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“Pobreza de mobilidade”. É mais um tipo de pobreza, moderno e urbano, e é o que melhor descreve as conclusões do estudo que o sociólogo Henrique Chaves, doutorando em Políticas Públicas pela Universidade de Aveiro, e Inês Vieira, investigadora em Ciências Sociais e educadora da Universidade Lusófona, fizeram sobre a situação da mobilidade na freguesia de Marvila, em Lisboa. Um termo que remete para a falta de alternativas de transportes sejam eles quais forem, uma realidade que é vivida nas áreas mais carenciadas da cidade.

No caso de Marvila foi estudada a chamada mobilidade suave, e é essa realidade que está compreendida no estudo realizado no âmbito do projeto social da rede Gingada, com financiamento do programa BIP/ZIP da CML.

“Marvila é uma realidade paralela em relação a Lisboa”, diz Margarida Marques, arquiteta da associação Rés do Chão que moderou a apresentação do relatório do estudo na Biblioteca de Marvila.

Uma realidade paralela, onde a maioria das pessoas anda a pé – o que seria bom, se não fosse por falta de outras infraestruturas, como mostra um inquérito a 396 pessoas – e onde não há condições para pedalar.

Isto apesar de, em Marvila, as ruas serem largas, mas quase sempre dedicadas aos carros (em muitas quase nem passeios existem).

“Marvila acompanha mais os tempos pendulares metropolitanos do que os da cidade de Lisboa”, diz ainda Margarida. Ou seja, é como se se vivesse nos subúrbios. Era isso que demonstravam as estatísticas de 2011: a duração das deslocações da população empregada ou estudante em Lisboa estava nos 23 minutos, enquanto em Marvila e na Área Metropolitana estava nos 26.

No inquérito, os tempos de deslocação são na sua maioria de 0 a 15 minutos, mas há que atentar que a maioria destas deslocações são dentro da freguesia e para locais de comércio, lazer e restauração.

Nas saídas da freguesia (que se devem sobretudo ao trabalho), verifica-se portanto um maior peso do automóvel e do transporte individual.

Inquérito à mobilidade em Marvila. Fonte: Consórcio Gingada.

E a mobilidade suave, onde se encaixa aqui?

Apenas 122 dos participantes afirmaram andar de bicicleta. “Há algumas ciclovias em Marvila, mas nada comparável com o potencial. Há um vazio urbano nesta área”, denuncia Margarida Marques.

Uma conclusão que vai ao encontro do anterior estudo de Miguel Padeiro, investigador da Universidade de Coimbra de que a Mensagem já tinha dado conta: nas áreas mais desfavorecidas da cidade, há menos infraestrutura de bicicleta.

Quem anda (e não anda) de bicicleta em Marvila?

São sobretudo os jovens, os que andam. Dos 122 participantes do inquérito que responderam usar bicicleta,

  • 66% têm entre 0 e 17 anos,
  • 28% têm entre 18 e 64 e
  • 12% têm acima dos 65.

E são, na sua maioria, homens.

As crianças que pedalam, pedalam por lazer. Algo que tem vindo a ser incentivado por projetos como o Roda Viva, da Associação Descalçada, e pelas iniciativas da Gingada: no âmbito deste relatório, criou-se uma rede de empréstimo de bicicletas e desenvolveu-se uma Cicloficina no Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no bairro da PRODAC.

Bicicletas no atelier Kriativu em Chelas, graças ao projeto Roda Viva da Associação Descalçada. Foto: Inês Leote

O problema é continuar a pedalar quando se cresce. Dos 396 inquiridos, apenas 17 utilizam a bicicleta nas deslocações casa-trabalho (5 mulheres, 12 homens).

Além da questão da falta de infraestrutura, as respostas dos inquiridos em relação a não optarem pela bicicleta são esclarecedoras:

  • 138 pessoas responderam que não tinham bicicleta (83 mulheres, 55 homens),
  • 97 dos inquiridos diz não saber andar de bicicleta (80 mulheres, 17 homens).

Outras respostas passaram por:

  • questões de saúde,
  • incompatibilidade de rotinas,
  • topografia da cidade,
  • insegurança no trânsito (mais relevante para as mulheres – 13 apontaram esta razão – do que para os homens – só 2 o referiram).

Construir mais infraestrutura em Marvila

“As pessoas, como não têm relação com a bicicleta, não se apercebem ainda da falta das ciclovias”, explica Henrique Chaves. E também é por isso que muitos não se apercebem da falta das Gira, o sistema de partilha de bicicletas da cidade, que aqui ainda não chegou, ou das operadoras de trotinetas elétricas, que não entram em Marvila.

Se os inquiridos do estudo de Henrique e de Inês disseram que a construção de ciclovias traria uma melhor qualidade ambiental e mais trajetos para os ciclistas, também aqui houve alguma preocupação em relação à diminuição dos lugares de estacionamento para carros e de vias para a sua circulação.

Mapa das docas de bicicletas Gira, que não abrangem a área de Marvila.

É isso também que preocupa as autarquias, como revela o estudo de Miguel Padeiro: que a população dos bairros acabe por não dar uso às ciclovias.

No entanto, noutras cidades como Londres, Milwaukee e Minneapolis, a construção de infraestruturas para bicicletas em bairros carenciados levou a grande adesão da população.

Não é preciso ir tão longe. Inês de Castro Henriques, chefe da divisão Estudos e Planeamento da Mobilidade da CML, que marcou também presença na apresentação do relatório, recorda a resistência da população ao sistema partilhado das Gira, quando estas surgiram em 2017.

Hoje, são muito utilizadas pela cidade – e há muitos que as querem em Marvila, onde já vai surgindo alguma ciclovia, especialmente na zona ribeirinha, apesar de não haver ligação entre a infraestrutura.

“No meu ponto de vista faz todo o sentido que Marvila as tenha”, diz Inês de Castro Henriques. “A ideia é alargar para toda a cidade”.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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1 Comentário

  1. Nem sei por é que esta reportagem foi simplesmente publicada aqui. Todos sabemos que as pessoas dos bairros desfavorecidos não têm Formação nem Cultura para utilizar estes meios de transporte. Portanto faz todo o sentido que eles só existam nos bairros mais ricos.

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