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Na Lapa, Tina Sabounati encontra-se com Susie, a amiga que fez em Lisboa, desde que chegou há três meses. Juntas, tomam um café quente para fazer frente à chuva. De um lado para o outro, corre Nima, de quatro anos, filho de Tina. Rende-se aos brinquedos de dinossauros e a um capacete de bombeiro.

Nima parece feliz, alheio ao que se passa no país onde a mãe nasceu e aonde não pode regressar. Também por causa dele. Tina garante que não pode voltar ao Irão por ter tido um filho com um homem não muçulmano. “Isso dá prisão”, justifica.

Ela vive desde os cinco anos na Alemanha, como refugiada. Nunca esperava viver para ver o que está a acontecer. Não consegue conter as lágrimas quando fala sobre Mahsa e outras jovens iranianas mortas às mãos da polícia.

Como Asra Panahi, de 16 anos, que foi espancada até à morte na própria escola por se recusar a cantar um hino pró-regime. É uma das pelo menos 27 crianças que já morreram desde o início dos protestos.

Os iranianos estão na rua contra o regime desde finais de setembro, como reação à morte de Mahsa Amini, de 22 anos, jovem curda que tinha sido detida pela polícia da moralidade por alegado uso incorreto do hijab, o véu islâmico. 

“Mahsa representa três aspetos que o poder detesta: mulheres, jovens e uma minoria étnica, os curdos”, explica Tina.

Os protestos nos EUA em soidariedade com as mulheres do Irão. Foto: Craig Melville on Unsplash

A polícia da moralidade é uma força especial, guardiã da visão mais dura e conservadora do Alcorão. É esta a linha seguida no Irão desde a revolução cultural de 1979, que instituiu a República Islâmica. Um autêntico estado teocrático, onde a Xaria, o direito islâmico, é lei.

Tina chora porque sabe que poderia ter sido uma das vítimas, e porque foi por tudo isso que a mãe fugiu do Irão em 1986. Tina tinha apenas cinco anos e o irmão nove meses quando chegaram à Alemanha para crescer num campo de refugiados.  

Uma “revolução” a acontecer e com ecos em Lisboa

Tina Sabounati recorda-se mal do dia em que partiu de Teerão há 36 anos: “A minha mãe disse-me que íamos só passar férias. Mesmo assim, achei estranho fazerem muita força para me despedir da família, sobretudo da minha avó.”

A mãe de Tina foi uma das muitas iranianas que saiu à rua em 1979 contra a monarquia absoluta. Uma parte do país queria uma democracia plena, um sonho que hoje guia os iranianos, garante a filha.

A mãe de Tina estudara Finanças e ocupava um prestigiado cargo num banco iraniano. “Lembro-me de ver fotografias da minha mãe no Irão, antes da revolução, com mini saias”, recorda. “Quando a minha mãe me teve, aos 27 anos, já era dona de dois apartamentos na capital. O meu pai tinha um bom emprego, numa companhia de seguros, mas era a minha mãe quem mandava em casa, quem ganhava mais”, recorda Tina.

Quando a revolução triunfou, as mulheres perderam tudo. Foto: DR

Tudo mudou com a República Islâmica: “Coisas que em Portugal são normais e que cada um pode fazer quando quiser são proibidas no Irão, como andar de bicicleta. Uma mulher não pode fazer check-in num hotel ou sair do país sem autorização do chefe de família, homem”, explica Tina.

No Irão, perante um divórcio, os filhos aos sete anos passam automaticamente para tutela do pai. Num tribunal, um testemunho de uma mulher vale sempre metade da palavra de um homem. “São precisas duas para igualar o testemunho.”

Tina cresceu na Alemanha, viveu um ano nos Estados Unidos, uns tantos em Londres e na África do Sul. “É o retrato de alguém que está sempre à procura de um sítio que chame casa. Sempre me senti estrangeira a vida toda e tive de crescer sem o meu pai – e era a menina do papá”.

Por força da requisição civil, imposta durante a Guerra entre o Irão e o Iraque, de 1981 a 1988, o pai de Tina não pôde acompanhar a família até à Europa. “Só nos encontrámos sete anos depois. É muito tempo para manter um casamento, quando nem sequer havia internet”, conta. Os pais voltaram, cada um, a casar.

Hoje, Tina sonha em regressar ao Irão, “mal o regime caia”.

Tina estudou Direito mas trabalha em Marketing. Foto: Inês Leote

Ainda assim, Lisboa dá-lhe uma sensação de “paz”. “Queria dar um lar ao meu filho, já que não podemos regressar ao Irão”, conta. “De entre todos os países europeus, Portugal é onde sinto que exista menos racismo, quando comparado com a Espanha ou Itália. Mas claro que há racismo em todo o lado.”

Em Lisboa há três meses, Tina, que estudou Direito e trabalha em Marketing, divide o tempo entre o trabalho, a vida de mãe solteira e o ativismo. Um pouco por todo o mundo, os iranianos estão a assumir espontaneamente o papel de ativistas para “sensibilizar a comunidade internacional da revolução que está em curso no país”.

Lisboa não é exceção.

Portugal é importante, lembra Tina Sabounati. “Este é o país do secretário-geral da ONU.” Por isso, com a comunidade iraniana lisboeta, Tina organiza protestos em frente à embaixada iraniana, escreve cartas a políticos e dá conferências.

“Todos somos feministas”

Para onde quer que Tina vá, Susie vai atrás, para olhar pelas crianças. Susie, que também trocou a Dinamarca por Lisboa há quatro meses, diz que vai por gosto.  “Afinal, somos todas feministas, temos o direito de escolher o que usar – e isso não está a ser respeitado. É giro ver também as crianças a abanar as bandeiras do Irão.”

No protesto em Lisboa, no Rossio, a 1 de outubro, reuniram-se mais ou menos 350 pessoas em frente à embaixada iraniana em Lisboa. “A comunidade iraniana em Lisboa é pequena, mas muito ativa”, diz Tina.

Em mente, têm todos o frustrado “Movimento Verde” de 2009, o último grande confronto com o regime. Durante meses, milhares de pessoas saíram às ruas do Irão para contestar a vitória de Mahmoud Ahmadinejad nas eleições.

O “silêncio do Ocidente” contribuiu para o fracasso político de 2009-2010. Desta vez, Tina não tem dúvidas: “As pessoas querem outro regime. Querem democracia”. Para isso, “estamos dependentes do mundo, os poderes internacionais têm de intervir”.

Porquê o Irão?

Nos protestos em Lisboa e em outras cidades mundiais, os manifestantes usam uma bandeira diferente da República Islâmica. Esta é apenas tricolor, com o vermelho, branco e verde. Dispensa, ao centro, as quatro meias luas pintadas em vermelho sobre o branco e em torno de uma espada, um símbolo islâmico. 

“Os iranianos sentem que o Islão não é a sua cultura original”, diz Tina Sabounati.

Os protestos corajosos no Irão. Foto: Hadi Yazdi Aznaveh on Unsplash

A advogada evoca razões históricas para explicar o que está a acontecer no país. O território que hoje é o Irão foi alvo de islamização no século VIII.

“Mas a nossa cultura original é persa. Os principais feriados não são islâmicos, são o ano novo persa, por exemplo.” E o Irão é um dos países do mundo islâmico onde não se fala árabe – a língua é aborígene, o Farsi.

Porém, esta “não é uma guerra contra o Islão”, alerta Tina. “Nas ruas, estão mulheres sem e com o hijab, porque o que está em causa é a liberdade de escolha. A mulher é que decide se respeita ou não os preceitos religiosos. Também está errado proibir o uso do véu, como se discute em França.”

Uma “revolução feminista”, que se tornou “mais que isso”

Tina explica porque as mulheres foram as primeiras a sair à rua, em finais de setembro deste ano. “Esta é a principal revolução feminista deste século, mas é muito mais que isso”, afirma.

Inicialmente, logo em 1979, “as mulheres foram as grandes opositoras do regime. Os homens estavam cansados de guerrilhas e pensavam que ia ter direitos. Mas este poder é repressivo e não oferece liberdades a ninguém”, diz.

“No Irão, não é permitido cantar-se em público ou ouvir música. Não podia estar sentada num café como estou hoje a dar uma entrevista a um jornalista.”

O que se está a passar no Irão não pode ser somente explicado à luz da História. O presente é definidor. Este é um dos países mais jovens do mundo. Quase 40% da população tem uma idade inferior a 24 anos, dados da UNESCO. Esta é uma geração jovem, bastante qualificada, que se vê castrada com a preponderância religiosa. 

Hoje, Tina diz que é uma “revolução” que está em curso no Irão, porque em cima da mesa está a “queda do regime e a luta pela democracia”. “É uma revolução, porque a elas se juntaram os homens, pobres e ricos, todas as províncias e há greves em muitos setores, incluindo o petrolífero”, justifica.

E a advogada admite que quer regressar, assim que o regime caia. No Irão, está o pai, a meia-irmã, muitos primos e tios, que Nima não conhece.

“O Irão é a minha casa. A Alemanha nunca foi. Como refugiada, tentas muito pertencer: falo a língua, estudei, trabalhei, paguei impostos. Fiz tudo o que era esperado de mim. Mas sou sempre vista como estrangeira”, diz. “Estou muito agradecida à Alemanha, ainda assim. A Alemanha trata bem os seus refugiados, apesar de tudo. Só passámos pouco mais de dois anos no campo de refugiados, depois tivémos acesso a um apartamento. Hoje, tenho educação e um passaporte graças ao Estado alemão”. 

Tina luta para assegurar uma melhor infância a Nima, para que ele possa crescer num país “onde ninguém lhe diga «volta para a tua terra»”. Porque foi sempre isso que ouviu. “Na escola, nunca fui convidada para as festas de aniversário, era tratada como a ‘miúda suja’, por ter o cabelo e a cor de pele mais escura.”

Tina luta, mas quer dar um exemplo de uma mãe feliz. Porque viu a sua a destruir-se aos poucos: “Foi tudo um pesadelo para ela. Pertencíamos à classe alta no Irão e, de repente, a minha mãe tinha de trabalhar numa gelataria para sobrevivermos.”

Agora, Tina sente que a casa de Nima também é Lisboa. Juntos constroem um novo lar. E a amizade que Tina e Susie criaram é também o espelho da diversidade e da complexidade deste mundo. Uma nasceu num dos países mais avançados nos direitos das mulheres. A outra num que está muito abaixo na lista.

Ambas vieram em busca do sol.

É um mundo que se abre e entra por Lisboa, que não existe encerrada dentro de si.


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João Damião

É aluno do mestrado de Jornalismo da Universidade Nova de Lisboa/ FCSH. É um tanto idealista. Acredita que o melhor futuro é pautado pela educação, informação, beleza e tolerância. É isso que o move a contar histórias.

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2 Comentários

  1. Boa tarde, sou aluna do Colégio Atlântico e estou a fazer um trabalho sobre a submissão das mulheres árabes. Eu li a vossa notícia e quería saber mais sobre Tina Sabounati. Há alguma possibilidade de contactar o jornalista ou a senhora para poder ter mais informações sobre o assunto?
    Um resto de boa tarde.

  2. Bom dia, Laura. Vamos enviar-lhe por e-mail o contacto do jornalista que publicou este artigo.

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