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O ministro da Cultura passa o telemóvel dele para as mãos de Nelson e dos amigos, para que mostrem as músicas que produziram no estúdio comunitário do bairro do Pendão, em Queluz.

São gostos antigos de Pedro Adão e Silva, que em tempos esteve aos microfones da rádio TSF com um programa sobre vários géneros de música (Zona de Conforto), à frente das câmaras da SIC para uma série de escolhas musicais com Vitor Belanciano (Fora d’Horas) e que tem no Spotify uma playlist de 8 horas e 14 minutos dedicados à “evolução do hip-hop”.

Segura a atenção toda no que este rapaz tem para dizer, e Nelson Moreira, 32 anos, escolhe cantar, em vez de falar, o que escreveu em tempos.

Conheci um miúdo que podia ter virado jogador

Foi fintado pela droga, agora é só um fumador

Seis pessoas no Inverno só com um cobertor

Visitas o bairro às vezes, tu não sentes a nossa dor

Pedro Adão e Silva visualiza o vídeo com música de Nelson. Foto: Inês Leote

A dor de que fala Nelson pode ter várias causas. E ele acaba por contar a dele: até há cinco anos vivia sem nacionalidade portuguesa, embora tivesse nascido em Portugal, porque era filho de pai angolano e mãe cabo-verdiana. “Quando fui fazer o exame nacional, proibiram-me de entrar por não ter documentos. Foi quando deixei de estudar.”

Hoje, é técnico numa associação comunitária no Pendão. Tem finalmente a documentação resolvida, após vários anos “com pessoas a irem testemunhar” por ele ao SEF e umas tantas recusas. Como se fosse um estrangeiro, que era o que a lei considerava. Até a associação do bairro ter lutado por ele e ganhado a batalha.

“As duas coisas que salvaram a minha vida foram a associação e a música.”

Isso tudo “e Jorge Amado”, interrompe Rui Estrela. Rui é um dos fundadores da associação Pendão em Movimento, para onde estava combinada a receção ao ministro.

Jorge Amado? O escritor?

Todos os presentes aguardam a explicação para esta misteriosa revelação. “Os Capitães da Areia é grande livro”, avança Nelson, que é também Wine TKK (nome artístico). “Foi quando comecei a gostar de literatura, da escola. Depois, cortaram-me as asas.”

Se a vida de Nelson não acabou num trapiche, como o daqueles jovens abandonados nas ruas de Salvador, Bahia (Brasil), como leu, também é por causa da força associativa que há no bairro. Um bairro que o tem salvo, não raras vezes.

Enquanto fala, um grupo de idosos canta o bingo lá dentro. A sede do Pendão em Movimento é um espaço de encontro de gerações – o que, a certa altura na história do bairro, pareceu impossível de acontecer.

Para os mais velhos, os mais novos eram os bandidos. Para os mais novos, os mais velhos não tinham graça. Mas quando arrancaram com um estúdio de música na associação Pendão em Movimento, as rotinas mudaram, no mesmo espaço convergiram gerações e o que é hoje nem faz lembrar o ontem.

“Já perguntaram pelos meninos”, diz Rui. É hábito as idosas assíduas deste espaço deixarem restos do almoço para o jantar dos mais novos – sabem que eles são mais criativos à noite e que têm o estúdio como morada até tarde. “Antes não gostavam de nós e agora…”, remata Nelson.

“Bingo”, ouve-se lá dentro. Faz-se “bingo” no bairro há vários anos e não em cima de um pedaço de cartão.

Aqui, não se formam só artistas, mas cidadãos ativos. E contraria-se a fuga para os grandes centros urbanos à procura de concretizar sonhos, muitos em forma de hip-hop. Para quê? Nelson começou neste estúdio e já canta com um acordo com uma das maiores editoras do país, a Universal.

Da Cultura de gabinete para o bairro

Ministro, moradores do bairro e António Brito Guterres – a ponte entre a figura do Governo e os bairros, neste dia – estão sentados numa curta escadaria, partilham água e cerveja, num final de tarde que não se duvida ser de verão. Uma imagem rara: a vida de gabinete assim, tão descontraída e perto de quem não está habituado a ter gente de gabinete por perto.

O ministro da Cultura, Nelson e António Brito Guterres, no bairro do Pendão. Foto: Inês Leote

António Brito Guterres, dinamizador comunitário da Fundação Aga Khan, aproveita o momento para um pouco de sabedoria urbana: explica que o lugar onde estão sentados era, há uns anos, um sítio completamente diferente do que vemos hoje – antes, o solo ladrilhado era de terra batida, um lugar de convívio, mas lamacento quando a chuva não dava tréguas. Mais um gole na garrafa, mais uma conversa sobre espaço, arte, artistas, gente da cidade.

Estar aqui é um propósito do Ministério da Cultura, que avança este mês com uma mudança radical na agenda.

“Em vez de estar sempre a dizer que ‘sim’ a este, que ‘não’ àquele, defino um tema por mês e vou visitar espaços que tenham relação com este tema. Ter começado pela cultura urbana não é por acaso. No meu cargo, tenho a obrigação de olhar para os vários tipos de cultura”, explica Pedro Adão e Silva, que assumiu a pasta em março deste ano.

Todos os tipos de cultura são mesmo todos. Até mesmo os mais marginalizados na agenda mediática, como a cultura urbana, o rap, o hip-hop, a arte nos murais da área metropolitana.

“Cultura que somos” é o nome deste programa de percursos mensais do Ministério, que vai de novembro até abril do próximo ano, com temas como: cultura para a inclusão, desenvolvimento local, arte contemporânea em rede, indústrias criativas, comunicação social regional e local, e cineclubes. Esta terça-feira, estreou-se a peregrinação, com visitas a Chelas, bairro Portugal Novo, Cova da Moura (na Amadora), bairro do Pendão (em Queluz), Serra das Minas e bairro da Torre (em Cascais).

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A visita do ministro da Cultura, Pedro Adão Silva, a alguns bairros de Lisboa. Vídeo: Inês Leote

Um festival nascido entre ruínas para erguer vontades esquecidas

O ministro arrancou a iniciação a este ritual de cultura urbana na cidade, em Marvila, onde irá decorrer o Festival Iminente, de 22 a 25 de setembro. O festival criado por Vhils viu tanta beleza neste espaço de edifícios ao abandono – e onde ainda poucos lisboetas terão posto os pés – quanto nos bairros da cidade para onde nos habituamos a não olhar.

Por isso é que, ao longo deste ano, comprometeu-se a ser mais do que um festival de quatro dias sobre cultura urbana, mas um motor de mudança, ao levar ou ajudar a alavancar a arte a cinco bairros sociais de Lisboa, com 16 workshops – Alta de Lisboa (PER 7 e PER 11), Bairro do Rego, Vale de Alcântara e Vale de Chelas. É o terceiro ano em que a iniciativa acontece e a que chamaram “Projeto Bairros”.

A Mensagem esteve lá e viu como a música, a dança, o cinema, as artes visuais, a performance e sensibilização ambiental podem mudar não o mundo, mas pedaços dele. Um pedaço de Lisboa.

A arte urbana já está nas ruínas do Iminente. Foto: Inês Leote

“Tenho uma história mais antiga com o Iminente. Comecei como voluntário, quando o festival era ali no Panorâmico de Monsanto”, diz Nuno Barbosa, um dos quatro representantes dos bairros que esperavam o ministro da Cultura na Matinha, nesta manhã de terça-feira.

Ele representa o PER 7, Mauro Wah o PER 11, Carla Alves a Quinta do Lavrado e antiga Curraleira, e Eugénio Silva (também conhecido como Muxu) o bairro do Rego. Fazem parte da força anímica na cidade, uma espécie de legião de transformação. Têm nas mãos o passado, o presente e o futuro dos seus bairros e já provaram como os conseguem pôr nas bocas do mundo pelas melhores razões.

“Estava tudo fechado por causa da pandemia e o Iminente queria ir ter com as pessoas”, lembra Nuno. Carla Alves, que também estava lá para testemunhar a história de há três anos, continua: “Começámos com debates, até por questões de segurança em pandemia. E porque se tem aquela ideia que é tudo terrível nos bairros, tudo terrível”.

Conversar ajuda a abrir mentes.

Nuno explica como nasceu o Projeto bairros, do Iminente. Foto: Inês Leote

Depois disto, foi-lhes dada a hipótese de chamar artistas ao bairro e cada um escolheu os seus. Regra geral e desde então, “é gente nova que vem, é gente nova que fica”, diz Carla, da associação Geração com Futuro.

“E estes miúdos vêm todos ao Iminente?”, o ministro lança a pergunta.

Se vêm? Este festival é para eles, diz Vhils, do canto da sua timidez de quem não gosta de aprecer, apesar de ter criado isto tudo.

De repente, já não é só de arte e cultura que falamos, mas também de direitos humanos – porque uma coisa não existe sem a outra. E, neste campo, tudo parece surtir uma reação de surpresa no rosto do ministro.

Carla Alves, da Geração com Futuro, representava a Quinta do lavrado, Curraleira. Foto: Rita Ansone

Carla Alves lembra os problemas comuns das zonas onde o Ministério não chega e que são lutas para cada um deles. De um dos workshops, saiu um toldo para o bairro do Rego, “mas é normal nos bairros sociais não haver espaços com sombra”. Por trás dela, está um toldo antigo. Falamos já de várias gerações de toldos, que são também salva-comunidades.

Nuno não quer lutar por uma sombra, gostava era de ter as garagens do rés-do-chão dos prédios do bairro abertas e não tapadas com tijolos nem de portas fechadas. Tornaram-se espaços na periferia da periferia. Foi assim durante anos, até a associação de moradores do bairro da Quinta Grande (nome do bairro de onde foram realojados) ter conseguido travar esta luta com a Câmara Municipal de Lisboa e legalizado uma das garagens, para proveito da própria associação. Eles que não tinham espaço para se reunirem.

Aqui mesmo, nesta garagem em tempos interdita, aconteceram os workshops do Projeto Bairros e aqui nasceu uma música que será apresentada no festival, feita pelos jovens do bairro e sob coordenação do artista Batida.

“O produto disto, além das relações e da vivência, é uma música.” E o ministro quer ouvir. “Tem de pagar bilhete”, provoca Nuno.

Todos se riem.

Mas Nuno cede.

O ministro Pedro Adão e Silva ouve a música feita pelos jovens do PER 7, coordenados pelo Batida. Foto: Inês Leote

Vão agora entrar em obras naquela garagem, para ali fazer nascer um estúdio. Um pedido e uma necessidade recorrente nos bairros. Como acontece no Pendão e como o ministro acabaria por confirmar ao longo de todo o dia.

Antes da próxima paragem, Mauro Wah mostra os rostos da sua gente. “Esta é a nossa comunidade.” Há orgulho no que diz. Sorri de imediato ao ver alguns deles. São fotografias também resultantes de um workshop, este de fotografia analógica.

“Mas foram mesmo os miúdos que revelaram?”, pergunta Pedro Adão e Silva.

“Aprenderam.”

Mauro Wah mora no PER 11 e dinamiza atividades para crianças e jovens do bairro. Foto: Inês Leote

Se há alguma coisa que estes workshops vieram provar é o que Mauro, Carla, Nuno e Eugénio andam a tentar provar há anos: “As pessoas acham que nós estamos fechados, mas nós não queremos estar fechados.”

Diz Mauro que “se tivermos uma associação destas, com estes princípios, em cada bairro, em alguns casos pode ser melhor do que o papel que a escola tem”.

E abre aqui o primeiro ponto de cisão com a classe política. O ministro discorda com a cabeça, ainda que sem tecer qualquer comentário. É que “a escola é muito fechada”, explica Mauro. “Não é só estatística, é preciso saber o que se passa. A escola, já aberta, fechou-se e está a voltar a abrir-se outra vez.”

Quando fala um, nunca fala sozinho. Vão respondendo uns pelos outros, porque, como diz Nuno, “somos de sítios diferentes da cidade, mas o que nos une é muito mais do que o que nos diferencia”.

“É como a história dos toldos”, lembra Carla. “Ele precisa de sombra, eu preciso de sombra”.

Eugénio Silva mostra um quadro que resultou de um dos workshops no bairro do Rego, através da associação Passa Sabi. Foto: Inês Leote

Um ministro na descoberta de uma batalha de nomes

Sam The Kid é nome sonante, não só na cidade, como no país. Com anos de carreira no hip-hop, foi com a música que nos fez conhecer Chelas por dentro, nas letras e nos videoclipes que vai produzindo.

Nunca verdadeiramente por dentro. Para isso, é preciso estar lá. E isso implica, atualmente, viver numa batalha de nomes. É que se, nos anos 1960, os bairros de Chelas começaram por ser erguidos como “Zona I”, “Zona J”, Zona N”, por aí adiante, hoje a cidade mudou-lhes o nome. O mesmo problema: ninguém se revê neles.

“Se os jovens gritam esta identidade, se nas suas biografias de Instagram têm ‘CZJ’ – que é Chelas Zona J -, estamos a fraturar essa identidade”.

Samuel Mira vai explicando os meandros desta batalha a um ministro que não é soldado porque não conhecia a causa. Samuel, que é Sam The Kid, diz que alguns jovens até já nasceram com estas novas nomenclaturas para os bairros, mas não se identificam com elas. “De repente, as nossas cartas chegam a casa com morada de um bairro que não conhecemos.”

Samuel Mira (Sam The Kid) traz Chelas nas letras e videoclipes que já lançou. Foto: Inês Leote

Também por uma questão de identidade, Sam fazia nascer, há cerca de dois anos, a associação Chelas é o Sítio – para unir os moradores, através do desporto, da cultura, da sustentabilidade e da educação. “Mas mais importante do que esta batalha de nomes, é fazer evoluir a zona. Será que é mais importante ter uma placa a dizer ‘Chelas’, ou placas a dizer que ali é a farmácia, ali os bombeiros e aqui um teatro? Muitas pessoas nem sabem que há aqui um teatro.”

Ricardo Gomes, amigo de Sam, está cá para provar como este território ainda é olhado como uma ilha dentro da cidade.

“Ricardo Gomes, grande defesa central do Benfica”. Não é este Ricardo, mas aproveita a ocasião, brinca e puxa pela paixão do ministro Pedro Adão e Silva – pela qual já deu a cara várias vezes, numa lista de eleições à presidência ou como comentador desportivo.

Passada a brincadeira, coisas sérias: a ideia da associação é abrangente e há um projeto educativo na mira. A escola continua a ser uma das maiores preocupações no bairro: “porque é que não há a mesma exigência nas escolas daqui? Estamos a tirar a ambição aos jovens”.

Ricardo conta a história do sabão azul e branco e espanta todos à volta: quando a pandemia rompeu e as escolas começaram a preparar-se com álcool-gel para a higienização quase constante das crianças e dos jovens, as escolas de Chelas tinham apenas sabão azul e branco.

“Em Telheiras, não acredito que não houvesse álcool-gel”, diz Ricardo. Chelas parece ser sempre a exceção – e não a regra.

Como é exemplo este parque infantil em que o encontro acontecia: nada mais que um piso avermelhado, desfeito, sem qualquer equipamento lúdico. Até já houve um campo de golfe em Chelas, dizem, “mas nenhum jovem teve possibilidade de jogar golfe à porta de casa”.

Chelas é o Sítio quer empoderar a identidade de Chelas. Foto: Inês Leote

Chelas são cerca de 40 mil pessoas, “conhecemos pessoas de grande valor, mas só agora começam a aparecer, a dizer que são de cá”. Porque, durante anos, expor a morada, a raiz geográfica, era dizer que se vinha de um sítio do qual só se conhecia o lado perigoso.

Sam quer devolver “o orgulho” às pessoas de Chelas, “para que não omitam de onde vêm numa entrevista de emprego”.

“Por acaso, deixe-me fazer uma pergunta”, avança Ricardo para o ministro da Cultura. “Hoje ouvi na rádio a falarem de nós, os bairros que ia visitar, como ‘bairros deprimidos’. Isso foi o jornalista que inventou ou veio no press release?”

O governante também ouviu, diz que não, não é culpa dele. Ricardo nunca tinha ouvido tal – bairros sociais, sim, degradados também, carenciados quase sempre, mas nunca deprimidos.

Um bairro deprimido não teria a vida que Chelas tem – e que Chelas luta por ter.

“250 mil visualizações?”

Por esta altura, percebemos: Pedro Adão e Silva quase não tem de fazer perguntas. Estes que visita são gente com tanto para dizer, primeiro à cidade, depois ao país. Falam-lhe de resistência e de orgulho, sem o dizerem realmente.

Uns fazem-no no estúdio do atelier comunitário Kriativu, de Nuno Varela. João Morgado, de 18 anos, é FlowG, larga a máquina fotográfica com que captava a visita do ministro e corre para o estúdio para mostrar os sons que produziu. “Está no Spotify?”, pergunta o ministro. Quem sabe, para juntar à sua playlist de hip-hop.

Entretanto, lá dentro, Wilson Lopes, do atelier, propõe-se a limpar os ténis do ministro. A proposta soa estranha, mas isto é, na verdade, aquilo que ele faz com o projeto BNC Movement, em que recupera ténis.

No atelier Kriativu, os moradores de Chelas podem pôr à prova os seus muitos talentos. Foto: Inês Leote

Aqui, como na Cova da Moura, na Amadora, a vontade de gritar através da arte deu origem a um estúdio de produção musical. E sobre isto o ministro parece estar mais à vontade para falar.

Há uma fotografia na parede do Kova M Estúdio que suscita a curiosidade de quem entra. Flávio Almada, coordenador da associação local Moinho da Juventude, e Heidir Correia, responsável pelo estúdio, identificam-se nela e explicam que foi tirada num dos poucos momentos em que pararam de erguer os tijolos deste espaço de jovens.

“Então, estavam cá quando saiu o álbum República [a primeira compilação de rap português alguma vez lançada, em 1994]”, diz o ministro, que faz as contas. A fotografia é de 2007. Flávio lembra os tempos em que se fazia música no guarda-fatos. “Como muita gente” responde Pedro Adão e Silv, e não fala em vão.

“250 mil visualizações?” Quase. O ministro está surpreendido com os números de um vídeo produzido neste estúdio e que Heidir reproduz no computador. A Cova da Moura pode parecer distante, mas não quando o assunto é música.

Tão depressa se fala de hip-hop como de crime e direitos.

O velho caso de Alfragide, que sentou agentes policiais no banco de réus, acusados de ter agredido jovens da Cova da Moura, esteve em cima desta mesa de lembranças. Tudo começou neste estúdio, onde os jovens foram recolhidos pela Polícia e detidos. “Foi porque tínhamos feito uma música contra eles”, diz Heidir, que viu o que aconteceu pela TV.

E Flávio não percebe porque é o rap um crime mesmo nos relatórios de segurança interna – os conhecidos RASI: “Foi a primeira vez que vi um estilo musical ser criminalizado, o hip-hop”.

“Nos EUA, nos anos 90, foi assim”, o ministro traz o mundo à conversa.

O mundo que Vítor Sanches procura levar nos livros que expõe na sua loja social Dentu Zona, ali à entrada do bairro. E onde Pedro Adão e Silva comprou uma sweater criada pela marca de roupa de Vítor, a Bazofo. Tudo pensado e grande parte criado no pequeno atelier que tem num quarto de casa.

Pelo caminho, a pequena Alexia, a um mês de fazer um ano, olha para a grande comitiva de gente que passeava no bairro, pendurada no colo da avó. Faz calor, à sombra do telhado de casa está-se melhor. Dizem-lhe “olá”, mas nem Alexia nem a avó sabem que aquele senhor é o ministro da Cultura, confessam. Cultura é outra aqui. Quase nunca a que sai das mais altas instâncias.

Haverá sempre tempo para uma cachupa

Emília fez a cachupa para o almoço, no Bairro do Portugal Novo. “Tem razão”, diz o ministro, que a saboreou na mesa, rodeado de um grupo de mulheres batucadeiras de Cabo Vede. “É melhor do que o Rei da Cachupa. A rainha da cachupa é melhor do que o rei da cachupa”.

Diz Emília que “não é só na cachupa, é em tudo”.

Só no dia 15 de agosto é que o prato é diferente: cozinha-se o mesmo, mas em lenha. É dia de festa, uma bem tradicional cabo-verdiana: celebra-se a Senhora da Graça. E chama-se os de outros bairros também. Todos os anos, tinham batucadeiras vindas de outros pontos da cidade, até que decidiram, há cerca de um ano, também elas, as mulheres do bairro Portugal Novo, batucar.

Então, nas pernas, agarram uma chabeta, o batuque delas – este mais mole, um tecido robusto preenchido com farrapos. Vestem saias e fitas de cabeça verdes. E lá batucam: “Cabral mandou cavar o chão”, cantam em crioulo. Falam de Amílcar Cabral, o homem que sonhou a independência de Cabo Verde.

À terceira música, o ministro já batia na perna. No meio, Sheila, que dizem ser com orgulho “uma das mais novas” neste grupo, a dançar as ancas e os pés descalços. A tradição está viva. E o momento lembra o ministro das viagens a Cabo-Verde, em que “cada sítio tinha batucadeiras” e foi “obrigado a dançar”.

As batucadeiras do Portugal Novo, na nova sede da associação de moradores. Foto: Inês Leote

Desta vez, não o convenceram. A comida ainda estava quente no estômago, justificou.

Ana Vicente explica o que está na mesa: além da cachupa, há cuscuz, um bolo cozinhado num binde, em banho-maria. Leva a receita simples da junção entre farinha de milho, açúcar e água. E há várias formas de o servir – barrado com manteiga, como a Ana gosta, ou com mel. Mas, depois, há os “donuts de Cabo Verde”, uma espécie de frito com massa de filhoses.

Ainda na mesa, até o picante também é caseiro e os corajosos alinham.

Se em alguns bairros a cultura não se discute sem falar no direito a toldos, garagens mais democráticas, estúdios de criação e mais educação, aqui o batuque só toca depois de conhecido o paladar das raízes de um crioulo que nem todos dominamos, mas que reconhecemos como uma língua de Lisboa.

O almoço foi no bairro Portugal Novo, com cachupa feita pela cozinheira e batucadeira Emília. Foto: Inês Leote

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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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