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Atravessar a porta lateral da Igreja de Nossa Senhora do Loreto, na rua da Misericórdia, é entrar numa espécie de teletransporte com bilhete direto para Itália. Aberta ao culto em 1522, a Igreja foi construída por mercadores italianos em Lisboa, que sempre dela cuidaram. 500 anos depois, ainda se ouve, aqui, a língua de Dante Alighieri.

Há vinte anos que a sacristia do Loreto funciona para o Padre Francesco Temporin, sacerdote de Pádua, como box, antes de entrar em pista para as confissões e missa da tarde. É presença assídua de longa data na Igreja do Loreto o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

O padre italiano Francesco Temporin é há vinte anos o responsável pela Igreja de Nossa Senhora do Loreto. Ao domingo, dá missa em italiano e diz que há mais compatriotas a frequentar a igreja. A maior parte do seu tempo, porém, é dedicado a ouvir os crentes em confissão. Foto: Inês Leote

Habitualmente, o padre Francesco conta com a ajuda de dois padres, um português e outro italiano, que estão de férias. Por isso, o reitor da Igreja tem o tempo contado e precisa de correr. Já quem se depara com aquela sacristia pela primeira vez fica de tal forma embevecido que só quer parar para contemplar cada detalhe: os mármores italianos da Igreja, o teto ricamente pintado, as mobílias de pau-brasil, Itália em Lisboa.  

Aberta a confissão todos os dias da semana das 9h30 às 12h30 e das 16h00 às 19h30, são muitos aqueles que procuram na Igreja de Nossa Senhora do Loreto a absolvição dos pecados. Perdido no tempo ficou o papel de ponto de encontro da comunidade italiana em Lisboa, apesar de esta não parar de crescer na cidade, ultrapassando já franceses e espanhóis.

Mesmo assim, alguns italianos ainda aparecem ao domingo, às 11h30, para ouvirem a missa na sua língua materna. E ainda hoje, o cargo principal do Loreto, o de Reitor, pertence a um italiano, porque há regras que se mantém desde 1518, quando os mercadores italianos, seduzidos pela riqueza do comércio na capital portuguesa, se reuniram para fundar uma Igreja da «Nação Italiana», diretamente dependente de Roma.

É claro que a Igreja portuguesa, ciosa dos seus tributos e poder, jamais olhou com bons olhos o estatuto do Loreto. No entanto, esta era a época de D. Manuel I, das corridas de elefantes pelas ruas de Lisboa, do ouro com cheiro a canela, das embaixadas com rinocerontes rumo à Santa Sé, sendo tudo amenizado pelas boas relações entre o Venturoso e o Papa – e pelo dinheiro da coroa portuguesa.

A historiadora Nunziatella Alessandrini, investigadora da CHAM – Centro de Humanidades, da Universidade Nova de Lisboa, que chegou a Portugal em 1995, encontrou no arquivo da Igreja do Loreto meio milénio de História italiana por contar. Foto: Inês Leote.

É o que explica Nunziatella Alessandrini, historiadora italiana de Bellaria-Igea Marina, na costa Adriática. Ao contrário dos seus compatriotas, seduzidos pelo comércio lisboeta, aquilo que a prendeu à cidade, em 1995, foi o amor por um português. Casou-se, divorciou-se e voltou a apaixonar-se quando descobriu este pedaço de casa a mais de dois mil quilómetros, que são os que, por terra, separam Lisboa de Itália.

Ainda jovem, Nunziatella estudava Literatura e Língua Alemã, mas o amor levou-a a descobrir a língua de Camões e os livros de Nuno Bragança. Perdeu-se no Arquivo do Loreto e achou meio milénio de História italiana por contar. A investigação que desenvolve no CHAM valeu-lhe a alta condecoração de “Ufficiale dell’Ordine della Stella d’Italia”, entregue pelo Presidente da República Italiana em 2022.

Nunziatella Alessandrini é uma dos mais de 30 mil italianos a viver em Portugal, segundo o Relatório de Imigração do SEF de 2021. Os italianos já são a quarta nacionalidade com mais expressão no país e a primeira da União Europeia. Não era assim quando Nunziatella chegou, em 1995. “Éramos uns dois mil e 500 italianos”, recorda. 

Para a investigadora, há uma razão para esta onda: “as regalias que o governo português dá aos reformados italianos”. “Em Itália, pagam taxas muito elevadas, mas cá têm a reforma completa, benefício que se prolonga por dez anos.”

Não é de agora, no entanto, que Lisboa é, aos olhos italianos, uma galinha de ovos de ouro.

“O Chiado era italiano”

Foi também à procura de lucro que os primeiros italianos chegaram à cidade, ainda na Idade Média, procura que aumentou com a “expansão atlântica” e a elevação do porto de Lisboa a um dos centros nevrálgicos do Velho Continente.

Assim a “cabeça do reino” encheu-se de mercadores sobretudo florentinos e genoveses. Os mais ricos tinham “casas comerciais” e alguns conseguiram, inclusivamente, chegar à nobreza portuguesa, por meio de casamento.

A própria Igreja da Encarnação, no Chiado, mesmo em frente à do Loreto, foi fundada pela condessa de Pontével, descendente de italianos. Nunziatella brinca: “O Chiado era italiano”.

Não é uma afirmação inocente. Giraldi. Bardi. Affaitati. Marchionni. São famílias italianas, algumas ainda com descendentes em Portugal, ricas, ligadas à compra do terreno que serve de casa à Igreja do Loreto. Em 1518, ali era uma “zona de mato” e a obra italiana impulsionou o desenvolvimento urbano do que hoje é o coração de Lisboa.

Toda aquela área pertencia aos limites da cidade, circundados pela grande muralha do tempo de D. Fernando I. Pelo corredor pouco iluminado que liga a sacristia à nave central, a parede ganha uma textura e uma cor diferentes: “É parte da Muralha Fernandina. Está mesmo no interior da Igreja”, diz a historiadora. “Para mim, é algo surpreendente. A Igreja está mesmo construída junto à muralha.”

A Igreja de Nossa Senhora do Loreto dos Italianos foi construída mesmo junto à Muralha Fernandina. Foto: Inês Leote

Um corredor branco e iluminado é a antecâmara do Arquivo onde Nunziatella Alessandrini trabalha. Ali estão guardados milhares de documentos, que são testemunho de meio milénio da presença italiana em Lisboa. Os róis de confessados, livros que registam os italianos que se confessaram antes da Páscoa e onde viviam, permitem traçar uma geografia da comunidade na cidade.

Não eram só mercadores que a compunham. Havia igualmente livreiros ou impressores – e muito mais. A zona da Encarnação, a Rua Nova de Almada, a do Alecrim e a zona da Praça de Camões eram verdadeiros conclaves de italianos. Tinham lojas de livros, de tecidos, de pedras preciosas e até de “chapéus de chuva feitos com ossos de baleias”.

O dinheiro italiano garantiu que o Loreto fosse das Igrejas mais ricas de Lisboa e que pudesse ser reconstruída, depois de incêndios e do Terramoto de 1755. Para a manter, cada italiano em Lisboa pagava “um quarto de ducado por cada cem que ganhava”, explica a investigadora do CHAM.

E foi também a pensar no capital que o Loreto foi construído, considera Nunziatella. “A documentação sugere que o objetivo foi religioso e laico. Eles eram homens de negócios e queriam um sítio para se juntarem e tratar de negócios.”

Mesmo assim, dedicaram-no à Virgem do Loreto, um culto frequente em Itália, mas pouco comum no Portugal quinhentista, embora mais tarde se tenha alastrado para outros pontos do país.

Ainda hoje em Alcafozes, no concelho de Idanha-a-Nova, no final de agosto, há festas dedicadas à Nossa Senhora do Loreto, com a presença da Força Aérea Portuguesa. Afinal, estamos perante a padroeira da aviação.

No teto da Igreja do Loreto, em pleno Chiado, conta-se um pouco da História da Virgem do Loreto, representada por cima de uma casa. Antes da invasão muçulmana à Terra Santa, no final do século XIII, a casa onde vivia Maria desapareceu. Acredita-se que a casa de três paredes (por estar construída junto a uma gruta) tenha sido levada pelos ares, por anjos, até à cidade italiana do Loreto, para sua proteção. Ainda hoje a vila italiana é um lugar de peregrinação e veneração.  

No teto da Igreja do Loreto conta-se um pouco da História da Virgem do Loreto, à qual a igreja foi dedicada. Um culto frequente em Itália, mas pouco comum no Portugal quinhentista. Foto: Inês Leote.

“A ideia de uma Nação Italiana nasce fora de Itália” e Lisboa é um dos berços

O mais surpreendente de tudo, para a historiadora, é a fundação da Igreja do Loreto destinar-se à “Nação Italiana”, como se lê na documentação. Na verdade, será preciso esperar mais de 300 anos, até 1861, para que a Itália nasça como país e identidade política unida.

Na Europa quinhentista, a Península Itálica era um mosaico de estados e dialetos, um terreno de rivalidades e intrigas palacianas, de desunião e competição. Eram principados, ducados, como o de Milão ou de Saboia, a Florença dos Medici, a República de Veneza, reinos como o de Nápoles e os interesses e domínios de Francisco I de França e Carlos V.

É, portanto, um “erro histórico” falar-se em italianos até 1861, diz a historiadora Nunziatella Alessandrini. “Em julho, o Gabinete de Estudos Olisiponenses, para comemorar os 500 anos da morte de D. Manuel I, pediu-me para falar sobre a relação do rei com Itália. Para o fazer, é preciso separar as relações com Florença, Génova, Veneza, Milão, enfim.” 

Para a historiadora Nunziatella Alessandrini foi fascinante descobrir que em Lisboa de quinhentos existoa uma identidade italiana unida que não existia à época na “Pátria-mãe”. Foto: Inês Leote

Mas em 1518, em Lisboa, as diferenças davam lugar à união, o que para a historiadora é fascinante: “A Nação Italiana nasce fora de Itália. É a primeira vez que encontro esta expressão nos documentos e mostra a união que não existia na Pátria-mãe”.

O aspeto das paredes da sala onde a historiadora trabalha expressa o esquecimento a que a Igreja do Loreto tem sido votada, nos últimos anos. Longe de ser o “polo aglutinador” da comunidade italiana, que fora em tempos, muitos italianos desconhecem este pedaço de Itália em Portugal, diz Nunziatella Alessandrini.

Igreja do Loreto, na esquina da Rua da Misericórdia com o Largo do Chiado. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa.

Ainda assim, o Padre Francesco Temporin nota que há mais italianos a assistirem à missa de domingo, a única em italiano, durante toda a semana. Mas a própria Igreja, não sendo uma paróquia, não tem catequeses, que criaria um maior sentido de comunidade. “É uma Igreja de confissões”, explica Nunziatella. 

A historiadora lembra que “hoje os interesses são outros” e a religião está em crise: “Os jovens com quem falo não se interessam muito, mas pode ser que um dia o Loreto volte a ser o centro da comunidade italiana”.

À Mensagem, a Embaixada de Itália em Portugal explicou que esta comunidade em Lisboa é sobretudo composta por “reformados”, que chegam “em grande número” para “beneficiar das regalias fiscais” e da “qualidade de vida do país”. Já os jovens italianos em Lisboa são sobretudo “nómadas digitais, empreendedores e estudantes” que procuram uma experiência internacional com prazo de validade.

Um pedaço de Itália em Portugal à espera de um Museu

Apesar disso, são os italianos em Lisboa que continuam a manter a Igreja do Loreto, como acontece desde o século XVI. E se Itália é terra de Imperadores, aqui quem ordena é uma Junta, uma assembleia de importantes membros da comunidade italiana em Lisboa, que discute orçamentos e programação.

Dela fazem parte o Reitor, o Padre Francesco Temporin, o Provedor, Giuseppe Nigra, descendente de italianos e Embaixador da Ordem de Malta em Portugal e mais três professoras italianas, incluindo a historiadora Nunziatella Alessandrini, a quem se junta um representante da Embaixada italiana.

Isto porque Loreto é um pedaço de Itália em Portugal, dependente da Embaixada, e, neste meio milénio de História, os italianos deixaram um legado imenso, que Nunziatella não consegue organizar sozinha. “No arquivo há muitas pérolas. Falta um Museu. Vamos ver se conseguimos propor um projeto à Santa Casa da Misericórdia.”

Dentro de um armário que tem na sala do arquivo, a historiadora guarda uma peça que clama por restauro: é um altar portátil, de cerca do século XVII, com pormenores a ouro. Por mais que se esforce, é pelos cantos que estão quadros, alguns já restaurados, do rei de Saboia, de um benfeitor piemontês do século XVIII e ao fundo, já na parede, uma grande obra de Nossa Senhora de Guadalupe.

“É uma pena as pessoas não verem isto”, diz Nunziatella, parando para contar uma história que ilustra o desconhecimento sobre a presença italiana em Lisboa.

“Em 2019, o Museu da Cidade organizou a exposição ‘Lisboa Plural’, sobre comunidades estrangeiras na cidade. Perguntaram-me qual era dimensão do rasto italiano”, conta, fazendo uma pausa e um sorriso.

Ainda há dúvidas de que há uma Lisboa italiana?


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* João Damião é aluno do mestrado de Jornalismo da Universidade Nova de Lisboa/ FCSH. É um tanto idealista. Acredita que o melhor futuro é pautado pela educação, informação, beleza e tolerância. É isso que o move a contar histórias. Este artigo foi traduzido [abaixo] por Nunziatella Alessandrini.


Chiesa di Loreto, nei primi decenni del ‘900. Foto: Archivio municipale di Lisbona/Joshua Benoliel

Chiesa di Nostra Signora di Loreto. Una chiesa italiana da 500 anni nel cuore di Lisbona

Gli italiani sono oggi la comunità più numerosa dell’Unione Europea a Lisboa. Hanno superato i francesi e gli spagnoli. Ma la “Lisbona d’Italia” è antica e ha la sua sede nella Chiesa di Nostra Signora di Loreto degli Italiani in pieno Chiado. Aperta al culto 500 anni fa, racconta la storia della relazione degli italiani con Lisbona.

Entrare attraverso la porta laterale della Chiesa di Nostra Signora di Loreto, nella rua da Misericórdia, significa arrivare quasi in teletrasporto direttamente in Italia. Aperta al culto nel 1522, la Chiesa fu voluta e fatta costruire dai mercanti italiani a Lisbona che di essa si occuparono sempre. Passati 500 anni, è frequente sentire in questo luogo la lingua di Dante Alighieri.

Da piú di vent’anni, la sacrestia funziona come anticamera per Padre Francesco Temporin, sacerdote originario di Padova, per prepararsi per le confessioni e le messe. Presenza assidua nella Chiesa di Loreto è quella del Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Il padre italiano Francesco Temporin è da vent’anni rettore della Chiesa di Nostra Signora di Loreto, fa una messa in italiano e dice che ci sono ora più connazionali  a frequentare la chiesa. Foto: Inês Leote

Padre Francesco Temporin si avvale di solito dell’aiuto di altri due padri, uno portoghese e uno italiano che in questo momento sono in ferie, per cui ha il tempo contato e deve affrettarsi. Chi viene in contatto con la sacrestia per la prima volta rimane così stupefatto che vuole fermarsi e contemplare ogni dettaglio: i marmi italiani, il tetto riccamente dipinto, i mobili di legno del Brasile, l’Italia a Lisbona.

Le confessioni sono aperte tutti i giorni della settimana, dalle 9h30 alle 12h30 e dalle 16h00 alle 19h30 e sono numerosi coloro che cercano l’assoluzione dei loro peccati nella Chiesa di Loreto. Perso nel tempo è rimasto però il suo statuto di punto di incontro della comunità italiana a Lisbona, nonostante questa sia in continua crescita, superando sia la francese che la spagnola.

Tuttavia, alcuni italiani sono presenti alla domenica alle 11.30 per ascoltare la messa nella lingua materna. E ancora oggi, l’incarico principale di Loreto, quello di Rettore, appartiene ad un italiano, mantenendo la tradizione dal 1518 quando i mercati italiani, attirati dalla ricchezza del commercio nella capitale portoghese, si riunirono per edificare una chiesa della “Nazione Italiana” direttamente dipendente dalla Santa Sede di Roma.

È evidente che la Chiesa portoghese non sempre vide di buon occhio gli statuti della Chiesa di Loreto. Tuttavia, era quella l’epoca del re D. Manuel I, delle corride di elefanti nelle vie di Lisbona, dell’oro con odore a cannella, delle ambascerie con rinoceronti alla Santa Sede, e tutto era reso più ameno grazie alle buone relazioni fra il Venturoso e il Papa –e grazie al denaro della corona portoghese.

La storica Nunziatella Alessandrini, ricercatrice del CHAM – Centro de Humanidades, dell’ Universidade Nova de Lisboa, arrivata nel 1995 in Portogallo, ha trovato nell’archivio della Chiesa di Loreto mezzo millennio di storia italiana da raccontare. Foto: Inês Leote

È quello che spiegaNunziatella Alessandrini, storica italiana di Bellaria-Igea Marina, sulla costa Adriatica. Al contrario dei suoi compatrioti, sedotti dal commercio lisboeta, è stato l’amore per un portoghese che l’ha portata a legarsi alla città. Sposata e poi divorziata, si è innamorata quando ha scoperto quel pezzo di casa a più di duemila chilometri, che è la distanza che separa, via terra, Lisbona dall’Italia.

Da giovane, Nunziatella studiava Lingua e letteratura tedesca ma l’amore l’ha portata a scoprire la lingua di Camões e i testi di Nuno Bragança. Si è poi immersa nell’archivio di Loreto e ha scoperto mezzo millennio di storia italiana da raccontare. La ricerca che sta facendo l’ha portata a ricevere, nel 2022, l’onorificenza di Ufficiale dell’Ordine della Stella d’Italia dalla Presidenza della Repubblica Italiana.

Nunziatella Alessandrini è una dei più di 30 mila italiani che vivono in Portogallo secondo le stime del Relatório de Imigração do SEF del 2021. Gli italiani sono la quarta nazionalità più numerosa nel Paese e la prima dell’Unione Europea. Non era così quando Nunziatella arrivò nel 1995. “Eravamo circa 2.500 italiani” ricorda. 

Per la ricercatrice, c’è un motivo per questa onda di affluenza:  “i benefici che il governo portoghese dà ai pensionati italiani” “In Italia, pagano tasse molto elevate, ma qui ricevono la pensione completa, senza trattenute, un beneficio che può prolungarsi per dieci anni”.

Tuttavia, non è da ora che Lisbona è, agli occhi degli italiani, la gallina dalle uova d’oro.

“Il Chiado era italiano”

Fu infatti la ricerca di lucro la ragione che portò gli italiani nella capitale portoghese, già nel medioevo, e che poi aumentò con l’espansione atlantica quando il porto di Lisbona diventò uno dei centri nevralgici del Vecchio Continente. 

Così la “testa del regno” si riempì di mercanti, soprattutto fiorentini e genovesi. I più ricchi avevano società commerciali e alcuni riuscirono anche ad entrare nei circoli della nobiltà grazie ai matrimoni. La Chiesa della Encarnação, nel Chiado, proprio di fronte a Loreto, fu fondata dalla contessa di Pontével, discendente di italiani. Nunziatella scherza: “Il Chiado era italiano”.

Non è un’affermazione innocente. Giraldi. Bardi. Affaitati. Marchionni. Sono famiglie italiane – alcune ancora con discendenti in Portogallo- ricche, legate all’acquisto del terreno che serve da casa alla Chiesa di Loreto.  Nel 1518, qui era tutta campagna e l’edificazione italiana ha dato impulso allo sviluppo urbano che oggi è il cuore di Lisbona.

Tutta quell’area costituiva il limite della città, circondata dalla muraglia fernandina. Lungo il corridoio poco illuminato che collega la sacrestia alla navata centrale, la parete acquista una forma e un colore differenti: “È parte della Muraglia Fernadina. È proprio all’interno della Chiesa”, dice la storica. “Per me è qualcosa di sorprendente. La Chiesa fu costruita proprio a ridosso della muraglia”.

Un corridoio bianco e illuminato è l’anticamera dell’archivio dove lavora Nunziatella Alessandrini. Qui vi sono conservati migliaia di documenti che testimoniano mezzo millennio di presenza italiana a Lisbona. I libri dei confessati in cui venivano registrati gli italiani che ottemperavano alla confessione pasquale, registrano anche la zona in cui vivevano, permettendo tracciare una geografia della comunità italiana a Lisbona.

La comunità italiana non era composta solo da mercanti. Vi erano anche librai e editori – e molto altro. Le zone dell’Encarnação, la Rua Nova de Almada, la Rua do Alecrim e la zona della Praça de Camões erano veri quartieri italiani. Avevano negozi di libri, tessuti, pietre preziose e finanche “ ombrelli fatti con ossa di balene”

Il denaro italiano garantiva che Loreto fosse una delle chiese più ricche di Lisbona e che potesse essere ricostruita dopo l’incendio del 1651 e del terremoto del 1755. Per mantenerla, ogni mercante italiano pagava “un quarto di ducato ogni cento incassati” spiega la ricercatrice del CHAM.

Le migliaia di documenti dell’Archivio della Chiesa di Loreto ci permettono di dire che la sua creazione ebbe ragioni religiose, ma anche secolari: essere il punto di incontro degli uomini d’affari italiani con sede a Lisbona. Foto: Inês Leote.

Loreto fu costruito anche pensando ai capitali, dice Nunziatella “I documenti suggeriscono che l’obiettivo era religioso ma anche laico. Erano commercianti e volevano un luogo per riunirsi e anche per trattare dei loro affari”.

Dedicarono il tempio alla Madonna di Loreto, un culto che, in quel periodo, era molto venerato in Italia ma ancora poco comune in Portogallo. Più tardi il culto si disseminò in altri punti del paese e, ancora oggi, ad Alcafozes, nel distretto di Idanha-a-Nova, a fine Agosto ci sono feste dedicate a Nostra Signora di Loreto e che contano con la presenza delle forze aeree. Infatti la vergine lauretana è patrona dell’aviazione.

Il dipinto del soffitto della Chiesa racconta un poco della storia della Vergine di Loreto. Prima dell’invasione musulmana in Terra Santa, alla fine del secolo XIII, la casa in cui viveva Maria scomparve. Si narra che la casa con tre pareti (perché costruita adiacente ad una grotta) sia stata trasportata in volo dagli angeli fino alla città italiana di Loreto. Ancora oggi la cittadina italiana è luogo di pellegrinaggio e devozione.

Il tempio è stato dedicato alla Madonna di Loreto, un culto che, in quel periodo, era molto venerato in Italia ma ancora poco comune in Portogallo Foto: Inês Leote

“ L’ideia di Nazione Italiana nasce fuori dall’Italia” e Lisbona è una delle culle  

Il più sorprendente di tutto, per la storica, è che la Chiesa di Loreto era destinata alla “Nazione Italiana”, come si legge nei documenti. In realtà, bisognerà aspettare più di 300, fino al 1861, per poter parlare di Italia unita e con una sua identità politica.

Nell’Europa del 1500, la Penisola Italiana era un mosaico di stati e di dialetti, un terreno di rivalità e intrighi di palazzo, di disunione e competizione. Vi erano principati, ducati, come quelli di Milano o di Savoia, la Firenze dei Medici, la Repubblica di Venezia, regni come quello di Napoli e gli interessi di Francesco I di Francia e di Carlo V.

È quindi un errore parlare di “italiani” prima del 1861, dice la storica Nunziatella Alessandrini. “In luglio, per commemorare i 500 anni della morte di D. Manuel I, il Gabinete de Estudos Olisiponenses mi ha chiesto di parlare delle relazioni di D. Manuel com l’Italia. Per farlo, è necessario parlare delle relazioni con Firenze, Genova, Venezia, Milano, etc.”

Tuttavia a Lisbona, nel 1518, le differenze dettero spazio all’unione, fatto che per la storica è affascinante: “La Nazione Italiana nasce fuori dall’Italia. È la prima volta che incontro nei documenti questa espressione che mostra l’unità che non esisteva nella madre patria.”

L’aspetto delle pareti della sala in cui la storica lavora evidenzia lo stato di oblio in cui la Chiesa di Loreto è caduta negli ultimi anni. Non è più il “polo agglutinante” della comunità italiana come lo era nel passato, e molti italiani non conoscono questo pezzo d’Italia in Portogallo, dice Nunziatella Alessandrini.

La maggior parte del tempo di Padre Francesco Temporini è dedicato alle confessioni. Foto: Inês Leote.

Nonostante ciò, Padre Francesco nota che ci sono più italiani che assistono alla messa della domenica, l’unica in italiano di tutta la settimana. La Chiesa, che non è Parrocchia, non ha catechismo che contribuirebbe a creare um maggior senso di comunità. “ È la Chiesa delle confessioni”, spiega Nunziatella.

La storica ricorda che “oggi gli interessi sono altri” e la religione è un po’ in crisi. “I giovani con cui parlo non si interessano molto, ma può accadere che Loreto torni ad essere il centro della comunità italiana”

L’Ambasciata d’Italia in Portogallo ha spiegato che questa comunità a Lisbona è composta da pensionati che arrivano “in grande numero” per “benefici fiscali” e per “la qualità della vita nel paese”. I giovani italiani che arrivano in città sono sopratutto “nomadi digitali, imprenditori e studenti” che ricercano un’esperienza internazionale con data di scadenza.

Un pezzo d’Italia in Portogallo in attesa di un Museo

Gli italiani continuano a mantenere la Chiesa di Loreto come accade dal secolo XVI. E se l’Italia è terra di Imperatori, qui chi dirige è una Giunta, un gruppo di membri della comunità italiana a Lisbona, che discute preventivi e fa programmi.

Fanno parte della Giunta il Rettore, Padre Francesco Temporin, il Provveditore, Giuseppe Nigra, discendente di italiani e Ambasciatore dell’Ordine di Malta in Portogallo e tre professoresse italiane, inclusa la storica Nunziatella Alessandrini. Fa parte della Giunta anche il rappresentante dell’Ambasciata Italiana.

Loreto è, infatti, un pezzo d’ Italia in Portogallo, dipende dall’Ambasciata e, in questo mezzo millennio di Storia, gli italiani hanno lasciato un’eredità importante che  Nunziatella non riesce ad organizzare da sola.“L’archivio ha molte perle. Manca un Museo. Vediamo se possiamo proporre un progetto alla Santa Casa da Misericordia.”

Dentro un armadietto nella sala dell’archivio, la storica custodisce un oggetto che reclama un restauro: si tratta di un altare portatile del secolo XVII, con particolari in oro. Vi sono, inoltre, quadri, alcuni già restaurati del Re Umberto di Savoia e di benefattore piemontese del secolo XVIII e in fondo, appeso alla parete, un bel dipinto di Nostra Signora di Guadalupe “È un peccato che le persone non possano vedere il dipinto” dice Nunziatella che fa una pausa per raccontare una storia che illustra quanto sia poco conosciuta la storia della presenza italiana a Lisbona.

“Nel 2019, il Museu da Cidade de Lisboa ha organizzato exposição ‘Lisboa Plural’, sulle comunità straniere nella capitale. Mi hanno chiesto quale era la dimensione del lascito italiano”, racconta, facendo una pausa e sorridendo.

Ci sono ancora dubbi che esista una Lisbona italiana?


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* João Damião è uno studente del Master in Giornalismo presso l’Universidade Nova de Lisboa/FCSH. È un po’ idealista. Crede che il miglior futuro sia guidato dall’educazione, dall’informazione, dalla bellezza e dalla tolleranza. Questo è ciò che lo spinge a raccontare storie. Questo articolo è stato tradotto da Nunziatella Alessandrini.

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