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Uma parceria com o Festival Iminente

Para fazer música é preciso uns bons pares de ténis, vestir bem, ter uma imagem que cative. “Há muitos discursos, tanto no ensino como na televisão” que ainda fomentam este mito que Pedro Coquenão, conhecido pelo mundo artístico como Batida, procurava desconstruir no dia em que nos encontrámos, num workshop do Iminente. Ali, no lusco-fusco de uma garagem plantada e durante vários anos fechada no bairro PER 7, na Alta de Lisboa, em frente a três jovens.

Três jovens moradores de um bairro social onde os recursos financeiros para comprar os melhores ténis são escassos, mas onde a paixão pela música sobra. Batida estava aqui para lhes mostrar que, afinal, um Lá pode apenas nascer de um pé no chão e um Ré de areia a chocalhar dentro de um ovo.

Iara tem mais jeito com os pés.

Iara tem 18 anos e é moradora no bairro que todos conhecem como PER 7, mas que lá dentro se chama “BQG”. Foto: Inês Leote

Aos 18 anos, a moradora do PER 7 apresenta-se logo com uma lição: quem cá mora não reconhece este nome, o bairro chama-se mesmo é “BQG” – “bi-qui-gi”, lê-se. PER diz respeito ao Programa Especial de Realojamento – que faz agora 30 anos e acabou com muitos dos bairros de barracas que havia em Lisboa.

“PER 7 é a divisão oficial por bairros e nós nunca nos identificamos com aquilo, então, como já tínhamos um nome dos bairros passados [de onde vieram realojados, do Bairro da Quinta Grande], adotámos este nome”, conta, enquanto balança dois “ovos” na mão – nada mais que objetos de plástico com o que se parece areia dentro.

Embora a arte dela seja outra – Iara joga futebol e gostava “era que a música se fizesse com os pés” – está aqui “para aprender”.

Aqui, na garagem do bairro ao qual a cidade nem reconhece a designação e onde os nomes mais sonantes da cultura – como Batida – não costumam chegar.

É por isso que, ao longo deste ano, o Festival Iminente tornou-se não só um festival de quatro dias criado por Vhils, mas um motor de mudança: antes do Festival propriamente dito, faz 16 workshops locais em que leva a arte aos jovens e moradores de cinco bairros de Lisboa – Alta de Lisboa (PER 7 e PER 11), Bairro do Rego, Vale de Alcântara e Vale de Chelas. Há música, dança, cinema, artes visuais, performance e sensibilização ambiental, nesta iniciativa à qual chamaram Projeto Bairros.

A Mensagem é media-partner do festival Iminente, onde fará jornalismo ao vivo. Nos dias anteriores, serão publicadas cinco reportagens sobre estes workshops, uma por bairro.

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Workshop do Festival Iminente na Alta de Lisboa. Vídeo: Inês Leote

“O que acontece aqui é o que já era feito mais por instinto. Mas coisas que não são tão simples de promover junto dos nossos jovens.” Lembra-o Nuno Barbosa, mediador comunitário no PER 7.

No lugar de carros, um lugar de empoderamento jovem

Se há marco que o Projeto Bairros deixa neste território é a de ter dado uma outra vida a um espaço que esteve fechado durante anos.

Desde que o PER 7 é PER 7 e as pessoas aqui foram realojadas vindas das barracas da Quinta Grande, todos sabem que existem garagens por baixo dos prédios, garagens que nunca puderam usar. Em frente ao que deveriam ser os portões para entrada de carros, há tijolos e a porta de acesso interior esteve sempre fechada.

Um espaço na periferia da periferia. Era assim até a Associação de Moradores do bairro da Quinta Grande ter conseguido travar esta luta com a Câmara Municipal de Lisboa e legalizado uma das garagens. É hoje a sede deles.

E foi exatamente aqui que o Iminente fez acontecer os workshops. Um espaço que estava previsto ser dos carros (e que nem dos moradores chegou a ser) tornou-se um lugar de empoderamento jovem, com os workshops Iminente.

Durante anos, dizem os moradores, tentaram legalizar um espaço desenhado para eles, mas fechado. Foto: Inês Leote

“Cabe-nos a nós, como humanos, tentar ir aos sítios que são menos iluminados, tentar transformá-los em espaços bons. Estamos a tentar dar essa história e essa memória ao sítio. E condições para que seja inspirador.” Batida era o artista convidado desta semana. Fala dos sofás e do tapete, antes “espalhados”, agora dispostos para criar um ambiente confortável. À paisagem, juntam-se um frigorífico, luzes led, colunas, um microfone e uma interface “para poder transformar os dedos em som”.

Diz ele que até já têm mais do que é preciso para fazer música acontecer. “Mas o que temos é para nos sentirmos tratados com dignidade, porque acho que merecemos, enquanto artistas.” E aqui o artista já engloba os miúdos que se sentam à frente dele, aprendizes.

É que, sobretudo aqui, num bairro onde normalmente a cultura não chega, importa mostrar que a vinda, quando acontece, “não é uma coisa acidental”. “Se olhares para uma igreja, aquilo dá uma trabalheira do caneco a fazer e as pessoas levam anos e anos para a fazer, algumas morrem para aquilo ficar perfeito, para ser um ritual para todos. Aqui, acho que não é preciso passar por esse processo todo. Pode ser uma coisa igualmente sagrada, mas mais direta com a pessoa que acredita no que faz e quer fazer música religiosamente para o resto da sua vida”, remata.

Pedro Coquenão vem para falar de música, mas também para mostrar como se pode fazer muito com pouco.

Batida é Pedro Coquenão, um artista de vários ofícios, em que a música ocupa um lugar de grande destaque. Foto: Inês Leote

Hoje chamam-lhe Batida e o percurso profissional, diz ele, começou como um miúdo performer em casa – uma carreira de animação de encontros de famílias, “imposta, porque ninguém queria ver”. Inventava poemas, tocava versões de músicas conhecidas. Quase sempre com os primos, “porque o que a música e a arte têm de mais bonito é a colaboração, não é tanto um exercício de ego”. Rapidamente, viu-se a fazer rádio, vídeo, música, televisão e até se tornou agora um artista que transforma plástico em arte. “Não vejo necessidade de me definir, porque isso é uma necessidade de mercado”.

Batida é apenas e só o Batida.

Veio de Angola, “como quase toda a gente” com a guerra. “Na minha cabeça, tudo estava ok, até chegar à escola e perceber que aquilo que sou por dentro ou aquilo que vês lá em casa é diferente daquilo que acontece cá fora. Reagem a ti com estranheza e eu cresci assim, a sentir-me estranho. Tentei ao máximo integrar-me.”

Mas trouxe com ele para Portugal – e para este dia – o que viu como cidadão de Luanda, em que “os espaços de produção são também espaços de usufruto”. É o que ele sonha, agora, para esta garagem. “Na minha cabeça, isso é algo que pode acontecer naturalmente. A música pode ser feita quase à medida do espaço e, para o produtor, pode ser inspirador estar a ouvir logo no sítio onde a música vai tocar.”

Foi na garagem de um dos prédios do bairro que aconteceram os workshops Iminente. Foto: Inês Leote

“Não sei se me sinto à vontade para ir ao Príncipe Real”

Tudo começou com um batuque. A simples batida num batuque. “Para darmos a noção de que podemos fazer beats com qualquer coisa.” Este é um objeto que Batida trouxe “de muito longe, mas que é igual em todo o lado” – uma pele esticada e com som grave, que só exige mãos ou baquetas. Fazer muito com pouco, assim começou a lição.

Depois, partiu para uma drum machine, uma máquina através da qual se podem criar beats sem um computador por perto, só carregando nos botões. Um bocadinho mais, mas ainda assim: muito, com pouco.

E, no terceiro encontro do workshop, foram finalmente ao computador, “com dois programas que são tipo a Coca-Cola e a Pepsi de fazer beats“.

Aos poucos, e consoante as valências de cada um, nasceu música nesta garagem. Se Iara só se ajeitava com os pés, a verdade é que aprendeu a dedicar-se aos “ovos”. Ela que dizia não saber nada de música, senão como mera ouvinte que escuta e dança ao som de um ritmo que a impele, diz já estar a ouvir “de maneira diferente”.

Já o irmão Edgar é outra história. Com 17 anos, tentou violino, mas acabou a ser baixista na escola. O colega Edson, sentado ao lado deles, tem talento ao microfone.

“Ela gosta de fazer música em conjunto, de participar, então é boa para percussão e para dança. E ele gosta de usar o microfone, por isso, vamos transformar o beat dele num beat com voz por cima”, assim Batida analisou e fez acontecer.

Para todos, o segredo é “o tempo” que se dedica a cada um deles – eram três neste dia. Mas Batida não estava sozinho na tarefa. “Teres um produtor super experiente e histórico [o Satelite] a ter a cabeça dele toda focada para ti é brutal. Ele já fez isto com o melhor MC de kuduro que existe à face da terra, que é o Bruno M. Sem saber, este miúdo está com alguém que fez isto com grandes nomes”, lembra. “É bonito de ver” pessoas que provavelmente nunca se cruzariam, juntas.

Nesta história dos cruzamentos, diz o artista, tem de ser “um exercício de equidade, mais do que igualdade”. “Há aquela ideia de que tens de ir a Nova Iorque, ao Chiado ou ao Príncipe Real para te encontrares com estas pessoas. Mas isso não é um exercício de igualdade. ‘Anda cá ter ao arranha-céus e falamos’. Eu não sei se me sinto à vontade para ir ao arranha-céus ou ao Príncipe Real.”

Então, e daqui para a frente? O que se espera destes jovens? “Depois, tem de haver um workshop sobre como é que eles fazem dinheiro com isto. Esse não vou ser eu a dar, porque ainda não aprendi.”

O Iminente decorre entre os dias 22 e 25 de setembro, na Matinha, em Marvila. Veja aqui o programa dos quatro dias


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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