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Um dos textos que li sobre a morte de António Mega Ferreira foi o tweet de Maria José Oliveira. Escreveu ela, recordando uma viagem comum “à aborrecida Bruxelas”, onde se conheceram: “António Mega Ferreira, o cidadão com que conversei muito sobre ostras, sopa de nabiças e I Guerra Mundial”.

Mega Ferreira, organizador cultural, foi um homem delicado a quem muitos portugueses devem a oportunidade de ter visto derviches girando na dança sufi, girando e girando, na Expo-98. E foi o escritor delicado de Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas, sobre o desaparecimento vago, lento e inexorável de palavras como “trampolineiro” e expressões cheias de fineza como “faça o obséquio”.

Maria José Oliveira é jornalista, cidadã delicada e dedicada a Lisboa, das melhores para nos entregar em casa o significado das pequenas marcas na pedra a debruar uma portada, um limoeiro que brota de lajedo antigo e amor por uma velhinha de Alfama.

Frequento a sua conta do Twitter para aprender sempre.

Encontraram-se, pois, estes dois cidadãos delicados, e na morte dele, ela evocou a conversa mútua sobre sopa de nabiça. Naturalmente. Mais ou menos cinco mil pessoas leram esta intimidade e calaram-se.


Ficámos, os cerca de cinco mil, agradecidos pela partilha do tão pequeno que tantas vezes diz tanto.

Por coincidência, ou prenda de Natal, por estes dias tenho estado a ler Les Années, da francesa Annie Ernaux, este ano nobelizada. O livro, publicado em 2008, é uma autobiografia contada por imagens, memórias de quando procurámos o que fomos ou flashes que nos assaltam porque sim.

Em epígrafe, Annie Ernaux cita dois autores.

Ortega Y Gasset, que diz: “Não temos senão a nossa história e ela não é só nossa”. E Anton Tchekhov: “Sim. Seremos esquecidos. É a vida, nada a fazer.”

De uma quase contemporânea (ela nasceu em 1940, sou oito anos mais novo) e francesa, de país onde vivi e conheço bem, lendo-a, reconheci criminosos famosos, slogans publicitários e políticos, sei quem foi Madame Soleil e lembro-me (o que nos reconduz a Mega Ferreira) de ter ouvido expressões em francês hoje caídas em desuso.

Sobretudo o que me fascina nesta Nobel, tão pouco lida por mim antes do prémio, é a atenção que ela dá àquele infinitamente pequeno que no tweet de Maria José Oliveira realça um mérito de António Mega Ferreira.

Sopa de nabiças. Eis, confirmamos pela enésima vez, o compromisso que o nosso jornal, a Mensagem, tem com a sua cidade.

Um dia, o nosso camarada Jorge Costa, que se autobiografava, aqui, com o seu dia a dia de sem abrigo, em memórias atuais e pungentes, contou que acabara de arranjar uma casa. Perceberíamos nós – os abrigados por hábito – a dimensão de tal mudança? Ele contou (cito de memória, para sublinhar o teor difuso mas verdadeiro desta crónica): “Entrei em casa, pus-me nu e dancei”.

Eu sei, Tchekhov, tudo isto desaparecerá. Mas nada vai impedir que um dia de janeiro do novo ano, suba Alfama, faço-me encontrado com a Maria José, num café que eu cá sei, a veja cumprimentada por uma, duas ou três velhotas.

A páginas tantas, pergunto-lhe pelo trenó do cidadão Kane, perdão, pela sopa de nabiça do cidadão Mega.

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