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Cada regresso à cidade onde eu nasci, o Porto, é como uma viagem no tempo: o carro desliza pela marginal da Avenida Brasil e os contornos da maresia levam-me às primeiras saídas à noite, aos encontros de bicicletas no paredão, aos desabafos entre velhas amigas por detrás das árvores. No meu velho quarto, as nódoas de café na secretária contam histórias de noites sem dormir e as rachas nas paredes guardam as gargalhadas de uma criança que desenhava casas e bonecos a lápis de cor.

Para mim, durante anos, “casa” teve um só significado: o lugar de onde eu sou, o Porto. Não haveria outra solução para o meu futuro, era como se o mundo se limitasse àquele pequeno ponto no mapa. Casa era o cheiro a água salgada, a Ribeira em noites de São João, os Aliados em dia de jogo. Assim seria para sempre… até que, claro, nada correu como planeado. O destino trouxe-me a Lisboa.

Do Porto a Lisboa vai uma distância de 300 quilómetros. Mas não só de quilómetros é feita a distância, é sobretudo de pessoas, de cheiros, de sabores, de paisagens. De memórias. Eis a vida a desafiar as definições do dicionário, onde “casa” não passa do “nome genérico de todas as construções destinadas a habitação”. Um teto, um lugar onde pernoitar.

Viria eu a descobrir, casa é bem mais do que um lugar físico… ou fixo.

Lisboa era grande e confusa quando cá cheguei. Na primeira aula de faculdade, mal abri a boca, descobriram de onde eu vinha. “Tens sotaque”, disse-me uma colega com um sorriso. Contrariada, defendi a minha cidade com unhas e dentes, e acentuei ainda mais as vogais.

Nos primeiros tempos, não me senti de cá. Era uma estrangeira nesta cidade, alguém que dizia “à beira” e não “ao pé”. Não conhecia os percursos dos autocarros (logo eu que os sabia de cor no Porto), e perdia-me nas ruas quando já pensava conhecer toda a cidade.

Com o tempo, Lisboa foi-se transformando. Fui encontrando nela uma estranha beleza, que ia para além do magnetismo óbvio do Chiado e do Terreiro do Paço. Comecei a apaixonar-me por outras paisagens e sonoridades. Como pelo Martim Moniz. Pelas ruas ocupadas por outras línguas e vestes. Pelos cheiros que não pertenciam ao meu passado.

Foi nessas ruas que conheci uma mulher de véu na cabeça, de pele escura e feições muito bonitas. Eram seis da tarde e a praça enchia-se de vendedores de comida do mundo: as línguas corriam as bancas, os cheiros das especiarias dissolviam-se no ar e aquela mulher olhava, hipnotizada, para um vendedor que misturava ingredientes numa panela.

Curiosa, perguntei-lhe como se chamava. “Salaha”, disse-me ela com um sorriso, recebendo do vendedor um saquinho com um cheiro forte. Lá dentro, os ingredientes ainda ferviam: grãos de arroz com aloo bhujia (um aperitivo feito de massa de grão de bico e especiarias), salada, puré, massala, sal, óleo de mostarda e pickles de naga (um pimento).

Era o jhalmuri, um prato tradicional do Bangladesh, o país de onde viera Salaha.

“Todos os dias, trago o meu filho Muhammed aqui”, contou-me ela, apontando para uma criança pequena, de olhos escuros muito expressivos, que atirava jhalmuri para os pombos na praça. Salaha levou uma colher à boca e vi como se deliciava com o sabor de um outro tempo.

Apercebi-me então que a minha história, e a dela, embora geográfica e culturalmente bem distantes, não seriam assim tão diferentes. Tínhamos feito as malas à procura de futuros em Lisboa, sem virar costas ao passado: eu continuava a apanhar comboios para o Porto, ela recordava comendo. Como se comer fosse esse diálogo com as memórias de uma outra casa.

Nos dias em que me despeço do Porto, vejo a ponte D. Luís a desaparecer, uma memória fugaz do meu passado. Trago-a comigo para Santa Apolónia, para o meu quarto de onde consigo ver o Tejo. Quando dependuro a minha roupa no armário, penso em “cruzeta” e não em “cabide”. É uma língua que não me podem tirar.

Em Lisboa, recordo as ruelas da Ribeira, os edifícios tristes, o sotaque de vogais abertas. A casa onde aprendi a dar os primeiros passos, onde decorei o abecedário, onde descobri o significado das palavras difíceis. Há dias, dizia a um amigo meu, nascido e criado no Porto, como a nossa cidade tem essa aura mágica das primeiras vezes. Ele, um jovem forte nada dado a sentimentalismos, ficou com os olhos brilhantes, a rasar as lágrimas.

Mas a verdade é que hoje, quando avisto o Tejo à distância, o seu azul fulgurante num dia de verão, também as memórias começam a surgir. Quando caminho ao longo da Avenida de Berna, vejo uma outra Ana, mais pequena e indefesa, lentamente a encontrar-se nesta cidade. Pelas ruas da Graça, por onde muitas vezes passeio, já sinto as minhas raízes. Semeei ali os meus dias.

Quando pergunto a Salaha se pensa em regressar ao Bangladesh, ela não hesita: “claro que não”, diz-me. “Gosto de Lisboa”. Lisboa é a nossa casa. Fazemos parte da tapeçaria que é uma cidade com gente que vem de todos os cantos do país, de todos os cantos do mundo. Gente que fala com as vogais abertas, gente que fala com as as vogais fechadas, gente que reza a Deus e gente que reza a Alá. Gente que tanto come cozido à portuguesa como jhalmuri. “Lisboa é mais mundo”, disse-me uma vez o Ferreira Fernandes.

No futuro o mais certo é que os meus filhos digam “ténis” em vez de “sapatilhas”. Também eles criarão a sua própria língua, a sua própria forma de ver Lisboa: uma Lisboa de uma mãe tripeira que dirá sempre “fino” em vez de “imperial”. Uma Lisboa que tanto é do fado de Alfama como dos sabores do Martim Moniz.

O mesmo acontecerá com o pequeno Muhammed: daqui a anos, é possível que fale um lisboeta perfeito. Mas é também possível que a sua comida preferida seja o jhalmuri. Para ele, o jhalmuri não é a memória do país de onde veio a mãe, mas sim desta cidade onde se tornou homem. Uma cidade que se abriu para ele, misturando-se com as memórias dos seus pais. Lisboa será a fusão do seu passado com o lugar onde se fez o futuro.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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