Foto: Inês Leote

Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

A Avenida da Igreja é um dos sinónimos maiores da vida de bairro em Lisboa. Com menos dependência do turismo, a freguesia contrariou a tendência da cidade e ganhou população na última década. Durante a pandemia, o comércio local sofreu menos. Isso vê-se na larga calçada da Avenida da Igreja, que todos os dias se enche de vizinhos em compras e em passeio, num buliço que é sinal de vida e de negócio para o comércio local.

Mas nem tudo está bem na concorrida avenida: nos passeios, há vida, mas na estrada o caos impera. Sobretudo na época do Natal. Ao longo do dia, especialmente aos fins de semana e finais de tarde. O estacionamento não dá resposta à procura. E os automobilistas param carros em cima de passadeiras, em segunda fila e, se for preciso, em terceira fila – conceito que nem o Código da Estrada cunha. O largo perfil da avenida acaba por ser um convite à prática, a que se junta, depois, o trânsito provocado por automobilistas à procura de lugar na avenida e ruas em redor.

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2021/12/MVI_1858.mp4
Entre carros em segunda fila e o trânsito gerado durante a procura de estacionamento, pouco espaço sobra numa avenida larga. Vídeo: Inês Leote

Em 2018, a EMEL – empresa de mobilidade e estacionamento de Lisboa, a Polícia Municipal e a Carris anunciavam um reforço da fiscalização deste fenómeno em várias artérias da cidade, entre as quais a Avenida da Igreja.

Segundo a empresa municipal de mobilidade, sete agentes da empresa continuam diariamente a fiscalizar estas irregularidades, tendo registado, este ano, mais de 12 mil infrações. No entanto, o problema persiste. Segundo a empresa municipal, cada automobilista em segunda fila demora, em média, 21 minutos a regressar ao carro – ou seja, o hábito é arreigado e serve as compras.

A Avenida da Igreja no passado sábado, 11 de dezembro. Foto: Inês Leote

Na Avenida da Igreja e nas ruas à volta, existem 782 lugares de estacionamento automóvel geridos pela EMEL. Destes, 591 lugares são para o estacionamento tarifado de rotação, podendo ser igualmente utilizados por visitantes e moradores com dístico de residente, e 191 lugares são para moradores com dístico de residente.

A estes números acresce ainda o parque de estacionamento do Centro Comercial de Alvalade, com 340 lugares e o parque do Mercado de Alvalade, com cerca de 110 lugares. Ao todo, a avenida e as ruas próximas à zona comercial têm uma oferta de estacionamento superior a 1200 lugares de estacionamento automóvel. Mas este número é insuficiente para a procura.

Junto ao eixo comercial da Avenida da Igreja, a oferta de estacionamento supera atualmente os 1200 lugares, entre lugares tarifados e lugares de utilização exclusiva para residentes.

Perante a aparente escassez, a resposta tantas vezes na ponta da língua é: aumentar a oferta para responder à procura. O desafio não é de agora. No final de 2020, Elsa Gentil Homem, presidente da Associação de Comerciantes de Alvalade (ACAL) e lojista na Avenida da Igreja, dizia, à Mensagem, que o problema do estacionamento já se arrastava desde “há sete ou oito anos”.

Para Elsa, “o que resolve é, ponto assente, um parque de estacionamento. Não há mais solução nenhuma”. Mas será mesmo assim que se resolve o problema? Não há dados que indiquem de onde vêm os carros que ali estacionam, nem se são de residentes do bairro ou de pessoas de fora. Mas há a sensação que talvez a distância de um parque não fosse suficiente para disuadir quem quer estacionar à porta da loja onde tem de ir.

Mais estacionamento ajuda o comércio local?

“Não é necessariamente assim”, responde João de Abreu e Silva, engenheiro, professor no Instituto Superior Técnico (IST) e investigador em modelação da procura de sistemas de transportes.

“Os custos do aumento continuado da oferta de estacionamento dão cabo da cidade. E estamos a criar um outro problema”, diz. Há o risco de um aumento continuado da oferta resultar num ciclo sem fim: “Quanto maior for a oferta, gera-se procura induzida, porque torna-se mais fácil estacionar e as pessoas optam por utilizar o automóvel. Consequentemente, vamos ter necessidade de mais espaço rodoviário”.

“Quanto maior for a oferta que se gerar, gera-se procura induzida, porque torna-se mais fácil estacionar e as pessoas optam por utilizar o automóvel”

João de Abreu e Silva

As queixas de comerciantes, que, como Elsa, propõem a resolução do problema através da criação de mais lugares de estacionamento, refletem “a perceção normal que quase todos nós temos” – a de que o sucesso do comércio local está, de alguma forma, dependente da oferta de estacionamento. Mas, explica João de Abreu e Silva, “a grande maioria dos trabalhos de investigação que se fizeram mostra que não”.

“A ligação entre as duas [coisas] não é assim tão grande. A investigação diz que as pessoas sobrestimam os efeitos do estacionamento sobre a procura e o volume de negócios do comércio. A grande maioria das deslocações para motivos de compras são a pé”. E não só.

Em Londres, as pessoas que chegam ao comércio a pé, de bicicleta e de transporte público são as que mais frequentam o comércio local e as que mais gastam – 40% a mais todos os meses, relativamente às pessoas que chegam de automóvel. É esta a conclusão de um estudo de 2018 da Transport for London, a entidade governamental responsável pela rede de transportes de Londres.

Num inquérito que João de Abreu e Silva realizou em Lisboa, com resultados idênticos aos alcançados pelo inquérito do Instituto Nacional de Estatística (INE) à mobilidade nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto de 2017, concluiu-se que são as deslocações a pé “o modo principal” para motivo de compras, com 52,8% dos casos, enquanto que as deslocações de automóvel, com um peso que, mesmo assim, “não é displicente”, representam 35,8%.

No entender do especialista, a freguesia de Alvalade “é um dos melhores casos de planeamento em Lisboa e, se calhar, em Portugal”. Não será por acaso que é uma das freguesias que, em Lisboa, mais se aproxima da cidade dos 15 minutos – um conceito do urbanismo que defende a criação de centralidades por toda a cidade, resultando na possibilidade de cada pessoa, deslocando-se a pé, de bicicleta ou transportes públicos, poder aceder, no espaço de 15 minutos, a uma multitude de serviços e espaços que satisfaçam as suas necessidades: locais de trabalho, instituições de ensino, espaços verdes, equipamentos desportivos e culturais e comércio local. Com cabeleireiros, farmácias, restaurantes, cafés, padarias e lojas de vestuário, a Avenida da Igreja é uma centralidade. Acessível a pé a grande parte dos fregueses de Alvalade, conta ainda com uma estação de metro e com várias carreiras da Carris.

Através da localização de serviços e equipamentos, Manuel Banza, lisboeta com gosto pelos dados, analisou o conceito de cidade de 15 minutos na freguesia de Alvalade. A roxo, a área alcançável em 15 minutos de deslocação a pé. No canto superior direito do mapa, podem ser selecionadas várias camadas referentes à localização de vários serviços e equipamentos.

Sobre a relação entre comércio local e estacionamento há, em Portugal, “pouca coisa feita”, diz João, mas são vários os exemplos de outros países. Um deles vem mesmo da capital vizinha. Dentro dos 472 hectares da zona de emissões reduzidas do centro de Madrid, implementada em novembro de 2018, só entram veículos de transporte público e os automóveis de residentes, bem como automóveis elétricos.

Apesar das dúvidas levantadas e da forte contestação de comerciantes, que temiam quebras nas receitas, o valor das compras no comércio local na altura do Natal aumentou 8,6% face ao ano anterior, enquanto que fora da zona com limites à circulação automóvel o crescimento foi de apenas 3,3%. Apesar das restrições no acesso automóvel, na Gran Vía, uma das principais avenidas comerciais de Madrid, o crescimento das vendas de estabelecimentos comerciais foi ainda maior – 9,5%.

Em 2010, Altrincham, localidade da área metropolitana de Manchester, em Inglaterra, 30% dos seus espaços comerciais estavam desocupados – era, à altura, a mais elevada taxa do Reino Unido, segundo relatório da autarquia local. Face à realidade, a administração local promoveu a melhoria das acessibilidades pedonais e a requalificação do espaço público do centro da localidade. O resultado? O número de pessoas a entrar nos estabelecimentos comerciais locais aumentou mais de 11% e, entre 2011 e 2018, a taxa de desocupação de espaços comerciais caiu dos 30% para os 7%.

Dois novos parques subterrâneos e uma nova praça

Para o recém eleito presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, José Amaral Lopes, a necessidade de criar mais estacionamento “é inquestionável”. “Basta falar com as pessoas que lá residem e até com os comerciantes”, diz. Apesar de reconhecer que a Junta não tem competência para decidir em matéria de investimento numa grande estrutura de estacionamento, o autarca eleito pela coligação Novos Tempos, numa das reviravoltas da cidade, promete pugnar, no decorrer do mandato, pela construção de um parque de estacionamento neste eixo.

Construir um parque de estacionamento na Avenida da Igreja não é exatamente uma ideia nova. Em 2004, um estudo previa a construção de um parque com 520 lugares em toda a extensão comercial da avenida e implicando um estaleiro a céu aberto, o corte de árvores e o encerramento à circulação automóvel durante um ano e meio. A ideia, entretanto abandonada, é agora substituída por um projeto que prevê um parque subterrâneo no Largo Frei Heitor Pinto, junto da Igreja, com cerca de 200 lugares.

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2021/02/Avenida-da-Igreja-2_000_2.mp4
A Avenida da Igreja e o Largo Frei Heitor Pinto, onde poderá vir a ser construído um parque de estacionamento subterrâneo com capacidade para cerca de 200 automóveis. Para Miguel Gaspar, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, o largo está atualmente transformado numa “rotunda com difícil acesso e muito estacionamento à superfície”.

Segundo Miguel Gaspar, vereador e antigo responsável pela mobilidade, no final do mandato anterior foi iniciado um processo de negociação com a empresa Empark, que detém “um conjunto de direitos de construção de parques de estacionamento na cidade que não estavam concretizados”. Estaria a ser negociada a transferência de um desses direitos para o Largo Frei Heitor Pinto. Segundo o vereador, a obra permitiria duas coisas: “reforçar a oferta de estacionamento e transformar o espaço público no próprio largo”. “Alvalade podia ganhar, ali, uma praça de fruição”, já que “hoje é, no fundo, uma rotunda com difícil acesso e muito estacionamento à superfície”.

Junto a este parque poderia nascer um outro, ainda. Miguel Gaspar adianta que a concessão atribuída à exploração do supermercado Lidl no Mercado de Alvalade, junto à Avenida Rio de Janeiro, “está a chegar ao fim”. Com o relançamento de uma nova concessão, diz, estava previsto “reforçar a oferta de estacionamento do mercado, em parque, para apoiar o mercado e o comércio envolvente”. Um parque de estacionamento subterrâneo com dois pisos, onde hoje já existe o parque de estacionamento do Mercado de Alvalade, à superfície. Atualmente com cerca de 120 lugares, iria “duplicar a oferta” existente, explica o vereador.

Eleito pelo Bloco de Esquerda à Assembleia de Freguesia de Alvalade, Leonardo Rodrigues não partilha da visão do atual presidente da junta de freguesia, eleito pela coligação Novos Tempos, nem das propostas avançadas pelo vereador do PS, Miguel Gaspar, prevendo a construção de mais oferta de estacionamento na zona da Avenida da Igreja. A solução, diz, “é mais simples do que parece: trabalhar para o estacionamento não ser necessário”.

O vogal da assembleia de freguesia quer “apostar nas pessoas” e considera que “uma rua onde se caminha e há menos carros é sinal de um bairro vibrante e com saúde”. Para a avenida, propõe o aumento de passeios, para “deixar crescer as esplanadas sem retirar espaço às pessoas”, e a construção de uma ciclovia como formas de “impedir o estacionamento em segunda fila e reforçar a redução das velocidades”. Pede ainda “uma carreira de bairro mais abrangente” – recorde-se que começou a circular em abril deste ano a 46B, a carreira de bairro de Alvalade da Carris, com passagem pela Avenida da Igreja.

Acabar com o caos: estreitar a estrada e lançar um processo de discussão pública

João de Abreu e Silva considera que o investimento em parques de estacionamento subterrâneo “pode potencialmente resolver alguns dos problemas”, mas, no longo prazo, o seu ceticismo aumenta. E, olhando para a atual tendência política de redução da dependência automóvel, levanta a questão: “[Será que daqui] a 50 anos vamos continuar a ter essa necessidade”?

Por entre carros em estacionados em cima das passadeiras e carros em segunda fila, os peões vão passando. Foto: Inês Leote

Ao mesmo tempo que avançaria a obra do futuro parque de estacionamento subterrâneo no Largo Frei Heitor Pinto, junto à Igreja de São João de Brito, “a intenção” do anterior executivo municipal era a de “lançar um processo de participação pública”, com o objetivo de definir “o projeto futuro da Avenida da Igreja”, explica Miguel Gaspar.

Uma das hipóteses ensaiadas para resolver o problema do estacionamento em segunda fila, para além do aumento da oferta de lugares, passa por “estreitar o perfil rodoviário”. O estreitamento da faixa de rodagem deixa pouca margem para veículos estacionados em segunda fila e “liberta muito espaço”, diz o vereador que já teve nas mãos a pasta da mobilidade em Lisboa. “Estamos a falar de, pelo menos, sete a oito metros para melhorar passeios, introduzir ciclovia” e reduzir o comprimento das passadeiras. Ali, diz, “temos espaço para tudo”.

O perfil da avenida, além de possibilitar o estacionamento em segunda fila, é causa de “sinistralidade relevante”, sobretudo ao nível dos atropelamentos, diz Miguel Gaspar, vereador da Câmara Municipal de Lisboa que, no anterior mandato autárquico, era o responsável pelo pelouro da mobilidade. “As travessias pedonais muito largas, levam a que haja um número de sinistros demasiado elevado.”

O atual presidente da Junta quer mais estacionamento neste eixo, mas o investimento está fora das mãos da freguesia. Será este o último Natal de caos na Avenida da Igreja?

*Nota de edição: acrescentada declaração de vogal da Assembleia de Freguesia eleito pelo Bloco de Esquerda (15h05 – 18.12.2021)


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 30 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

Entre na conversa

5 Comentários

  1. Bom artigo. Existem ainda os parques de estacionamento do Pingo Doce e Continente Bom Dia, na Rua João Saraiva

  2. É uma avenida bem mais bonita do que os carros fazem parecer. Basta olhar para fotos de quando foi inaugurada. “Porque é que as ruas nas fotos antigas parecem sempre mais bonitas?” Em grande parte porque não há o caos dos carros.

    Impressiona-me que os comerciantes achem que é preciso mais estacionamento. Acham que uma pessoa que vem de carro de Benfica, Cascais, ou Porto, vai estacionar o carro na avenida e pôr-se a passear a ver que lojas há? Sem dúvida alguma o estacionamento abusivo na avenida é para “take-out” em lojas específicas, e não para “ir às compras”. O melhor exemplo será o de ir comprar um frango ou uns bolos. E enquanto alguns fazem isso, a avenida perde o encanto e conforto para quem a frequenta numa perspectiva de lazer e exploração, pessoas que representam um muito maior potencial para a economia local.

    Para mim, a avenida só teria a ganhar se mudasse a estrada para apenas duas faixas com alguns bolsos de cargas e descargas (intensamente vigiados para evitar abusos). Poderia depois fazer-se uma ciclovia protegida em cada lado, ou bidireccional num deles. As esplanadas poderiam aumentar. De repente teríamos um verdadeiro centro comercial a céu aberto, procurado por muito mais gente simplesmente por ser mais agradável e confortável.

    Quanto às pessoas que deixariam de ir porque não têm onde pôr o carro, está na altura de deixar de desenhar a cidade para essas pessoas. Se vivem numa zona sem comércio a distância pedonal, têm de sentir as desvantagens, não se pode ter o melhor dos dois mundos.

    PS: Claro que para implementar este plano seria necessário ganhar alguns lugares noutro sítio, ora subterrâneos ora à superfície, mais pelos moradores do que pelos clientes.

  3. A solução é muito mais simples do que parecer ser:
    1 – Na Av. da Igreja basta passar para estacionamento em espinha (como está em alguma transversais), porque aumenta o número de lugares e acaba com o estacionamento em Alvalade e é zona verde na EMEL?!?! Não sei porquê mas é estranho… devia ser zona amarela, no mínimo, ou até mesmo vermelha ou castanha!
    3 – Sou morador, e não há respeito nem fiscalização da EMEL nas zonas de estacionamento de residentes. Não sei porquê mas é estranho…
    Em conclusão, o interesse dos comerciantes e restaurantes da zona tem prevalecido…

  4. Só é necessário que haja mais civismo! Não podemos ir de carro até e porta de tudo! Por isso fica tudo gordo,por não se mexer em!

  5. Sou morador de Alvalade há 27 anos e o problema é sempre o mesmo: querem meter o carro dentro da loja,do café..Muitas vezes a PSP nada faz dado que pode ser o carro do sr.ministro, do sr juíz e por aí fora…Por outro lado, os comerciantes agradecem as filas duplas de carros ao longo da avenida. A Avenida da Igreja é, para mim, das avenidas mais bonitas de Lisboa e ainda bem que voltou a ser uma avenida limpa!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.