Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Contrariando a ideia sugerida pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Carlos Moedas, de que a ciclovia da Avenida Almirante Reis dificultava a passagem de ambulâncias, João Castro, arquiteto paisagista na autarquia há mais de 30 anos, anunciou, numa sessão pública, que “o corredor de emergência na Almirante Reis nunca foi tão bom como agora”. Utilizando a ciclovia para escapar ao tráfego automóvel, “as ambulâncias fazem o canal todo com relativa segurança e conseguem aceder ao Hospital de São José sem paragem”, disse.

Durante quatro horas, a ciclovia foi o foco da sessão de auscultação dos cidadãos sobre o futuro da Avenida Almirante Reis. Carlos Moedas fez-se representar pelo seu assessor João Castro para a área do espaço público e principal interlocutor de uma sessão pedida pela CML e que contou com a presença da presidente da Junta de Freguesia de Arroios, Madalena Natividade e cerca de 100 cidadãos, bem como de representantes partidários, que se queixaram da ausência de convite e divulgação do evento.

Esta foi a terceira sessão dos últimos dias, depois de um dia dedicado a ouvir associações e instituições e um outro destinado aos comerciantes. Tomaram o palco e o microfone cerca de três dezenas de pessoas, a vasta maioria favorável à manutenção de uma ciclovia.

Processo participativo e uma “intervenção a dois tempos” na Almirante Reis

A CML, por seu lado, anunciou o início de um processo participativo com o objetivo de promover a requalificação total da Avenida Almirante Reis.

João Castro foi o escolhido pelo presidente da CML para liderar o processo e, apesar da ambição da autarquia de reformular totalmente o espaço público do eixo que liga a praça do Martim Moniz ao Areeiro, sublinhou o facto de tratar-se de um projeto demorado. “A não ser que se comece já, dificilmente consegue concluir-se neste mandato a obra da Almirante Reis”, explicou.

Mas, concluída a ronda inicial de auscultação a cidadãos e agentes interessados, a decisão parece estar tomada: “Chegámos à conclusão de que deveria haver uma requalificação global da Almirante Reis”.

Segundo o responsável pelo processo, vai tratar-se de uma “intervenção a dois tempos”. Uma “imediata”, que procurará resolver alegados “problemas de escoamento” no tráfego rodoviário e poderá implicar mexidas no atual perfil da ciclovia, e uma segunda, que culminará com a requalificação de avenida em todo o seu perfil.

Ciclovia da Avenida Almirante Reis. Foto: Rita Ansone

O arquiteto paisagista, confessou-se “surpreendido com a quantidade de utilizadores da pista [ciclável]”, Durante o mês de fevereiro deste ano registou, por várias vezes, mais de 1200 passagens de bicicletas por dia. A garantia deixada foi a de que, com “ginástica”, será possível “dar resposta a todas as situações”, garantindo espaço de circulação pedonal, ciclável e rodoviário.

E porque diz que a avenida “não tem largura para uma solução fácil”, cada um dos modos poderá vir a ser “sacrificado”, não alcançando uma situação “ótima, mas 80% do canal” de que cada um necessita.

“É difícil encontrar alternativa à Almirante Reis que não retire algum estacionamento”

No programa eleitoral da coligação vencedora das eleições autárquicas, encabeçada por Carlos Moedas, era prometida a “eliminação” da ciclovia da Avenida Almirante Reis, por se tratar, no entender da candidatura, de uma via “com problemas”. No documento, estava plasmada, no entanto, a promessa de desenho de uma “alternativa viável”.

Se a nova solução ciclável passar por retirar a ciclovia da Avenida Almirante Reis, será, no entender de João Castro, “difícil encontrar alternativa que não retire algum estacionamento”.

A perda de lugares de estacionamento poderá não ser o único obstáculo à definição de um novo percurso ciclável. Para Rosa Félix, investigadora de mobilidade urbana no Instituto Superior Técnico (IST), a Avenida Almirante Reis é um de “dois canais óbvios” que a topografia e o desenho urbano de Lisboa oferecem para subir a cidade sem grandes declives, não restando, assim, grandes alternativas a uma solução ciclável por outra rua.

Recorde-se que não existem ruas ou avenidas com perfil topográfico semelhante a esta, com declives médios inferiores a 5%, que possibilitem, de modo direto, a subida da cidade entre a zona da Baixa e o Areeiro.

É o próprio assessor de Carlos Moedas a assumir uma das vantagens da ciclovia: “a Almirante Reis tem um declive constante, o que é fácil para quem pedala [e] é fundamental para termos clientes na rede ciclável”.

Após a vitória eleitoral da coligação liderada por Carlos Moedas e perante a possibilidade da eliminação da ciclovia da Avenida Almirante Reis, uma concentração de cerca de um milhar de pessoas, a pé e de bicicleta, percorreu, a 19 de outubro, a ciclovia e terminou o percurso na Praça do Município, clamando pela manutenção daquela mesma via ciclável, inaugurada em junho de 2020, e com gritos de “Mais bicicletas!”.

Dois meses após a manifestação popular, o vereador com a pasta da mobilidade, Ângelo Pereira, garantia, afinal, em reunião de câmara, a manutenção da ciclovia. Na altura, o responsável autárquico disse que “não vai acabar nenhuma ciclovia em nenhuma localidade da cidade”.

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2022/03/19-Outubro-2021-Almirante-Reis.mp4
Concentração pela manutenção da ciclovia da Avenida Almirante Reis, a 19 de outubro de 2021.

No dia 2 de dezembro de 2021, foi entregue na Assembleia Municipal de Lisboa, uma petição assinada, em papel, por 2900 cidadãos, em defesa da ciclovia da Avenida Almirante Reis e por um processo participativo sobre o futuro desenho da importante artéria lisboeta.

Desde que foi inaugurada, a meio de 2020, a ciclovia já foi alterada na sua tipologia. Deixou de ser bidirecional, ocupando uma única via no sentido ascendente, para passar a ter dois canais de circulação unidirecionais, ocupando espaço junto ao separador central da avenida. A avenida, cujo perfil apresentava, anteriormente, duas vias de trânsito em cada sentido, apresenta hoje apenas uma em cada direção.

O antes (junho de 2020) e o depois (julho de 2021) da ciclovia da Avenida Almirante Reis.

Próximos passos para uma avenida com mais árvores e menos ruído

Entre algumas das propostas deixadas por cidadãos que participaram na sessão pública, esteve a plantação de mais pontos de arvoredo na futura Avenida Almirante Reis. João Castro confirmou pretensão idêntica por parte do município, avançando que, “numa perspetiva de um novo arruamento, deverá haver arvoredo”.

Segundo o arquiteto paisagista, as tílias que marcam o separador central da avenida “não fazem sentido lá estar”, já que o crescimento das suas raízes está limitado pelas lajes de betão que suportam o Metropolitano de Lisboa.

A falta de sombra gerada pela fraca presença de arvoredo poderá justificar uma maior exposição da avenida a situações de calor extremo. “Em agosto, a diferença de temperatura para a Rua Pascoal de Melo”, arruamento que cruza com a Avenida Almirante Reis, “é de cinco graus”.

Ciclovia da Avenida Almirante Reis. Foto: Rita Ansone

Entre as necessidades de intervenção na avenida elencadas pelos participantes, estiveram, entre outros, a necessidade de melhorar a acessibilidade pedonal, de reduzir a dependência automóvel, de garantir a existência de uma solução segura para utilizadores de bicicleta e diminuir o ruído com origem no tráfego.

Ouviram-se, ainda, repetidas críticas à formulação da convocatória para a sessão, que circunscreveu o tema da sessão de esclarecimento à “problemática da ciclovia, (…) que a todos preocupa”. Para um dos cidadãos intervenientes no Mercado do Forno do Tijolo, aplaudido no final do seu comentário, “a ciclovia é a única coisa que não é problemática na Almirante Reis”.

Para breve será agendada nova sessão, desta vez destinada à discussão coletiva das soluções propostas pelos cidadãos, para “procurar uma abordagem final”, explicou João Castro. “Se a ciclovia ainda não foi suprimida”, disse o arquiteto, “é porque estamos comprometidos com um processo participativo”.

Pensar a Almirante Reis com a ZER?

A reposição de duas vias de circulação em cada sentido parece ser um dos objetivos de Carlos Moedas até ao final do presente mandato, tendo durante o mês de fevereiro proferido declarações nesse sentido. Tais alterações na avenida requerem obras de requalificação mais profundas.

João Castro não confirmou que a solução final vá passar pela reposição do anterior esquema de circulação automóvel, tendo ainda assumido que “as duas vias nunca funcionaram bem, porque havia uma ocupação abusiva de uma [das vias]” por parte de veículos em operações de cargas e descargas.

Utilizadores de bicicleta na Praça do Município, no final da concentração em defesa da ciclovia da Avenida Almirante Reis, a 19 de outubro de 2021. Foto: Rita Ansone

A Zona de Emissões Reduzidas (ZER) prevista para as zonas da Avenida, Baixa e Chiado, anunciada em janeiro de 2020 e ainda sem implementação prevista por parte do novo executivo municipal, apresenta a zona do Martim Moniz, onde termina a Avenida Almirante Reis, como zona limite para a entrada de automóveis, abrindo caminho à redução da pressão automóvel nesta zona da cidade e impedindo o tráfego de atravessamento entre a avenida e a frente ribeirinha da cidade, com a devida exceção para moradores, comerciantes e acesso local.

Na sessão de auscultação, João Castro confirmou que é “intenção da Câmara Municipal de Lisboa” caminhar no sentido da redução da utilização do automóvel.

A verde, a zona em que está prevista a aplicação de medidas de restrição à circulação automóvel, com excepção ao tráfego de residentes, comerciantes, motociclos, veículos elétricos e detentores de avenças de estacionamento e garagens. Fonte: CML

A ZER, tal como apresentada pelo anterior presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, tem o objetivo de retirar do centro da cidade 40 mil automóveis por dia e reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em cerca de 60 mil toneladas por ano.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 30 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

Entre na conversa

5 Comentários

  1. Fui vogal na Junta de Freguesia de Arroios anterior com 5 pastas entre elas ambiente, idos@s, e Cultura. O que tive a oportunidade de ler parece me muito interessante e correcto da parte da exposição do arquitecto paisagista.
    Ganharam com isso o Presidente da Camara ,a Junta , e a Cidadania, ou seja, todos : peões/idos@s , deficientes ,biciclistas, automobilistas, ambulancias, e sobretudo o ambiente em Lisboa que se torna mais respiravel ,o que é fundamental para a cidade e para a saude de tod@s. Vai demorar a fazer, mas que fique bem feito e com olhos para o Futuro como está a suceder em todas as cidades europeias já ha muito tempo, vide Paris, Londres,Madrid, Barcelona, Vigo,Amesterdao,Bruxelas etc condicionando o transito automóvel no centro das cidades. OBRIGADO.

  2. Bom trabalho. Estive presente na manifestação e na sessão pública e este artigo resume muito bem o que se passou. 👏

    O arquiteto responsável pareceu-me muito experiente e informado e genericamente alinhado com a visão e aspiração dos participantes auscultados.

    No entanto, surpreendeu-me um aparente desconhecimento do problema do excesso de velocidade. Estava convicto que o limite de velocidade de 50 km/h é respeitado. Ora, basta conduzir a essa velocidade (ou inferior, claro, trata-se de um limite máximo, não um limite mínimo) nessa avenida ou em muitas outras ruas lisboetas para perceber que apenas uma minoria dos condutores cumpre. Muitos apitam, etc.

  3. Parabéns pelo artigo que reflecte muito bem o que se passou. Infelizmente não posso ficar optimista com o que será o futuro da Almirante Reis. O Arq. João Castro, na qualidade de representante do Presidente da Câmara, ia subscrevendo quase tudo o que ia sendo dito o que é absolutamente contraditório com o que pensa o presidente da CML: ou o PCML mudou de ideias e está numa estratégia de arrefecer o assunto, ou estas sessões são para nos atirar areia para os olhos. Veremos o que o futuro dirá.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.