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Fernandinha já viveu várias aventuras nos Santos Populares. Foto: Ines Leote

Alegre, jovial e divertida são palavras que sempre assentaram bem em Fernandinha. Ou, nas palavras da própria, “palhacinha, porque vou a todas.” E não são os 85 anos que a impedem de participar na Marcha Sénior ou de todos os dias subir e descer as ruas do Bairro Alto para ir tomar café.

Vestido vermelho e com lábios a condizer, Fernanda Martins enche o espaço onde está. Gesticula com energia à medida que conta a história da sua vida. “Uma história de vida maravilhosa” era o nome que daria se escrevesse uma biografia. Nascida em Lisboa, mas criada em Seia, Fernandinha, como é carinhosamente chamada pela vizinhança, veio viver para Lisboa aos 19 anos para servir em casas.

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Ouça o refrão da Marcha do Bairro Alto, cantado pela Fernanda.

Desde aí que as suas “histórias maravilhosas” têm tido Lisboa como cenário principal. Trabalhou em Campo de Ourique, viveu na Bica, esteve em cartazes publicitários de uma padaria espalhados por toda a cidade e arredores… Agora vive “à beira do Camões”. Passou por muitos sítios, mas tem o coração dividido em dois e, por isso, apoia todos os anos sempre duas marchas: a da Bica e a do Bairro Alto. “Não consigo escolher”, confessa.

A alegria com que fala das marchas podia ser prova de que foi marchante. Mas a vida não permitiu. “Vim para Lisboa para trabalhar, não tinha outra maneira de ganhar dinheiro, por isso não tive tempo.” Solteira e sem filhos teve sempre de “lutar por aquilo que queria”. Era empregada doméstica e depois trabalhou numa casa de chá, a Caravela.

Embora a vida não tenha sido um mar de rosas, ganhou uma família nos bairros onde viveu. “E rua abaixo, rua acima, toda a gente me quer bem”, canta, explicando que os vizinhos são a sua família, naquele espírito de bairro que tantos temem que se perca com a globalização da cidade.

“Vim sozinha para Lisboa, não tinha cá ninguém. Tive de fazer amigos”, recorda. E fez muitos porque durante a entrevista foi interrompida várias vezes para cumprimentar novos e velhos que passavam por ela. “Todos me tratam bem, conheci pessoas maravilhosas. Eu costumo aproveitar a vida e tudo o que me aparece”.

Vivendo este mote, Fernandinha já viveu várias aventuras nos Santos Populares. “Há uns anos, estava a ver as Marchas na Avenida na fila da frente. Conheci uma senhora que, no final, me convidou para irmos à Graça comer uns caracóis”. Passava das duas da manhã e lá foram as duas comer uns caracóis e beber “uma imperial à maneira”, que agora, que está reformada, resolveu aproveitar a vida.  

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Vídeo: Inês Leote

No final, desceram até ao Rossio, despediram-se e Fernandinha subiu até casa, no Bairro Alto. No percurso, encontrou um grupo de rapazes que lhe perguntaram o que andava a fazer sozinha àquela hora da madrugada. Prontamente, respondeu-lhes: “O mesmo que vocês, ando a divertir-me”.

Os rapazes não eram de Lisboa e, por isso, perguntaram-lhe onde era o Bairro Alto. Fernandinha fez de guia e, durante o caminho, foram sempre “na brincadeira”. Chegados ao Bairro, havia poucos bares abertos. “Terminámos a noite a comer um gelado e a conversar”, lembra.

E assim Fernandinha provou que a idade não impede nada. “Eu aproveito tudo o que me acontece! E assim sou muito feliz.”

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