“Nu sta djunto” é “estamos juntos” em crioulo de cabo-verde. Foi assim que Vítor Sanches terminou as mensagens a combinar o encontro, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente. À hora marcada, estava no local marcado, onde mais tarde percebi que há uma fronteira bem delimitada. Uma estrada de duas vias para cada lado a marcar essa separação. E muito para quem passa da Cova da Moura para o lado de fora. Vítor conta, só no final dessa tarde, como desde cedo sabia que ao atravessar essa estrada estava noutro campo. A partir dali já era tratado de forma diferente.

Vítor surge de mochila às costas e uma camisola da sua marca: Bazofo. É mais um dia no seu bairro e no seu negócio. Tem voltas a dar, encomendas para entregar e a edição comemorativa dos 110 anos do jornal ‘O Negro’ para vender. E convida a acompanhá-lo.

Viramos a primeira esquina e Vítor vai ao encontro de três raparigas, sentadas num murete, vestidas com cores vibrantes. “Oi mana, tudo bem?”; “Oi, como é que ‘tás? ”. Cumprimentamo-nos todos como mandam as regras atualmente: mão cerrada uma contra a outra. Mas, na verdade, esse gesto sempre teve ali um significado muito forte – e percebo-o logo a seguir.

Vítor começa a tirar t-shirts da mochila. Não são só peças de roupa: cada estampagem tem uma mensagem. Uma mostra esse e outros cumprimentos de mãos. É o modelo “Djunta mô”, que quer dizer “juntar as mãos” – um conceito cabo-verdiano que significa entreajuda: como juntos somos mais fortes. Tem também ali o modelo “Manas”, dedicado às mulheres negras, à luta pela igualdade e à celebração da beleza do cabelo negro.

“Estás comigo hoje, mas amanhã podes estar à vontade e vir sozinho. E nada se passa, mano. Percebes?”

Enquanto a conversa e a discussão de gostos corre, atrás delas está uma rapariga sentada numa cadeira de plástico, à porta de casa, enquanto lhe fazem tranças no cabelo. Lá para dentro não se vê bem. O penteado está prestes a terminar e a jovem exclama: “Mãe, põe-me aí água ao lume a ferver!”.

Arrancamos novamente e Vítor fala de Fabia, a rapariga que ficou com uma das t-shirts e que também vende roupa – mas vintage. “Ela tem uma página de redes sociais altamente e um gajo tem de dar props quando as pessoas estão a fazer bem. Foi o que eu lhe disse.” Fabia estava tímida quanto aos elogios de Vítor.

A loja de Vítor nesta tarde está encerrada. Ainda que pequena, há a sensação de espaço. Há a liberdade para alugar um livro, comer uma bolachinha, tomar um café. Conversar. Mas Vítor não é pessoa de ficar sentado: temos muito para andar.

Vítor sabe que estou na Cova da Moura por ele: alguém que tem visibilidade e é conhecido por dinamizar a comunidade. Mas à medida que caminhamos, vai reforçando as muitas outras pessoas que também ali fazem trabalhos sérios: “Só estou a dar continuidade a esses trabalhos. O meu não é nada de novo, eu é que faço mais barulho”.

O que ele faz, diz, não é nada diferente do seu vizinho Patrick que está na distribuição de comida, ou de Fabia que, além de vender roupa, tem um espaço onde junta mulheres e serve chá. E que não é diferente de uma mercearia ali da zona que quando alguém lá vai buscar comida não paga, porque só consegue no final do mês. “São vertentes muito importantes na existência da comunidade. Esses sítios sabem a dificuldade das pessoas, daí que se tentem ajudar uns aos outros”.

“Eu nem fui à tropa, ‘tas a ver? Mas aqui foi a minha tropa”.

Quando demonstro um certo deslumbramento nas ruas por onde andamos, a que sou estranho, Vítor põe-me no mapa: “Isto é a vida das pessoas, não é um lugar onde chegas e ‘Ah ya, isto é bonito’. Não”. Reforça como estamos a falar de coisas muito sérias e, por isso, é muito importante que quem aqui vem, “tipo tu”, olhe à volta, cheire, sinta, interaja. É a partir desses sentidos que me quer explicar como tudo funciona. E garante: “Estás comigo hoje, mas amanhã podes estar à vontade e vir sozinho. E nada se passa, mano. Percebes?”.

Cruzamos outra esquina e Vítor diz que vai só dar um “olá” à sua tia Alice que o ajuda na costura. “Oi tia!”, e entra pela porta que já estava aberta. Alice é uma das costureiras da marca Bazofo. Apoia-o desde o início do projeto, deu-lhe dicas de como escolher panos africanos de alta qualidade e fez-lhe a sua primeira peça. Trabalha com mais costureiras da zona. São muito talentosas, e também é uma oportunidade de lhes passar mais trabalho.

Todas as t-shirts Bazofo são feitas na Cova da Moura e sempre com a sustentabilidade a ser o mote da marca: são feitas à mão com algodão biológico, estampadas no seu atelier e utilizando tintas sustentáveis – sem químicos ou metais pesados.

O roteiro continua neste alto da Amadora de onde se observam vários pontos da cidade e também de Lisboa – ao longe. Um cumprimento aqui e ali. Um carro passa de janelas abertas, talvez a tentar arejar o bafo de calor que se sente, talvez apenas a dar-nos música. O volume está a roçar o máximo e as batidas de afro house espalham-se pelas ruelas como o vento que falta.

A Dentu Zona, projeto principal de Vítor, é de cariz social e quer ajudar a empoderar a comunidade da Cova da Moura – mas também outras comunidades marginalizadas na zona de Lisboa. Foto: Nuno Mota Gomes

Outra esquina, na descida, e ao fundo está uma cara bem conhecida à espera. É Godelieve Meersschaert, um nome impronunciável que todos substituem por “Lieve”. Belga já portuguesa, psicóloga e informática reformada, vive aqui desde 1982 – há mais tempo do que no país onde nasceu. E é uma das pessoas que mais fez pelos jovens e famílias da Cova da Moura. Foi uma das fundadoras da Associação Cultural Moinho da Juventude – à qual já não pertence.

Godelieve Meersschaert foi uma das fundadoras da Associação Cultural Moinho da Juventude. Foto: direitos reservados

“É muito poderoso o que ela fez por nós – e ainda faz”, garante Vítor.

Vítor cumprimenta-a, Lieve retribui e os seus olhos brilham ao apresentá-lo a outra senhora que está de passagem pelo bairro. Fala-lhe do seu dinamismo como um exemplo na comunidade, mas rapidamente Vítor responde: “Tive uma boa escola”. Soltam-se sorrisos atrás das máscaras. Ele estica-lhe uma cópia do jornal O Negro. “Quanto é?” “Para si não é nada. Desejo uma boa leitura”. Lieve agradece. Conhece aquela luta.

“Aqui é a casa dela,” conta Vítor. “Ali havia uma biblioteca onde Lieve juntava os miúdos”. Não numa só de tomar conta, mas num sentido de haver um lugar onde pudessem ocupar o tempo em vez de estarem na rua. “É muito poderoso o que ela fez por nós – e ainda faz”, garante.

O Moinho da Juventude é o ex-libris do bairro. Há muitas paredes coloridas, com formas e frases inspiradoras. Vítor encontra mais um amigo, tão ou mais sorridente do que ele. Sentamo-nos para pôr a conversa em dia. O amigo, Kun, tem jeito para a música e Vítor puxa por ele: “Isso tem de vir cá para fora, temos de divulgar”.

Este é num lugar especial: foi aqui que muitos deles passaram dias da infância e adolescência, e onde continuam a encontrar um espaço de convívio. Vítor está nostálgico e revela como sempre foi muito ligado ao desporto – que tem a sua disciplina. Considera que foi a partir daí que se tornou no homem que é hoje. “Eu nem fui à tropa, ‘tas a ver? Mas aqui foi a minha tropa”.

O nome da associação não é acaso. Afinal, lê-se numa indicação que estamos na Rua do Moinho. E acabamos por lá chegar, mais à frente, ao próprio do moinho, a resistir às décadas. Vítor encontra mais um rosto muito especial. “Este é o meu mano Zeca, a mão dele é a que está contra a minha nas t-shirts”. Zeca, de corpo robusto e a rir-se até às costuras, dá-me um abraço como se também me conhecesse há anos.

Vítor promete uma visita ao seu atelier, mas antes tem mais uma entrega a fazer. “Oh Nelson! Oh Nelson!” Esperamos… “Queres ver que não está em casa?”, diz-me. Eis que surge o seu rosto numa pequena janela. “Vem cá fora que tenho um jornal para te dar”. Combinam encontrar-se daqui a instantes num dos cafés mais abaixo na rua.

Vítor considera que republicar O Negro é importante como movimento que ajuda a empoderar as pessas. A mudar as memórias.

“O pessoal ficou bué surpreso com a existência deste jornal. Não estavam a acreditar em algo de 1911”. Vítor fala do entusiasmo que o jornal O Negro está a ter no bairro. Esta é a reedição de um jornal feito por afrodescendentes, publicado em Portugal, num movimento pós-republicano e em que um grupo de estudantes criticava o colonialismo e batia-se na luta anti-racista a nível internacional.

A cineasta cabo verdeana Lolo Arziki com o amigo brasileiro “Rod”, artista gráfico. Ambos ativistas. A porem a conversa e a leitura em dia. Foto: Nuno Mota Gomes

Vítor reforça o poder desta leitura: “É muito importante mostrar como nesse tempo se pedia amnistia ao governo português, para não traficar a gente e não desfazer famílias e comunidades”. Há muita luta por trás, pouco ouvida. “As cenas que estamos a fazer agora é replicar o que já tinha sido feito antes”. Vítor considera que republicar O Negro é importante como movimento que ajuda a empoderar as pessas. A mudar as memórias.

“Queres beber café?”, pergunta. No restaurante O Coqueiro pede dois copinhos ao “Hernani”, iguais aos que acabaram de ser servidos. Leva o copo à boca e surpreende-se. “Eish, mano, pensei que aquilo era café”, diz Vítor a Hernani. Os dois copinhos são de grogue – a aguardente cabo-verdiana.

A loja de Vítor é um dos pontos de venda da reedição do jornal O Negro. Mas também o entrega em mãos. Foto: Nuno Mota Gomes

Brindamos antes do primeiro gole. Foi dentro deste restaurante que Vítor organizou um mercado, como forma de testar a reação da comunidade. “Nós aqui começamos tudo pequeno, algo informal. E só depois ampliamos”. Como foi bem aceite e todos venderam, a ambição é fazer mais e desenterrar artistas da zona que não têm visibilidade nenhuma, admitindo que a alavanca são as páginas de redes sociais de Vítor.

A Dentu Zona, que também agrupa a marca Bazofo e significa em cioulo cabo-verdiano “no bairro”, é um projeto de cariz social que quer ajudar a empoderar a comunidade da Cova da Moura – mas também outras comunidades marginalizadas na zona de Lisboa.

Quando for possível, Vítor quer fazer mais pelas pessoas que não têm acesso a outros espaços da cidade e sem ter tantas burocracias. A vontade é alargar também às festas com uma temática, seja o Dia da Mulher ou “deixa o machismo”, exemplifica. “Tocamos música e apresentamos artistas que são novos para impulsioná-los”, explica Vítor. Para ele, o mais importante é ser cultural. “Através disso consegues passar muitas mensagens. É algo muito forte nas comunidades africanas”.

“O pessoal aqui está todo junto”

“Ainda não andámos o bairro todo e já viste como é bué big… “ Um senhor tem o portão da garagem aberto e vai esfregando o seu carro coberto de espuma, enquanto dá música aos vizinhos das ruas mais próximas. A seguir descemos por caminhos apertados. Há um velhote ou outro sentados à porta de casa. Um pequeno grupo de jovens joga às cartas num espaço de convívio improvisado. Vítor vê-me a parar e a apontar a máquina. “Estás a curtir? Tens aqui cenas que só queres mesmo é tirar fotos”, diz.

Chegamos à sua casa. “Estás à vontade, desculpa a desarrumação”. No atelier há vários elementos que saltam à vista. Uns mais frágeis do que outros… O equipamento onde estampa as t-shirts, os sacos à volta. Peço-lhe uma fotografia: “e um sorriso, se faz favor; 1 … 2 … 3. Já está.” Vítor aponta: “Apanhaste o meu mano Candé aqui atrás? Tem-me feito imensa companhia estes dias”.

É aqui, no seu atelier, que está muito do seu trabalho: o material, tintas, telas, panos. T-shirts e sacos prontos para arranjarem um dono. Foto: Nuno Mota Gomes

Foi Vítor quem fez a serigrafia das dezenas de t-shirts com o rosto do ator Bruno Candé, vestidas na manifestação anti-racista que aconteceu poucos dias a seguir ao assassinato com quatro tiros à queima-roupa, que lhe tiraram a vida aos 39 anos. “É uma coleção limitada”. Prefere criar mais apenas se houver algum evento grande e, nessa altura, entrega o retorno à família. “Aí tem um impacto grande”.

Por faltar em impacto, como é que tem sido vivida a pandemia na Cova da Moura? Vítor admite que, obviamente, tudo funcionou de maneira diferente, mas a comunidade teve de continuar. As pessoas fecharam-se mais, naturalmente estavam com medo. “Mas quase tudo o que já se fazia antes do vírus ainda se continua a fazer agora”.

Refere-se a trabalhos feito por pessoas que “não trabalham – trabalho mesmo trabalho -, mas desenrascam na canalização, eletricidade…” São pessoas que tiveram más experiências profissionais “lá fora”, então preferem desenvolver uma ocupação profissional aqui dentro. E explica: “Eu não sou eletricista, mas se houver uma emergência aqui de alguém, vou lá tentar resolver”.

Há também os mais velhos que não querem sair de casa e o pessoal mais novo vai fazer as compras por eles. “São cenas que já se faziam antes, mas intensificaram-se ainda mais agora”. Vítor fala numa confiança que a comunidade tem em pedir esses favores, com resposta muito rápida. “O pessoal aqui está todo junto”. E querem saber uns dos outros caso não se vejam durante uns dias. “Aqui as pessoas chamam por mim «Oh Vitinha!», nem batem à porta”. O seu telefone toca. “Estou sim…” Tem mais uma encomenda.

Música de fundo, pessoas a conversar e Vítor a contar-nos como tem sido a pandemia na Cova da Moura. Para ouvir aqui:

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2021/05/Vitor-Cova-da-Moura-FINAL.mp3
Pelas ruas da Cova da Moura com Vítor Sanches.

Cova da Moura-Londres

E Vítor, sempre quis trabalhar com a comunidade? “Cresces aqui e queres ficar, ou cresces aqui e queres sair. Depois obviamente arrependes-te e voltas para aqui outra vez. Há muitas pessoas que lhes aconteceu isso”. Fala no plural, mas fala também do seu caso. Puxo por saber mais. Também quiseste sair?

“As violências que as pessoas sofrem, especialmente as do gueto, são cenas que para apagar é bué difícil”

Um desenho à porta de sua casa não deixa dúvidas. “Estamos juntos”. Foto: Nuno Mota Gomes

Vítor tem mundo. Foi viver para Londres, em 1997, para ter uma experiência e ganhar calos, como diz. Esteve lá bastante tempo. Constituiu família e isso forçou-o a permanecer. Assim que se separou, voltou logo. Voou tão rápido como os anos que tinham passado. Era 2009 e Vítor sentia que não fazia sentido continuar lá, sobretudo pela falta de uma alavanca que o empurrasse. “Londres é uma cidade muito complexa e, mesmo que sejas um ativista, é difícil pertenceres a um coletivo”.

Mas não foi só pela vontade de ter uma experiência de vida. Havia fragilidades. “Quando fui para Londres, fugi daqui por causa de uma cena de violência policial. Batucaram-me em Lisboa, sabes?”. Respondo: “Tinhas ido ao cinema, não é?”. Vítor não estava à espera da minha pergunta. “Estou surpreso como é que sabes… é algo que tento não falar muito”. Diz que a ficha ainda não lhe caiu totalmente. O corpo tem memórias.“Mas de certeza que não leste nada muito profundo, porque nunca falei muito sobre isso”. Foi essa a principal razão pela qual saiu de Portugal e não ter ido à tropa. “Tinha 15 ou 16 anos quando isso aconteceu. Estou com 41 agora”.

Opto por não forçar perguntas, mas Vítor sente-se à vontade em partilhar algo desconfortável. “As violências que as pessoas sofrem, especialmente as do gueto, são cenas que para apagar é bué difícil”. Não sabe como é que o pessoal sobrevive nestas situações. Para ele foi algo muito íntimo.

Para Vítor, a maioria das coisas que se ouve falar da Cova da Moura são falsas. Foto: Nuno Mota Gomes

“Sabes o que é vir alguém e dizer-te: «Despe-te todo». E não conseguires dizer que não?”. Esse e outros episódios são situações que não esquecem, diz, acrescentando que são agressões musculadas. “E ficam contigo, ainda mais se fores uma pessoa sensível.” A partir daí, considera que é fácil criar uma relação com outras situações que se encontram.

Quanto mais páginas devora, mais Vítor acredita que atualmente atravessamos momentos que os seus antepassados passaram. Ou seja: “As coisas não mudaram assim tanto”.

Quando regressou, em 2009, teve de se adaptar, ver o que se passava na zona. Ele sempre foi muito articulado e tinha muitas perguntas que o inquietavam. “Desde cedo, bastava atravessar aquela estrada onde te fui buscar e já entrava num campo diferente”. São fronteiras que quem aqui vive começa a delinear. “A gente sabe quando está a atravessar os limites, porque tudo isso que se ouve falar só acontece lá fora”. Para Vítor, a maioria das coisas que se ouve falar da Cova da Moura são falsas. “Se tu tiveres essa condição, qualquer comunidade aqui inserida seria igual ou pior”.

No seu atelier não faltam livros que também vende na sua loja. A maioria fala de colonialismo, lutas anti-racistas, histórias na primeira pessoa. “Olha, agora estou a ler este. É muito bom”. Quanto mais páginas devora, mais acredita que atualmente atravessamos momentos que os seus antepassados passaram. Ou seja: “As coisas não mudaram assim tanto”.

Fala dos seus pais e de todos os que vieram construir casas na Cova da Moura, porque ninguém lhes alugava em Lisboa. “Tudo isso é ‘Djunta Mô’. É um slogan que os nossos pais usaram perante as dificuldades que tinham naquele tempo”. A tal expressão tão atual, que dá nome a uma das suas t-shirts. “Porque é tudo bonito quando querem a tua mão de obra, mas para alojamento nada”.

A família dele também vive aqui, há muito tempo. “O meu pai serviu a tropa portuguesa. Aliás, foi raptado para isso. Foi apanhado na rua para ir para a tropa”. A mãe conhece o pai antes de irem para Angola. Lá trabalhou como professora. “Depois vieram para cá no 25 de Abril e tiveram as dificuldades dos considerados ‘portugueses de segunda’”.

Vítor Sanches, bem disposto, à porta de sua casa. “Aqui as pessoas chamam por mim «Oh Vitinha!», nem batem à porta”. Foto: Nuno Mota Gomes

Vítor defende que, ainda hoje, um negro para ser considerado português não é fácil. “Porque o português mostra-se sempre numa posição gloriosa perante os africanos”.

Mostra-me a capa de outro livro. Abre caixas com mais títulos. “Fomos nós que trouxemos a revolução do 25 de Abril para cá. Se não fossem as lutas coloniais, continuava tudo igual”, diz. Vítor chama a atenção para a importância de conhecer essa relação. Diz que não haveria este problema de identidade e de lugar se fossem considerados portugueses desde o início.

“É impressionante como as coisas demoram tanto tempo a mudar. Mas se de repente te tirarem o microfone, é como se apagassem a luta toda” – diz. E por isso, o dele, é estampado em t-shirts.


Nuno Mota Gomes

É jornalista. Adora escrever, fotografar e perder-se em pensamentos. Anda de mota, faz surf, viaja sempre que pode – e nem sempre para o estrangeiro. Agora fá-lo mais aqui, em Lisboa, onde nasceu. Um Interrail abriu-lhe horizontes, publicou um livro e muitas reportagens de viagens na Volta ao Mundo – onde se estreou na TV. Passou ainda por outras publicações e durante dois anos integrou o Diário de Notícias. Há quem diga que percebe de redes sociais. Tem 27 anos. 

Entre na conversa

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *