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O amarelo e o azul da bandeira ucraniana destacam-se na esplanada do Oásis. E não é por acaso. Aqui, os sabores ucranianos e portugueses, em versão vegetariana, conjugam-se. E, por estes dias, os sorrisos vêm com a frustração de uma comunidade envolta na guerra que já dura há seis meses. E num certo ressentimento de que só agora a comunidade se tornou visível, precisamente por causa dessa guerra.

Muitos estão em Portugal há duas décadas, outros chegaram há semanas. Cansados da invasão russa, querem focar-se nos “vivos”, porque a guerra que sempre combateram, dizem, está “no interior de cada um”, na constante luta de um povo por paz e por uma vida e um futuro melhores

Na Ucrânia, há um ditado popular conhecido. “Debaixo da pedra deitada a água não corre”. A história da Ucrânia tem sido feita de superação, de trabalho e de reconstrução.

A ligação a Portugal faz parte dessa história. À procura de uma melhor vida, os primeiros ucranianos chegaram a Portugal nos anos 1990. Assim foi com Andriy Shved, dono do Oásis. Lisboa tornou-se, para ele, uma terra de sonhos.

Como muitos ucranianos, o primeiro emprego dele foi na construção civil, em Sesimbra. Era duro, mas era melhor do que ele deixava para trás: um país onde tudo se tornara “muito complicado”. “Recebíamos em produtos, como o sal. Se tinha muito sal e queria outra coisa, trocava”, explica.

Os “primeiros cinco anos em Portugal” foram dominados pelas “saudades” da cidade onde cresceu, Rivne, banhada pelas águas do Rio Dniepre, a 300 quilómetros de Kiev. E agora, continua: parte dos pensamentos e do coração de Andriy moraram sempre a quase quatro mil quilómetros de Lisboa, que são os que separam Portugal de Rivne. O pai e o irmão continuam na Ucrânia, numa região não muito longe de Odessa e de Lviv, uma no norte, outra no sul. Nomes de cidades que os portugueses se habituaram a ouvir repetidamente nos noticiários.

Andriy Shved, dono do Oásis. chegou a Lisboa em 2000. Foto: Rita Ansone

“Em Rivne, ainda estão um bocadinho longe do Leste, mas há rockets e sirenes todos os dias. O meu pai já tem 80 anos, para onde vai? Tem lá tudo”, diz o dono do Oásis. “Ligo só para saber se estão bem. Dizem-me que há menos sirenes, para me descansarem.” 

Um reduto ucranianos para celebrar a terra onde nasceram

Lisboa foi campo fértil para sonhos. Há 11 anos, depois de apenas quatro a trabalhar como empregado de mesa, Andriy conseguiu abrir o Oásis, com ajuda de um programa do Alto Comissariado para as Migrações, que apoia negócios de imigrantes em Portugal.

Foi o concretizar de um sonho que trouxe consigo outro: o de constituir família. Em 2012, conheceu Oleksandra Atamas, que contratou como cozinheira, para, dez anos depois, acabar como a sua mulher. Estão casados, com uma filha de cinco anos. E gerem juntos o espaço às portas do jardim da Gulbenkian.

Hoje, este restaurante vegetariano de São Sebastião faz novamente juz ao seu nome e é um verdadeiro oásis para os ucranianos que continuam a chegar à cidade.

São todos ucranianos os cinco empregados, divididos pela cozinha e a sala de refeições. O mais recente membro da equipa é Anastasia, que chegou a Lisboa há semanas, refugiada da guerra.  

Andriy é caloroso para quem visita o Oásis, mas não esconde a frustração: sente que os media portugueses só começaram a prestar atenção à comunidade ucraniana em Portugal por causa da guerra e isso revolta-o. “Estamos cá há anos, contribuímos para Portugal. Nas obras, os únicos portugueses que lá trabalham são os engenheiros. O resto são ucranianos, moldavos, estrangeiros. A Ucrânia é muito mais do que aquilo que se está a passar”, diz, emocionado. “É uma cultura por descobrir, poetas, comida.”

Foi também para celebrar a terra onde nasceu que abriu o Oásis em 2011 – e disso é sinal a decoração do espaço cheia de ícones e cultura ucraniana.

Vegetariano de inspiração ucraniana

O restaurante é vegetariano, porque quando abriu havia poucos em Lisboa, mas os pratos cruzam as fronteiras da gastronomia de Portugal e Ucrânia. Um dos bolos que mais sai às segundas-feiras, o Napoleão, é típico da Ucrânia. Conhecido pelo seu creme doce, no Oásis prova-se com maçã assada e canela. “É uma mistura dos dois países”, explica Andriy.

Às sextas, há a sopa borsch, de tradição ucraniana, à base de beterraba, batata, cenoura, funcho e feijão. Na Ucrânia costumam juntar carne, fazendo uma “refeição forte, acompanhada com vodka”, diz Oleksandra Atamas, mulher de Andriy e agora cozinheira do restaurante.

Oleksandra chegou a Portugal em 2007, três anos depois de ter terminado o curso de Gestão, na Ucrânia. Mal chegou a Lisboa, começou a procurar emprego nos “anúncios de jornais”.

Cá tem maior parte da família, a “mãe e o padrinho”. Só familiares mais afastados, “primos e primas”, restam em Uman, a cidade onde nasceu, no centro da Ucrânia. Oleksandra não está particularmente preocupada: “A minha cidade está mais segura, não foi bombardeada, acredita-se que, por interferência, do Presidente de Israel”.

Uman foi um importante ponto judaico na Ucrânia, entre os séculos XVIII e XIX, o que justificou a sua total destruição depois da ocupação nazi, na Segunda Guerra Mundial. Ainda hoje é local de peregrinação para muitos crentes rumo ao túmulo de Nachman de Breslau, importante rabino da comunidade judaica ucraniana.

Mesmo com a cabeça em borboletas – elas são a sua paixão – Oleksandra é a dona da cozinha. Os pratos vegetarianos mais comuns são executados com técnicas e produtos especiais. “Há uma loja na Avenida do Brasil com artigos de Leste que usamos muito, como o funcho e uma espécie de pepinos mais pequenos, que em Portugal não são tão usados.”

A cozinha ucraniana é simples e nutritiva, muito à base de cereais, leguminosas e produtos da terra. “Nos tempos da União Soviética, as pessoas não tinham nada em casa. Agarravam num bocado de farinha e leite e, pronto, ficava uma coisa boa”, explica Oleksandra, que não é vegetariana, assim como o marido Andriy.

O peixe português é uma tentação a que não resistem. “Numa terra perto do mar e com produtos tão bons, é difícil não cair na tentação”, diz, sorrindo.

O ucraniano mais benfiquista do mundo

No restaurante também trabalha Ivan Volyk, aos 72 anos. Os colegas dizem que foi um dos mais conhecidos jogadores de futebol da Ucrânia, mas ele desmente: “Joguei nos tempos da União Soviética. Havia equipas de Moscovo, do Azerbaijão, do Uzbequistão, da Bielorrússia, como era possível brilhar com tanta competição?”.

Uma lesão no pé esquerdo empurrou-o do campo para as bancadas, no papel de treinador. Foi no comando de equipas, ainda em Rivne, que conheceu Andriy que treinava em jovem no clube local, e que hoje recebe o velho amigo para um part-time, à hora de almoço, a servir às mesas.

Ivan Volyk é o quinto na fila de cima, a contar da esquerda.

Como Andriy, foi em 2000 que Ivan deixou a Ucrânia e o mundo do futebol e veio para Portugal. “Ucrânia não pagar dinheiro”, diz no seu português difícil. Ainda não fala muito bem e pede ajuda aos colegas de trabalho para a tradução. “Filho precisava de ir para a Universidade e não conseguia pagar tudo, comida e escola.”

No telemóvel mostra fotografias antigas no estádio de Rivne, cidade onde nasceu, próxima da fronteira com a Polónia. “Às vezes, à noite, sonho com eu em campo”, diz.

Chegou a Lisboa sozinho e só anos depois veio a mulher e um dos dois filhos, com a família. Hoje, os sonhos de Ivan vivem no neto Matvey – “Mateus, na terra de Portugal”, de seis anos, que segue a sina e já treina como guarda-redes nas escolinhas do Benfica. “Trabalhei 12 anos com crianças em escolas de futebol ucranianas. Na terra de Portugal é diferente. Muito bem organizada.” 

O restaurante Osasis, em frente à Gulbenkian. Foto: Rita Ansone

Ivan torce pelo clube da Luz e vibra principalmente quando marca Yaremchuk, o ponta de lança com a camisola nove da seleção ucraniana e do Benfica. É um dos ídolos de Ivan e de Matvey. Sem dinheiro para ir ao estádio, vê os jogos em casa. Na mesma casa onde acolheu a nora e os netos do segundo filho, que ainda está na Ucrânia, por força da Lei Marcial, que proíbe homens dos 18 aos 60 de saírem do país.

A guerra está na famíia há décadas. Do pai, Pavlo Volyk, soldado do exército vermelho na Segunda Guerra Mundial, Ivan ouviu as histórias de horror que não o fazem não falar muito do filho. Tenta não pensar. Vai fintando a dor a pensar na sua paixão, o futebol. É entre sorrisos que grita: “Benfica é a melhor equipa do mundo”.

“O netinho mais novo não fala português, mas já sabe qualquer coisa do hino do Benfica e gosta de ver na televisão a águia voar. Bate palmas e tudo”, conta. “Agora com 72 anos, não há futebol para mim. Só trabalho, preciso de dinheiro.”

Vamos “falar dos vivos”?

Na cozinha, Anastasia dá os primeiros toques nas panelas e tachos no Oásis, onde começou a trabalhar há uma semana, e não quer falar sobre a sua história nem sobre a Ucrânia que deixou há uns meses.

Andriy ainda traduz a pergunta, “quando se deixa tudo e tem de se começar de novo só com dois sacos nas mãos”… Perante o silêncio dela, Andriy quer que se fale dos “vivos”. Porque a guerra que a comunidade ucraniana combate está no “interior de cada um”, repete.

Andriy quer que se fale dos vivos. “Psicologicamente, vêm com imensos problemas. Podem ter trabalho, e o resto?” Foto: Rita Ansone

“É preciso falar do futuro, dos refugiados. Está a ser difícil entrar e muitos não falam inglês, quanto mais português”, diz. “Psicologicamente, vêm com imensos problemas. Podem ter trabalho, e o resto?”

Portugal já recebeu mais de 37 mil pessoas que fugiram da Ucrânia, segundo dados das Nações Unidas. Quatro mil crianças já estavam em escolas portuguesas e dois mil adultos conseguiram um contrato de trabalho. Esta é uma realidade que preocupa toda a comunidade ucraniana em Portugal, que se uniu numa onda de solidariedade para com os seus.

É o que explica Hanna Panchenko, empregada de mesa do Oásis. Nasceu em Lviv, em 1993, e chegou a Portugal ainda pequena, corria o ano de 2005. Hanna recorda-se bem da manhã de dia 24 de fevereiro, uma quinta-feira, quando acordou com a mensagem de uma amiga na Ucrânia a relatar o início da invasão russa.

“A minha mãe, que está cá em Portugal comigo, desatou a chorar e a ligar para os meus tios. Foi horrível. Esta guerra é uma estupidez, completamente evitável. Tenho dois amigos de 28 e 29 anos que já morreram, um deles deixou dois filhos”, diz Hanna.

Hanna tem ajudado sobretudo a arranjar donativos para as crianças ucranianas. Foto: Rita Ansone

Como mãe de duas crianças, uma de dois anos e outra de 11 meses, é a pensar nelas que tem contribuído para o movimento “Pela Ucrânia”. “Junto fraldas, leite, toalhetes para dar, mas todos podem ajudar com meias, calças, o que for”, diz.

Foi quando Anastasia chegou ao restaurante que a realidade do que é ser refugiado bateu à porta do Oásis. “Arranjaram-lhe uma casa para estar com a família, incluindo um filho de três anos, mas não tinham camas, frigorífico, nem talheres para comer… não havia nada”, diz Hanna. “Aos poucos conseguimos cadeiras, uma mesa e talheres. Um dia podemos ser nós quem precisa.”

É um exercício difícil, o de nos imaginarmos nessa situação. Talvez não tão difícil quando se pertence a uma comunidade sempre forçada a reconstruir-se.


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João Damião

É aluno do mestrado de Jornalismo da Universidade Nova de Lisboa/ FCSH. É um tanto idealista. Acredita que o melhor futuro é pautado pela educação, informação, beleza e tolerância. É isso que o move a contar histórias.

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