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Água. Talvez se tenha lembrado dela (ou da sua falta) nos últimos dias. 2022 é o segundo ano hidrológico (que se conta a partir do dia 1 de outubro) mais seco desde 1931 (pior só em 2004/2005). O planeta está a aquecer, Portugal está a aquecer, Lisboa está a aquecer. E a água começa a escassear.

As cidades são as principais responsáveis pelo stress hídrico. Com a expansão urbana e o desenvolvimento económico, o consumo de água aumentou e também a sua poluição. É aqui, onde as alterações climáticas se sentem com mais força, que a solução passa por reciclar. É que, tal como o plástico, o cartão e o vidro, também a água pode ser reutilizada.

Como? Tratando-se as águas residuais urbanas, ou seja, aquelas que resultam das atividades do meio doméstico (as águas cinzentas das lavagens de roupa e loiça, dos banhos, das descargas de sanita, etc.), misturadas com as águas industriais ou pluviais, devolvendo-as à cidade.

Fonte: Relatório do Estado do Ambiente

Água reciclada no espaço público

Há que pensar onde se consome água no meio urbano. “Nas cidades, os principais consumidores são as habitações, os jardins e as ruas”, diz Rodrigo Proença de Oliveira, professor da Secção de Hidráulica e Recursos Hídricos e Ambientais do Instituto Superior Técnico.

Rodrigo Proença de Oliveira acredita que se tem investido na reutilização de água em Lisboa.

Em Portugal e no mundo, aquilo que é hoje mais comum é a reutilização de água no espaço público para irrigação de jardins, para a lavagem de ruas, para a criação de lagos, e também para sistemas de refrigeração da indústria.

Lisboa está já munida de uma rede de água para reutilização, a Água+, uma rede com 55 km e com saída das 3 ETAR’s de Lisboa (Alcântara, Beirolas e Chelas).

E este ano fez-se a instalação de um sistema de rega no Parque das Nações – Zona Norte com água reutilizada produzida em Beirolas, parte do projeto Parques e Jardins de Lisboa: o mesmo verde, a água é outra. Rega sustentável com água+.

O objetivo do município: a poupança de 3 mil milhões de litros de água potável (cerca de 75% do consumo atual) até 2025, fazendo com que os consumidores da cidade poupem até 6 mil milhões de litros.

E também combater aquele que é um cenário em Portugal e na Europa: o desperdício das águas residuais tratadas. Em 2020, apenas 1,1% das águas residuais tratadas nas ETARs portuguesas foram reutilizadas e a maior parte pelas próprias entidades gestoras.

Em 2019, nas ETARs de Lisboa, procedeu-se ao tratamento de 56 840 milhões de litros de águas residuais, sendo reutilizada pela Águas do Tejo do Atlântico (AdTA) 1 354 milhões e 17 milhões pela CML e pelas Juntas de Freguesia (cerca de 2,4%).

Mas Rodrigo Proença de Oliveira acredita que desde então já se tem feito um caminho. No resto do país, discute-se onde mais se pode reutilizar água. No Algarve, a rega de campos de golfe (só um dos 40 campos de golfe recorre a águas recicladas) tem sido alvo de discussão.

Água reciclada em casa?

Mas cada vez se pensa mais para além disto. É que, no dia-a-dia, usa-se água potável nas habitações para atividades que não precisam dela: descargas de autoclismo, lavagem do chão, rega de jardins. Água que poderia ser reutilizada.

Duarte Mata d’ Araújo defende que há muito potencial das águas reutilizáveis com baixa utilização.

E se hoje a reutilização das águas residuais já se tornou uma realidade nas cidades, a verdade é que a reutilização da água consumida nos edifícios públicos e privados ainda está muito atrasada.

“Temos esse potencial das águas reutilizáveis que ainda tem uma taxa muito baixa de utilização”, diz o arquiteto paisagista Duarte Mata d’Araújo.

Sara Correia, técnica da ZERO – Associação Terra Sustentável, concorda: “Se compararmos a nossa posição com a de outros países europeus, há um grande trabalho para ser feito”.

Há já vários exemplos no mundo de instalação destes sistemas. A Green Square, um projeto de renovação urbana em Sydney, na Austrália, implementou sistemas de reutilização de água nas sanitas e nas máquinas de lavar das habitações, mas também nos postos de lavagem de carros e na rega dos jardins. O escritório da Microsoft, em Israel, também reutiliza águas cinzentas nas sanitas.

Em Berlim Central, na Alemanha, uma parceria alemã e tunisina estudou a implementação destes sistemas numa residência comunitária com três edifícios que acomodavam 71 famílias. As águas cinzentas passaram a ser usadas para descargas de 90 casas de banho e para irrigação dos jardins.

Em Portugal, também já foram feitos estudos sobre a instalação destes sistemas. Em 2012, o artigo científico Otimização do Consumo de Água em edifícios. Implementação de sistemas de aproveitamento de águas pluviais e reutilização de águas cinzentas analisava, durante um período de dez anos, a instalação destes sistemas num conjunto de edifícios, entre eles o Centro Comercial Colombo.

Se nos centros comerciais e edifícios de serviços o retorno do investimento era favorável, o mesmo não acontecia numa moradia e num edifício multifamiliar. “É mais fácil para uma unidade familiar, mas não há muitas em Lisboa”, diz Rodrigo Proença de Oliveira. “Nos prédios, é um investimento muito elevado, visto que o preço da água é tão baixo. Chega-se à conclusão que não vale a pena”.

E instalá-los, em qualquer tipo de edifício, ainda não é fácil: se houver interesse na reutilização da água consumida, há que recorrer ao município para que este aprove a opção com o apoio de um projectista, de um instalador e da Associação Nacional para a Qualidade das Instalações Prediais.

Sara Correia diz que falta legislar a instalação de sistemas de reutilização de água nas habitações.

Para Sara Correia, o problema em Portugal prende-se com a falta de legislação. Em 2019, foi aprovado o Regime Jurídico de Produção de Água para Reutilização Obtida a Partir do Tratamento de Águas Residuais, que se debruça sobre o aproveitamento das águas da ETAR, mas pouco se refere ao tratamento das águas cinzentas nas habitações.

Em 1995, surgia o Regulamento Geral dos Sistemas Públicos e Prediais de Distribuição de Água e de Drenagem de Águas Residuais, onde não há informação sobre as águas cinzentas nem normas de instalação para os prédios. Esse decreto teve uma atualização em 2016, mas que ainda não foi aprovado pelo Conselho de Ministros. “Há uma lacuna nesse sentido, era preciso haver uma atualização na legislação”, reforça a técnica da ZERO.

Em julho deste ano, o governo aprovou um “simplex” de medidas para o Ambiente, com o objetivo de facilitar a utilização das águas residuais pelas empresas, eliminando-se a necessidade de licença, estando o uso destas águas apenas sujeito a comunicação prévia com prazo. Este diploma está em consulta pública até 15 de setembro.

Mas não basta simplificar os procedimentos: para que estes sistemas se tornem uma opção nos edifícios públicos e privados, o governo tem um papel a desempenhar, através da criação de incentivos como reduções fiscais ou financiamento para a sua instalação.

Algo que já acontece em alguns países, como nos Estados Unidos e na Austrália. “Nas casas novas, estes sistemas deviam ser obrigatórios”, diz Duarte Mata d’Araújo. “Quanto ao resto, vai depender de incentivos”.  

As águas pluviais

Outra questão que é também avaliada no artigo de 2012 são os sistemas de aproveitamento de águas pluviais, ou seja da água da chuva, um método que também já tem sido estudado.

Há cidades americanas a oferecer benefícios fiscais para a instalação de sistemas de aproveitamento de água pluvial e na Índia há leis para a colheita da água da chuva em estados e cidades como Tamil Nadu e Nova Deli.

Na Alemanha, o aproveitamento das águas pluviais tornou-se uma prática. O Potsdamer Platz em Berlim tem hoje um sistema de gestão integrada das águas pluviais urbanas. No Brasil, o estádio de futebol Arena das Dunas tem uma cobertura que capta água da chuva para ser armazenada em reservatórios e usada no relvado e nas casas de banho.

Em Matosinhos, no Porto, há um empreendimento cooperativo com este sistema e em Telheiras também, o Natura Tower, que capta as águas pluviais nas coberturas dos dois edifícios de escritórios para serem usadas na rega gota-a-gota das fachadas verdes dos edifícios.

Natura Towers, em Telheiras, Lisboa. Foto: GJP

Pela primeira vez, o Plano Estratégico para o Abastecimento de Água e Gestão de Águas Residuais e Pluviais 2030 (PENSAARP 2030), neste momento em análise no portal participa.pt, prevê a gestão das águas pluviais.

Em 2015, o artigo científico Potencial económico do aproveitamento das águas pluviais para uso doméstico na região de Lisboa analisava o desempenho de um destes sistemas numa moradia unifamiliar em Agualva-Cacém, em Sintra. A conclusão, tal como a do estudo anterior, é que este é um investimento que ainda não é rentável, a não ser que seja cofinanciado pelo Estado.

Rodrigo Proença de Oliveira não acredita que os sistemas de aproveitamento de água pluvial possam funcionar nas habitações. “A agua pluvial, em virtude das alterações climáticas, vai estar disponível cada vez menos”, diz. “A água reciclada, sim, está sempre disponível, temos de arranjar forma de produzimos mais quantidade de águas recicladas”.

Para o especialista, a prioridade não são as habitações (se bem que considere que instalar sistemas de aproveitamento de águas cinzentas em escritórios seria benéfico), mas antes o investimento na cidade, criando-se uma segunda rede de distribuição de água.

É que a escassez em Lisboa não é tão problemática como noutros pontos do mundo, onde até já se estuda a possibilidade de se reutilizar água para consumo humano. “Temos uma zona de escassez hídrica, mas não estamos em Cabo Verde ou no Sul de Espanha, são precisas soluções diferentes”.

O professor sugere, para além do reforço da rede de reutilização em Lisboa, a possibilidade de se levar a água reutilizada para zonas agrícolas, como nas ribeiras do Oeste. “Claro que teria custos, é preciso fazer estudos”.

É que Lisboa não tem utilidade para todas as águas recicladas. É preciso pensar onde mais é que os recursos hídricos podem ganhar nova vida.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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1 Comentário

  1. Isto é muito interessante mas se não houver água para ser reciclada o que se fará? Deve-se, na minha humilde opinião, investir na reciclagem mas e fundamentalmente na dessalinização da água do mar (que por acaso é um bem que temos à mão de semear).

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