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“Hoje, o Mamadu é outra pessoa.” É o mesmo homem à vista: olhos castanhos, mãos largas picadas pelas agulhas, cabelo curto e pele morena. Nisto, nada mudou. Mas no dia em que nos conhecemos numa sala de costura num rés-do-chão em Arroios, Mamadu Djamanca, 35 anos, preparava-se para receber um papel que esperava mudar-lhe a vida.

É o único homem entre mulheres nas fileiras de mesas com máquinas de costura, “mas, quando temos todos o mesmo objetivo, não há diferenças”, diz, entre um golpe numa gola daquilo que será uma camisa.

Estamos numa das oficinas da Bandim, que nasceu como uma plataforma multimarcas, onde trabalham pessoas de diversas nacionalidades. Aqui, chegam sobretudo imigrantes recém-chegados a Lisboa, encaminhados pelas diversas associações com que se cruzam à chegada, para encontrar na costura (ou na criação de azulejos) uma ocupação ou uma forma de recomeçar a vida, com real rendimento.

Mas a Bandim é muito mais do que isso.

Na oficina de Arroios, da Bandim, onde artesões de várias origens costuram a sua arte. Foto: Inês Leote

Diz Marisa Ribeiro, técnica de projeto da plataforma, que a Bandim “espelha esta diversidade cultural” que existe em Lisboa e, por isso, nasceu para ser ela própria uma ferramenta de integração, ao abrigo da Fundação Aga Khan. “Como se fala em inglês e português, permite que quem cá chegue vá aprendendo um pouco de português, quando não sabe, e isso facilita a integração.”

“Peixe, peixe, peixe.”

Emília levanta-se da mesa dela, constata o que a amiga está a bordar numa fronha de almofada e repete. É um peixe, de facto. Por ela, passa uma outra colega, indiana, que graceja sobre a repetição desta palavra que lhe é estranha a ela, familiar a Emília, e que já mais parece uma canção na boca da artesã de Cabo-Verde.

“Peixes, peixes, peixes”, cantam a duas vozes. E riem.

Não por acaso decidiram chamar ao que se faz aqui “Bandim”. Marisa explica o conceito, ele próprio multinacional, plural: “Este é o nome usado na Guiné-Bissau para um mercado onde se vendem várias coisas. Mas também, na Índia, é o nome de um terreno fértil cedido gratuitamente às pessoas para plantarem sementes e dali colherem fruto”.

Mamadu colheu o primeiro dos frutos.

Hoje, na oficina em Arroios, distribuíam-se diplomas pelos artesãos da iniciativa a que chamaram “Costurarte”. Por isso é que, “hoje, Mamadu é outra pessoa”, garante o próprio. É que esta folha vai permitir que um homem como ele, vindo da Guiné-Bissau há cerca de dois anos para salvar o filho, se torne o costureiro que sonhou ser.

Mamadu acredita que o diploma que obteve através deste projeto da Bandim lhe vai abrir portas para criar um negócio como sonhou. Foto: Inês Leote

A montra de artesãos escondidos

As oficinas da Bandim, que está a caminho de se tornar uma cooperativa, transformaram-se numa montra da rede de artesãos escondidos pela cidade – os que só descobriram o talento sentados em frente a estas máquinas, mas também os que já o eram quando atracaram na cidade.

Como Mamadu Djamanca.

Foi em 2021 que Mamadu chegou a Lisboa, apenas com o objetivo de matar o tumor que crescia no filho. Foto: Inês Leote

Se ponto cruz ou invisível, à mão ou à máquina, não importa sequer o tamanho da agulha ou a peça que se crie: toda a costura tem dois simples segredos, diz o costureiro, que garante dominar a arte desde os dez anos. São eles foco e paciência. A mesma matéria-prima que o trouxe a Portugal e o fez lutar em frente às máquinas da Bandim.

A chegada de Mamadu até este ponto soa simples se o virmos sereno, na secretária, a manusear um dedal. Mas tem sido um conto tão turbulento quanto as curvas que cravou na gola da camisa que tenta criar na oficina.

A memória resgata-o para aqueles tempos difíceis na Guiné-Bissau, onde agarrar a agulha não era sonho nenhum, mas uma obrigação. Tinha dez anos. “De início, não foi a minha escolha. Mas, na altura, havia muitos jovens que passavam o dia a fumar cigarro e a minha mãe não queria que eu fosse por esse caminho, por isso, ensinou-me a costurar e sugeriu que eu seguisse isto. Não gostei. Agora é o que mais gosto de fazer na minha vida.”

Na Guiné, fazia “bordado e costura simples”. E diz que toda a gente o conhece por lá como o “Djamanca costureiro”. Até há, em Lisboa, quem tenha vindo da Guiné e o reconheça agora por estas bandas, conta.

Dali, viajou para a Guiné Conacri, Senegal, Nigéria e Moldávia – em alguns dos sítios com contrato para fazer apenas camisas de homem, como as que tentava replicar neste dia. “É só imaginar e faço.” Voltou à Guiné-Bissau em 2013, com planos mais ambiciosos. Abriu uma loja, onde tem hoje “vários rapazes e raparigas a quem é ensinada costura”, tal e qual acontece na Bandim. Tal e qual fizeram com ele, lá no início e agora. “É para as crianças terem outra coisa, para não caírem nos maus vícios.”

A infância invertida pelas linhas da costura, como quem trava um fado, dá lugar a um sonho. Mas um sonho interrompido pelo diagnóstico mais difícil da vida de Mamadu.

Tinha sido pai há cinco meses quando soube que teria de partir para Portugal para salvar o filho de um tumor. Apanharam o avião sem pensar duas vezes, apenas os dois, em direção ao país onde estava prometido o tratamento adequado, que a escassez de recursos da Guiné jamais poderia prometer.

Conheceram uma Lisboa fria naquele 17 de fevereiro de 2021.

E há quase dois anos que este bebé não vê a mãe, então impedida de embarcar por questões de saúde. Mas nem por isso, pela solidão de criar sozinho uma criança tão vulnerável, Mamadu ponderou não vir.

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Vídeo: Inês Leote

Ainda no hospital, “uma senhora” ficou a saber que Mamadu era costureiro, conhecia a Bandim e indicou-o para lá. Sabia que não vinha para aprender como tantos outros que chegam para pôr a mão na agulha pela primeira vez – esta arte é-lhe realmente familiar. Mas “quando queremos muito chegar a um sítio, não podemos assumir que sabemos tudo, temos de fazer o mesmo caminho que todos”.

Candidatou-se a um programa das Nações Unidas, que lhe permitiria ter um negócio no seu país, ou abrir um em Portugal ou França. Mas faltava-lhe o diploma ou certificado de costureiro, que nunca teve. Recebeu-o neste dia em que nos conhecemos. Foi para isto que chegou à Bandim: sairá costureiro outra vez, fará o que puder para seguir um sonho e para que nada falte a uma criança que conta com ele na plenitude.

Um papel que permite que a Bandim não seja só um local de aprendizagem, nem só um hobbie, mas de facto uma porta para o mundo do trabalho.

De imigrantes a empreendedores

Mais recentemente, em novembro, a Bandim abriu-se à cidade, ao país e ao mundo: abriu o mês de novembro com o lançamento de uma coleção comunitária. São almofadas, lenços, malas, individuais de mesa. Tudo produzido pelas mãos destes artesãos e pensado em colaboração com o Instituto Renato Imbroisi. Uma coleção que conta a viagem dos peixes e do bacalhau pelos diversos mares, em tudo semelhante à viagem dos artistas que aqui se sentam para criar.

Surge de uma parceria com a Vida Portuguesa e o Portugal Manual e o valor das peças vendidas reverte para os artesãos que as fizeram – apenas uma pequena percentagem é destinada como fundo de maneio para a Bandim.

É que a Bandim quer ser maior e mais sustentável, tornar-se a madrinha de tantas ideias e marcas que nasçam na cabeça destes imigrantes.

Já há muito que tinha nascido na cabeça de Ilda Kalenga, hoje com 61 anos. Está há sete anos em Lisboa, vinda do Congo, de onde fugiu em busca de vida melhor. Entrou pelo centro de refugiados e hoje já tem uma casa. No Congo, era costureira e embora se tivesse mudado para conquistar o mundo que não tinha, essa vida teve de ficar pendente porque o trabalho é que sustenta e esse encontrou-o nas limpezas.

Até se ter cruzado com quem a incentivou a deixar a vassoura pela agulha.

A Bandim dispõe de um polo em Lisboa e outro na Serra das Minas, além das três micro-oficinas espalhadas pelos bairros Portugal Novo, Vale de Alcântara e Santa Clara.

Ilda abriu a sua própria marca através da Bandim. Foto: Inês Leote

E os cruzamentos felizes não pararam de acontecer: na Bandim, onde entrou há um ano, Ilda faz costuras e arranjos, enquanto abre portas a portugueses e turistas que entram na loja no mercado do Forno do Tijolo, em Arroios – a mesma onde está a coleção comunitária e a pessoal destes artesãos, prontas a vender. Ilda já fez formação fora desta oficina, é certificada, aqui cria e vende kimonos, camisolas, lenços da marca que lançou – “Kitendi“.

Do primeiro ponto cruz ao pequeno cartão onde “Kitendi” tem nome de Ilda por baixo, a Bandim esteve em todo o processo, através do acompanhamento na área do empreendedorismo que oferecem aos artesãos. “A Bandim mostrou-me muita coisa, eu abri atividade, tenho muitos clientes”, desabafa.

Diz que são os turistas os que mais valorizam a arte dela, mas se há coisa que a Bandim é, “é para todos”.


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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