; uma felicidade interrompida pela sua morte prematura em abril. Não chegou a ver que conseguimos, sim, poucos meses depois, publicar o livro que é a compilação de todos os relatos que escreveu na Mensagem, editado pela Oficina do Livro (LeYa). Chama-se “Diário de um Sem-abrigo – Os dias (e noites) de Jorge Costa a viver nas ruas de Lisboa” e conta com os prefácios de Marcelo Rebelo de Sousa e Nuno Markl.

Em 2023, haveremos ainda de sentir o seu impacto: todos os direitos de autor deste livro revertem para a criação de uma Bolsa de Jornalismo sobre Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, na Mensagem, como ele sonhou ver a acontecer.

Jorge Costa Marcelo Rebelo de Sousa
O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, o Presidente da República e Pedro Sobral, diretor da Leya, na primeira apresentação do livro, na Festa do Livro, no Palácio de Belém. Foto: Inês Leote

Fala-se tanto em impacto, sobretudo nos media, mas como se mede? Quando se muda uma vida ou uma lei? Quando se resolve realmente algo?

Uma vez, no comboio, a caminho de casa, apercebi-me que, nuns bancos à frente, duas mulheres estavam a ler a história das Mandjuandadi, o grupo de cantadeiras guineenses na Quinta do Mocho, redigida em crioulo. “Estes, sim, falam para mim”, disse uma delas sobre o nosso jornalismo em crioulo. Um projeto apadrinhado por Dino D’Santiago e premiado duas vezes a nível nacional e internacional.

Isto é impacto – tive a resposta ali.

Jornalismo em Crioulo Dino D'Santiago Karyna Gomes
Catarina Carvalho, diretora da Mensagem, com o músico Dino D’Santiago, que apadrinhou o projeto com a sua organização Lisboa Criola, e realizado pela jornalista e também artista de música Karyna Gomes. Foto: Rita Ansone

📍 Mudamos Lisboa… mudando vidas. E, com muita modéstia, porque sabemos que são gotas de água neste oceano, elencamos alguns desses sinais:

– Depois de contarmos a história de Marita Vaskova, a Livraria Miosótis convidou-a para uma exposição no seu espaço

– O que escrevemos sobre menores que andam em bicicletas Gira fez com que o sistema alargasse e passasse a abranger jovens a partir dos 16 anos

– A entrevista ao Richard Zenith acabou partilhada pelo Plano Nacional de Leitura

– Depois de uma reportagem sobre como um balneário no bairro Carlos Botelho, no Beato, deu dignidade a moradores sem acesso a um banho, choveram doações particulares e de empresas à associação Viver Melhor no Beato, onde opera este serviço

– E quando demos a conhecer a história de homens e mulheres nascidos em Lisboa e a quem nunca foi dada a nacionalidade portuguesa, ainda que aqui vivam desde sempre, fomos contactados por advogados interessados em apoiar estes cidadãos – que o são, com o mesmo “c” que nós, nós a quem foi dada a nacionalidade.

– O artigo sobre a startup de agricultura vertical Raiz fez com que os vereadores do PS entrassem em contacto com eles para apoiar o projeto.

– A história da Igreja de Nossa Senhora do Loreto foi traduzida para italiano, por uma historiadora que cá vive, e depois partilhada pela Embaixada italiana em Portugal. Circulou por toda a comunidade de italianos a viver em Lisboa

– O perfil da Tina Sabounati, a voz das mulheres iranianas em Lisboa, fez com que Catarina Furtado, responsável pela ONG Corações Com Coroa, a levasse a discursar num evento de Direitos Humanos. A partir daqui, os iranianos em Lisboa mantiveram audições na Assembleia República com deputados para discutir a situação do país.  

– E depois de uma reportagem num restaurante ucraniano das Avenidas Novas, um pintor decidiu produzir uma série de quadros que retratam aquilo que se passa na Ucrânia e oferecer aos funcionários deste estabelecimento

🌐 Por falar em línguas: em novembro, lançamos um site da Mensagem exclusivamente em inglês – porque pode ser tão difícil começar a vida nesta cidade a saber tão pouco dela. A newsletter também em inglês já tem cerca de mil assinantes e chega às caixas de correio dos leitores que querem muito ser lisboetas.

📰 Em outubro lançamos o projeto Correspondentes de Bairro, no bairro do Rego, Avenidas Novas, com a associação Passa Sabi. Apoiados pela iniciativa Cidadãos Ativos das EEA Grants, gerida pela Fundação Calouste Gulbenkian e Bissaya Barreto, estamos a formar jovens deste bairro para que aprendam a contar as suas histórias – e a descobrir as que são falsas. Tem sido um trabalho duro, e esclarecedor (tanto para nós como para eles). No final deste ano, esperamos ter um rol de reportagens nas vozes deles, publicadas na Mensagem.

🎤 Em junho, a representante da Comissão Europeia em Portugal, Sofia Moreira de Sousa, procurou a Mensagem para a ajudarmos a celebrar o Dia Europeu das Línguas. E nós desafiamos rappers da Cova da Moura, na Amadora, para cantar a Europa deles, em português e crioulo – uma forma de abraçar esta língua que se fala por todo o continente.

A equipa da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu no estúdio Kova M, na Cova da Moura. Foto: Inês Leote

🎵 O rap foi apresentado no Festival Iminente, do qual a Mensagem foi parceira. Na Matinha de Vhils, tivemos um lounge de conversas com artistas (como Bonga, Batida, Sara Correia, Sam The Kid, Juana Na Rap e Heidir Correia) e tempo para discutir temas da cidade: mobilidade, artes e cultura urbana.

À conversa com a fadista Sara Correia, no Festival Iminente. Foto: Inês Leote

🎊 Descobrimo-nos festivaleiros: juntamo-nos ao Festival SOA e, nos Santos Populares, aliámo-nos à Associação Renovar a Mouraria num arraial curado por nós, que encheu o Largo da Rosa com música das nossas playlists tão diversas. Ali, juntamos pessoas tão aparentemente diferentes também. E pusemos copos reutilizáveis a circular com a ilustração de Nuno Saraiva. Nesta altura de festa, ainda tivemos a ajuda da Sagres para contar histórias escondidas por esses arraiais fora – como a de Fernandinha, a alegria do Bairro Alto.

👂🏼 Uma das nossas missões é estar perto de quem nos lê, vê e ouve. Por isso, fizemos reuniões de vizinhos, workshops, passeios… e até observação de aves no Jardim da Estrela. Daqui, saíram histórias como a de um bairro que transformou um terreno baldio numa horta para sustentar uma comunidade, como a Avenida da Igreja (em Alvalade) é um caos na mobilidade e como um engenheiro deu uma galeria de arte africana a Lisboa… e ao mundo (publicada em breve).

🗣️ No El Corte Inglês, fizemos uma série de sessões sobre Lisboa e as suas histórias: o Ferreira Fernandes falou do Martim Moniz, Rui Tavares do Grande Terramoto de 1755 e Ricardo Belo de Morais sobre Fernando Pessoa.

🎬 Lançamos a série documental “Cidades para quem?” – episódios de cinco minutos onde damos rosto ao impacto que um mau planeamento da rede de transportes públicos da AML tem na vida de várias famílias. Em cada episódio, o questionamento de um direito que se perde.

Já viu o último episódio?

📻 Chegámos à rádio! Já estávamos a contar histórias ao seu ouvido, com o podcast Sons de Lisboa, e lançamos o programa “Lisboa em 2 minutos”, de segunda a sexta-feira, na Rádio Amália – e agora online.

✈️ Voamos até Perugia, em Itália, para estar no Festival Internacional de Jornalismo. E estivemos em Saragoça, no Congresso Mundial da WAN-INFRA, onde recebemos um prémio de diversiade. Passámos a fazer parte do Círculo Reference – de media independentes europeus. E as nossas peças foram publicadas em inglês no site europeu WorldCrunch. Fechámos também ciclos e terminámos os trabalhos da Google News Initiative Startups Lab (GNI), em que entramos já em 2021, selecionados para o top 10 de uma lista de 120 concorrentes, de 28 países. Participámos ainda no Acelerador da Meta/Facebook.

– Dentro da redação as coisas também mudaram – se queremos mudar o mundo, comecemos pela nossa casa, certo?

Que o diga o Álvaro Filho, que nunca tinha conseguido ser jornalista em Portugal e hoje é-o de mão cheia, com o trabalho como repórter da cidade e as suas aparições na TV, para falar sobre o estado do Brasil, país onde nasceu e que viveu um ano que se acredita ser de transformação. Talvez, aos poucos, deixem de franzir o sobrolho quando diz que é um brasileiro a trabalhar na Baixa… mas não a servir às mesas.

Que o diga também a nossa repórter crioula, a Karyna Gomes, que ganhou notoriedade e um programa na TV, “O Canto da Casa”.

A Catarina Carvalho, o Nuno Mota Gomes, a Ana da Cunha e o João Damião fizeram parte de painéis de discussão pela cidade, país e mundo, para falar de jornalismo ou direitos humanos.

Parte da equipa da Mensagem na cerimónia de entrega dos prémios Gazeta. Foto: Inês Leote

🏆 Já no fim do ano, recebemos o Gazeta, o maior prémio a nível nacional; pela segunda vez fomos premiados pelo Observatório de Ciberjornalismo, na categoria de Ciberjornalismo de Proximidade, com a reportagem sobre as amas da Cova da Moura (um prémio por votação do júri, outro por sermos os mais votado por você, pelo público); fomos distinguidos com uma Menção Honrosa da ONG Corações Com Coroa, para premiar a forma como abordamos as questões de Direitos Humanos; o projeto crioulo ganhou o prémio de inovação da Meios & Publicidade; e, também pela segunda vez, o podcast Sons de Lisboa esteve nomeado entre os melhores podcasts a nível nacional, no Festival PODES, na categoria Narrativa.

Então, e agora? O que está para vir?

Continuaremos festivaleiros, é certo. E a rádio já nos está no sangue – com novas parcerias a caminho. Continuaremos a marcar as nossas histórias em papel, transformando-as em livros.
Vai saber tudo em breve 😉

Faremos da nossa missão olhar ainda mais e melhor para a cidade, o bairro e a rua – um olhar crítico, mas rigoroso, sem a pressa que nos atrasa, e focado nas soluções (além dos problemas).


Também partilhar mais e mais o conhecimento, fazendo pontes entre cidadãos e especialistas – e esbatendo cada vez mais também o que possa separar-nos (jornalistas) de si (que nos lê).

Seguiremos com a certeza de que queremos continuar a ser um ponto de encontro entre as várias comunidades e línguas que habitam Lisboa – e quem diz Lisboa diz toda a área metropolitana.

Contamos consigo para a caminhada seguinte.

Obrigada por estar ao nosso lado e por ajudar a mudar, nem que seja um pouco, o lugar onde vivemos.

Um grande 2023, vizinho/a!

Catarina Reis, jornalista da Mensagem


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