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Pode ser difícil manter uma conversa fluída e sem que quase tenhamos de gritar, em determinadas zonas da cidade. Lugares onde parece haver sempre um barulho que abafa e atropela a voz. Ora aviões, ora carros, ora autocarros. Como é que os vizinhos discutem como criar um jardim na traseira do prédio ou abrir uma piscina na rua para combater o calor, se as conversas são interrompidas por estes sons, num passeio, nas esplanadas e, às vezes, até dentro das casas?

Mas esta conversa não foi interrompida. Até porque Raquel Castro escolheu estrategicamente que acontecesse num lugar longe desta azáfama urbana – no jardim Fernando Pessa, em Alvalade. Foi aqui mesmo que deixou a provocação: viver melhor em comunidade pode depender de como a nossa cidade está construída pelo som.

Raquel é investigadora, realizadora e curadora de arte sonora, mas fala connosco sobretudo a propósito do papel dela como fundadora e diretora do Festival Lisboa SOA. Um evento de arte sonora, que este ano decorre entre 26 e 28 de agosto, no Teatro Romano e nas Carpintarias de São Lázaro. E que nos obriga a pensar como a nossa cultura auditiva tem impacto no desenho das nossas cidades e da nossa comunidade.

Por exemplo, que identidade é que o som dá a Lisboa? E como nos faz mais ou menos felizes como cidadãos desta cidade?

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Vídeo: Inês Leote

Até o que ouvimos dentro de casa define Lisboa

O barulho dos aviões já não lhe faz confusão. Com vários anos vividos em Lisboa, vinda de Viseu, Raquel sabe que este privilégio de ignorar depende da qualidade do isolamento das casas, mas nem por isso diria que este som abafa a cidade.

Diz, sim, o tamanho impacto que sons como este podem ter na vida de quem cá mora. Porque foi mesmo por uma área chamada “ecologia sonora” que começou os estudos na arte sonora. Nada mais nada menos que a disciplina que estuda o papel que o som exerce entre a sociedade e o ambiente.

“Tudo o que te permite focar a atenção no que estás a ouvir permite-te aprender mais sobre os outros”

RAQUEL CASTRO

Tudo mudou numa aula na faculdade. Sonhou ser comunicadora e frequentou o mestrado de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Mas, num seminário na faculdade, quando se viu pela primeira vez à frente de “todos aqueles materiais de transmissão de som”, dos mais antigos aos mais recentes, Raquel fascinou-se. E decidiu que queria era investigar sobre o assunto.

“Tudo o que te permite focar a atenção no que estás a ouvir dá-te muitas outras coisas, permite-te aprender mais sobre os outros”, justifica.

Talvez nunca tenha experimentado, mas se tiver um gravador à mão, ponha os fones, ligue o gravador e ouça o que está a captar naquele exato momento.

Irá ouvir muito mais longe do que espera, coisas que nem sabia estarem a acontecer ao seu lado. Veja este exemplo – um conjunto de sons gravados no dia em que fomos conhecer a Raquel Castro, mas pelos quais quase não demos conta durante a conversa:

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Para ouvir

A fundadora do Festival Lisboa SOA lembra que o som está tão integrado nas paisagens diárias da maioria de nós, que raras vezes paramos para perceber o que representam no sítio onde vivemos. E até como “Lisboa tem uma coisa que não existe noutras cidades, que é a dimensão de bairro”.

Se há identidade sonora na capital é o som que vem dos bairros, diz. O que faz com que tenha não uma, mas várias identidades sonoras.

Isto acontece porque, nos bairros mais antigos, “o espaço privado entra pelo espaço público dentro”. As paredes não guardam tudo, como é exemplo da Mouraria, onde as ruas se enchem de debates entre casais na cozinha, crianças que choram no berço, o salpico de uma sardinha na brase.

Por isso, acredita, “o espírito de pertença em Lisboa tem muito a ver com os sons, com a qualidade com que as pessoas se ouvem ou não na rua”.

Não fosse por bairros como este e Lisboa seria só mais uma no nosso mapa sonoro. Em zonas como a Avenida de Roma, Alvalade, próximo do sítio onde fizemos esta entrevista, “fechas os olhos e não sabes que estás em Lisboa”. “Poderia ser outra cidade qualquer”, um lugar de trânsito.

Em 2021, Raquel Castro foi selecionada pela rede europeia de festivais de música Sounds Now para fazer a curadoria da exposição Sound Art in Public Spaces em diferentes países.
Este ano, fundou a associação SONORA, a entidade que vai acolher e produzir projetos de sound art da investigadora, como o Festival Lisboa SOA.

Raquel Castro no quase silêncio do Jardim Fernando Pessa. Foto: Inês Leote

Os confinamentos não nos ensinaram nada

E o Lisboa SOA vem ajudar na reconstrução desta identidade. O festival surge no seguimento de um percurso mais didático e de partilha que Raquel quer construir. “A questão da educação auditiva sempre foi importante para mim. Daí fazer os filmes, tentar desconstruir a ideia de som, que tem a ver com a nossa experiência humana”.

Fala de Soundwalkers (2008) e SOA (2020), dois documentários realizados por ela, ambos centrados na consciência do som. O último deu um filme estreado em julho deste ano na Netflix e que pode ser assistido por episódios através da RTP Play.

Em 2016, a extensão deste trabalho de partilha virou um festival. “O Lisboa SOA tem este lado de ser aberto, para todos, com workshops para crianças e pessoas que estão mais interessadas em trabalhar no assunto”. Algo que ela espera fazer, no futuro, de forma mais regular. O nome – SOA – veio do nome que já era o de um álbum de fotografias que Raquel tinha, com imagens que remetiam para fontes sonoras. Depois, propôs o mesmo à EGEAC, quando decidiu fundar o festival.

A edição de 2022 vem, mais uma vez, provocar. Sobretudo depois de uma fase de sucessivos confinamentos, que “já nos começamos a esquecer”, e nos quais perdemos tantos dos nossos sons. “Foram interessantes para percebermos a que as cidades soam quando não há carros, foram.” Mas “não aprendemos nada” com isso.

Instalações, performances e workshops.
Confira aqui o programa do Festival Lisboa SOA

Se a pandemia poderia ter deixado algum legado nesta área é ajudar “a repensar a forma como nos movimentamos”, declara Raquel Castro.

“O som dá-nos consciência do espaço que habitamos. Por isso é que a qualidade do campo sonoro é fundamental na vivência das cidades: não é que as pessoas precisem de silêncio, mas de equilíbrio; estar na confusão e, de repente, retirarem-se para um lugar como este. Hoje, os carros mascaram demasiado as coisas.”

Alvalade não foge à regra, com esta Avenida de Roma em alvoroço, mesmo a poucos metros de onde nos encontrávamos neste dia. Mas compensa com jardins como este, porque é “um bairro planeado, desenhado”, com espaços públicos “a temperar a azáfama das grandes vias”.

Recorde aqui o episódio premiado do podcast Sons de Lisboa em que ouvimos Lisboa em confinamento:


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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