O projeto dos Bairros no ano passado. Foto: DR

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“Bem-vindos. Isto é a Quinta do Lavrado. Estamos entre uma ETAR ao ar livre e um cemitério. Poucas pessoas vêm aqui”. Foi assim que António Brito Guterres deu as boas vindas à edição de 2022 do Iminente, o festival de cultura urbana (do qual é curador). Num bairro de Chelas onde vivem muitas das famílias desalojadas da antiga Curraleira. O lugar é simbólico: o Iminente nasce como um festival para unir comunidades de toda a parte da cidade, em torno da música e das artes.

A comunidade da Quinta do Lavrado é apenas uma delas. E durante a apresentação do Festival a vida do bairro não parou de acontecer, as crianças de fazer barulho no recreio da escola e a moradora Carina de ajudar uma idosa a subir as escadas com o saco de compras. Este foi o lugar escolhido para apresentar à imprensa o festival que vai ser entre 22 e 25 de setembro, na Matinha, em Marvila.

A Mensagem de Lisboa é media partner do festival, coorganizado com a Câmara Municipal de Lisboa, e vai marcar presença com uma redação pop-up onde decorrerão vários eventos de jornalismo ao vivo.

A apresentação aconteceu esta quarta-feira, na Quinta do Lavrado, em Chelas. Foto: Catarina Reis

Durante quatro dias vão passar pelo Iminente mais de 100 artistas nacionais e internacionais. Os palcos de música e as instalações artísticas vão partilhar protagonismo com festas temáticas, desportos urbanos, bancas de tatuagens, debates sobre igualdade e cultura, lojas e exposição de projetos comunitários. E uma redação ao vivo – a da Mensagem de Lisboa.

Ao contrário da maioria dos festivais, este não tem cabeças de cartaz. Mas há nomes sonantes na música: Yasiin Bey (Mos Def), Sam The Kid, ProfJam, Sara Correia, Karol Conká, Sister Nancy, entre outros.

Veja aqui o programa dos quatro dias

Fotografias da edição 2021, cedidas pelo festival Iminente (@chriscost.a e @nashdoeswork)

Nas artes visuais, o lema não é diferente: “Abrir ainda mais o festival, trazer nomes internacionais, ser o mais pluralista possível”. Assim o descreve Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, o pai do Festival.

Este ano, o tema é “Playground” (“recreio”, em tradução livre). Ao lado de um, onde brincavam crianças, e com os convidados virados para um jogo da macaca desenhado no chão, Carla Cardoso, a diretora do festival e Vhils, o seu criador, lembraram como este é um evento diferente. Um festival que provoca e, por isso, “Playground” desafia os artistas a celebrar o direito a brincar, numa era de pós-pandemia em que as crianças começam a regressar à rua.

Vhils estará ao lado de artistas como ± Mais Menos ±, Batida, Beatriz Brum, Coletivo Verkron, Umibaizurah, Unidigrazz, Filipa Bossuet, Noah Zagalo, João Fortuna, Super Linox, Wasted Rita, Rita Ravasco, Kampus e Vanessa Barragão.

Um festival para resolver problemas reais da cidade

Carla Cardoso vê este evento como uma “ágora, o local de encontro de várias comunidades”. Por isso mesmo, ao longo deste ano, o Iminente concretiza o projeto “Bairros”, levando a arte a cinco bairros sociais de Lisboa, com 16 workshops – Alta de Lisboa (PER 7 e PER 11), Bairro do Rego, Vale de Alcântara e Vale de Chelas.

Musica, dança, cinema, artes visuais, performance e a sensibilização ambiental. Tudo cabe neste projeto que leva “certas artes que são desconhecidas nestes territórios”. Quem o lembra é Carla Alves, do bairro e da associação Geração com Futuro. “Não é só terem conhecimento, é dar a oportunidade de experimentarem. Eu acho que quem organizou isto nem imaginou o impacto que ia ter nestes miúdos”.

Muito menos o momento em que os jovens receberam as pulseiras para o Iminente com a inscrição “Artistas”. Ou o momento em que viram as suas caras nos mupis. “Não estão bem a ver a cara deles”, confidenciou à plateia presente na apresentação.

António Brito Guterres sublinha que uma das responsabilidades a que o Iminente se propôs foi “integrar o trabalho que estas pessoas fazem todo o ano”, ou seja, as várias associações espalhadas pelos bairros da cidade e que lutam por mais e melhor para os moradores.

Como fazer chegar a música e a literatura aos mais novos. “Que já era feito mais por instinto. Coisas que não são tão simples de promover junto dos nossos jovens”, lembra Nuno Barbosa, do PER 7.

O que pode começar por ser estranho, um dia entranha-se. É o mote que Carla Cardoso, diretora do Iminente, atribui ao projeto “Bairros”: “Queremos dar espaço a uma espécie de estranheza cultural. Quanto mais visibilidade ela tiver, menos estranheza passa a ser.”

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2022/07/FESTIVAL-IMINENTE.mp4
Vídeo: Catarina Reis/Festival Iminente; Edição: Inês Leote

Os bilhetes para o Iminente podem ser adquiridos nos locais habituais ou no site do festival. Também aqui pode consultar como chegar à Matinha. “O nosso conselho é que venham de transportes públicos”, diz a diretora do festival.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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