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Sempre que chove em Lisboa transformam-se alguns dos espaços verdes da cidade. Esta semana, devido à aproximação da tempestada extratropical Danielle, o IPMA prevê a ocorrência de chuva persistente, pontualmente, forte. Na renovada Praça de Espanha, por exemplo, há agora lagos onde há pouco havia seca, e se estendiam toalhas e faziam piqueniques na relva. Mas não se engane o olho mais incauto: estes lagos não são um erro de quem desenhou o mais recente parque da cidade.

Estão lá com propósito e intenção e surgem apenas com chuvas intensas. São bacias de retenção e infiltração das águas pluviais e fazem parte do plano de drenagem da cidade que pretende acabar com as inundações – ou prevenir as que aí poderiam vir.

São estruturas naturais e permitem que a água de chuva intensa não viaje por canais de escoamento rápido, e desça pelos milhares de sumidouros da cidade, transformando-se numa furiosa torrente que inunda as zonas baixas. As inundações na Baixa de Lisboa – ou em Alcântara – em vez de risco, podem vir a ser coisa do passado se estas bacias de retenção funcionarem bem.

Elas são uma de duas ferramentas chave do ambicioso plano que se propõe isso mesmo – o Plano Geral de Drenagem de Lisboa, em execução até 2030 e com um orçamento total de 180 milhões de euros – a maior empreitada da cidade.

As obras para a construção dos dois túneis previstos no Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL) devem começar ainda neste mês de setembro em Campolide, conforme anunciou a Câmara Municipal, antecipando condicionamentos no trânsito – e depois, em Santa Apolónia e Beato, na Avenida Infante Dom Henrique, entre outubro e novembro, na Avenida Almirante Reis e Chelas até dezembro, e na Avenida da Liberdade e Rua de Santa Marta em fevereiro de 2023. A obra terá sete estaleiros — Campolide, Avenida da Liberdade, Rua de Santa Marta/Barata Salgueiro, Avenida Almirante Reis/Rua Antero de Quental, Santa Apolónia, Chelas e Beato.

Um plano a 100 anos para evitar 80% das inundações

Em 1967, um pico histórico de precipitação na antiga região da Grande Lisboa provocava cerca de 700 mortos. Desde então, não se repetiu tragédia com tais proporções, mas as alterações climáticas são sinónimo de fenómenos meteorológicos extremos e a cidade precisa de preparar-se. Esse é um dos maiores riscos da cidade, aliás.

Segundo a Câmara Municipal de Lisboa, cerca de 6% da área total do concelho – seis milhões de metros quadrados – está classificada como área de “elevada vulnerabilidade a riscos de inundação”.

Parque oeste na Alta de Lisboa.

A impermeabilização dos solos, com a expansão da área urbanizada, a construção em leitos de cheia, há séculos, e a proximidade do rio, colocam desafios urgentes na ação climática. José Silva Ferreira sublinha a importância de olhar para a orografia da cidade na hora de planear. “A Avenida da Liberdade era uma ribeira, a Rua de Santa Marta, São José e Portas de Santo Antão eram outra ribeira e a Avenida Almirante Reis é outra ribeira. Quando há muita chuva, [a água] vem de cima para baixo e pelos percursos mais fáceis e rápidos”.

É nestes e noutros caminhos que o plano de drenagem está a intervir, com o objetivo de evitar “70% a 80%” das inundações em Lisboa.

O plano assenta em dois grandes eixos, sendo um deles a construção, já finalizada em 2019, das duas grandes bacias de retenção e infiltração, na Ameixoeira e no Alto da Ajuda. O segundo eixo prevê a construção de dois túneis de drenagem na cidade. É o mais ambicioso investimento do plano, tendo levado a Câmara Municipal de Lisboa a aprovar o mais elevado investimento de sempre numa só empreitada – 133 milhões de euros.

Com execução prevista té 2030 e um investimento total de cerca de 250 milhões de euros, este Plano Geral de Drenagem de Lisboa é “a obra invisível” que vai proteger a cidade em várias frentes dos impactos das alterações climáticas:

O túnel de escoamento entre Monsanto e Santa Apolónia vai ter impacto na zona Ocidental e Central de Lisboa e terá uma extensão de cinco quilómetros.

Na zona da Avenida Almirante Reis, antes de se chegar ao projeto aprovado, “chegou-se a pensar comprar o parque de estacionamento [do Martim Moniz] e fazer ali um reservatório [de água]”, conta o engenheiro que coordena o plano.

“Mas, estruturalmente, um parque de estacionamento não é o mesmo que um reservatório. Custava muito dinheiro”. A solução passou, então, a ser um túnel que desembocará em Santa Apolónia, e ganhou outra escala. “É o chamado transvase de bacias”.

Inicialmente, o túnel percorreria apenas a distância entre a praça do Martim Moniz e Santa Apolónia. Depois, o plano passou a ser “de Santa Apolónia a São José” e, finalmente, chegou-se ao projeto que já está a avançar.

O túnel terá início em Monsanto e terminará em Santa Apolónia, alcançando uma extensão de cerca de cinco quilómetros. Em 2024, altura em que a empreitada deverá estar concluída, a expectativa é a de que “as inundações passem a ser uma miragem” em Lisboa, diz o engenheiro.

Sempre que houver “água a mais no caneiro de Alcântara ou na Avenida da Liberdade, na zona de Santa Marta, São José, Portas de Santo Antão ou na Avenida Almirante Reis”, será feito o desvio dessas águas para o túnel, que terá uma largura de 5,5 metros. “Acabamos por fazer uma blindagem a toda a zona Ocidental e Central da cidade”, diz.

O túnel de escoamento da zona Oriental da cidade, entre Chelas e Beato, terá um quilómetro de extensão.

A máquina que vai escavar os dois túneis deverá dar início aos trabalhos entre agosto e setembro do próximo ano. Depois de concluído o túnel da zona Ocidental, avançará o segundo túnel, entre Chelas e Beato, com a mesma largura do primeiro e extensão de um quilómetro.

“Gostamos de dizer que estamos a preparar Lisboa para o século XXII, não é para o século XXI”. É um investimento da cidade para os próximos 100 anos, garante José Silva Ferreira.

Na assinatura do contrato com o Banco Europeu de Investimento relativo à última parcela de 90 milhões de euros, Carlos Moedas disse que esta obra será o seu “legado”. “Representa muito, representa hoje tornar o invisível em visível. Há um legado que vou deixar seguramente, que é transformar aquilo que é invisível em visível e esta obra é invisível aos olhos das pessoas, mas será a maior obra em Lisboa no nosso mandato”, afirmou o Presidente da Câmara.

José Silva Ferreira, engenheiro responsável pela coordenação do plano, explica aquilo que se observa na Praça de Espanha, por exemplo, “é uma filosofia que se usa muito nos Países Baixos”, onde a hipótese de ocorrência de cheias é encarada com seriedade, já que parte do território se encontra abaixo do nível médio do mar. Ali, diz, “as praças são para se estar quando não está a chover e está um tempo porreiro, mas quando chove muito tornam-se bacias de retenção e infiltração”.

Onde antes havia relva, há agora lagos espontâneos

Os lagos que se acumulam nos jardins, são apenas uma das faces visíveis. A acumulação de água da chuva em relvados de jardins e em largas bacias escavadas na estrutura verde de Lisboa, permite “atrasar o processo de escoamento”, diz Duarte d’Araújo Mata, arquiteto paisagista e especialista em infraestrutura verde.

José Silva Ferreira acrescenta que a “infiltração é feita de modo a evitar que haja grandes caudais nos coletores existentes. É o chamado controlo na origem”.

O plano da bacia de retenção da Praça de Espanha. Foto: CML

Mas não é só na Praça de Espanha que encontramos estas bacias. Escondem-se em jardins e parques da cidade e só dão nas vistas quando chove intensamente, como esta semana, através da formação de lagos.

O jardim do Campo Grande contou recentemente com a implementação de uma solução idêntica e o mesmo aconteceu no Parque da Bela Vista, assim como no recém inaugurado Parque Ribeirinho Oriente, em Marvila. Uma das bacias do Parque da Bela Vista veio substituir um lago artifical. Agora, só existe a água que chega por ação da chuva e, assim, evitam-se “custos elevadíssimos” relacionados com a artificialização de espaços naturais da cidade, lembrava à Mensagem, em agosto, Rui Simão, chefe de divisão de Manutenção e Requalificação da Estrutura Verde da Câmara Municipal de Lisboa.

Também as obras que atualmente decorrem no Parque Eduardo VII contemplam a implementação de bacias. Do projeto consta a construção de novos coletores pluviais que permitem o escoamento das águas da chuva para bacias de retenção implementadas nos relvados centrais do parque lisboeta.

As obras que atualmente decorrem no Parque Eduardo VII preveem a implementação de bacias de retenção e escoamento nos relvados centrais.

Em vez de escorrer para os sumidouros, as bacias possibilitam não só a retenção e a infiltração lenta das águas pluviais, evitando que a água vá “toda ao mesmo tempo para a baixa da cidade”, como também vão “alimentar os aquíferos e mantêm a humidade do solo”, explica Duarte d’Araújo Mata.

Estas bacias podem ter todos os tamanhos e feitios. Podem ser bacias grandes ou “micro soluções – as soluções de micro drenagem, que podem ser feitas em praticamente todos os sítios. Todos os espaços verdes podem ter essa solução”, explica Duarte.

Cuidados com a poluição das estradas

Água da chuva acumula-se, onde antes passava o Riacho do Rego, no Parque Gonçalo Ribeiro Telles.

Mesmo os locais previamente impermeabilizados, como parques de estacionamento, podem passar a ser permeáveis, possibilitando a infiltração das águas da chuva. No caso da recolha de água contaminada na passagem por espaços rodoviários, estradas e ruas, deve haver um cuidado extra na água que se infiltra. “Deve haver filtros de areia, deve ser feita uma camada de retenção, para que a água não vá com esses hidrocarbonetos todos”, diz o arquiteto paisagista.

Essa filtragem pode ser feita também com recurso a determinados tipos de plantas. E a contaminação da água não acontece só a partir dos veículos a combustão, lembra: resulta “também dos materiais dos carros, dos sistemas de travagem, dos pneus. Os carros elétricos produzem imenso disto. Os pneus e os sistemas de travagem geram micro partículas que são extremamente tóxicas e que, com a chuva, vêm para o solo”.

As bacias de retenção e infiltração podem ser particularmente notadas nos jardins, por serem locais de passagem mais intensa de pessoas, mas é na Ameixoeira e no Alto da Ajuda que estão as duas maiores bacias da cidade que integram o Plano Geral de Drenagem de Lisboa.

*Artigo publicado originalmente em dezembro de 2021 e atualizado com informações do plano de drenagem.


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Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 30 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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4 Comentários

  1. “Os carros elétricos produzem imenso disto. Os pneus e os sistemas de travagem geram micro partículas que são extremamente tóxicas e que, com a chuva, vêm para o solo.”; É falso. É sabido que os carros elétricos tem menos necessidade de troca de pastilhas e discos de travões justamente por terem sistemas de travagem regenerativos elétricos.

  2. Segundo o site a obra dos túneis era para começar em Setembro de 2021, um ANO DEPOIS ESTÁ TUDO NA MESMA.

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