Isolamento. Esse terror maldito que assombra as casas de Lisboa. Demasiado frias quando o inverno se põe, demasiado quentes quando o verão se levanta. Nas arruadas dos candidatos às eleições autárquicas do passado dia 26 de setembro, somavam-se os pedidos por mais e melhores casas.

Alguns ouviram relatos de famílias em pânico com o frio que iriam sentir dentro das suas paredes assim que o clima esfriasse. Não admira, pois, que Portugal se posicione entre os piores países da União Europeia (UE) na pobreza energética. Mesmo sendo território com um dos climas mais amenos.

“Normalmente, só se fala de janelas” como solução, “porque é mais fácil”. Mas grande parte do isolamento das nossas casas vem das paredes, lembra Laura Lorenzo, engenheira agrónoma espanhola a viver em Lisboa há sete anos.

Na pobreza energética, Portugal tem dos piores registos da UE. Foto: CML

Se nos edifícios já existentes a energia existente pode ser reduzida em 30 ou 50% trocando o envidraçamento, em edifícios novos a redução pode ser de 90 ou 95% através da manipulação do design do isolamento das estruturas, explica.

No que toca a isolar casas, as barreiras comerciais (preços elevados), estruturais (aplicação difícil e inflexível) e até os riscos para a saúde (materiais cancerígenos) e para o ambiente (emissões de CO2) são questões quase sempre incontornáveis. Se são materiais amigos do ambiente, como é o caso da cortiça, “são caros”. Se são baratos, saem caros para a saúde humana e ambiental.

Uma pandemia e um confinamento em Lisboa fez Laura procurar uma solução: ALBEDO é um biomaterial de isolamento térmico feito a partir da casca de citrinos. Quem diria que o modelo foi inspirado nos limoeiros dos logradouros da cidade?

Veja aqui como Laura está a ajudar a hidratar as árvores de Lisboa

Ver o futuro nas traseiras de Lisboa

Fevereiro de 2021 e Portugal recebia as más notícias: uma nova vaga de internamentos e mortes por covid-19 obrigava-nos a regressar ao confinamento. A catalã Laura passou-o na sua casa em Campo de Ourique, o seu “pedacinho de Barcelona em Lisboa”.

Da sua janela, viu o futuro.

Foto: Orlando Almeida

“Era uma ideia que já andava na minha cabeça, desde que, em 2015, tive de ficar mais por casa devido a uma gravidez de risco e observava aqueles limoeiros. Todos os meus vizinhos tinham árvores de fruto nos seus logradouros.” Mas os limões, reparou, tinham um comportamento diferente, dia após dia. “O tempo passava, os limões caíam, mas continuavam lindos, perfeitos.”

O confinamento trouxe mais empenho à observação. Laura diz questionar-se muito e sobre tudo desde sempre. Quando era mais nova, chamavam-lhe de “AGFA”, por correspondência ao anúncio que passava na altura na TV sobre a multinacional belga – “nada escapa a AGFA”. E nada escapa a Laura Lorenzo, sabiam.

Por isso, não será estranho que esta engenheira tenha olhado para estes limões e questionado até onde levar a descoberta. “Será que têm boas propriedades de isolamento?”

Laura viu ali um problema: não só a eficiência de isolamento dos edifícios estava a ser mal pensada, como o processo atual estava a prejudicar seriamente o meio ambiente, em contracorrente com o que deveria ser o caminho do mundo – combater as alterações climáticas. Na UE, os edifícios são responsáveis ​​por 36% das emissões de Gases com Efeito de Estufa.

“Todas aquelas cascas de laranja que sobram dos sumos das máquinas de sumo natural dos cafés podem cobrir uma casa”. Foto: DR

A primeira geração de ALBEDO

A ideia saltou da cabeça para a realidade. Chamou ALBEDO ao que agora produz, que é nada mais nada menos do que uma espuma feita organicamente a partir de cascas de citrinos – sobretudo limão. Albedo “é a parte branca fofa” deste fruto oblongo, entre a casca amarela, com propriedades hidrófugas, e o sumo. A espuma – que é espuma, porque “assim se gasta menos matéria prima” é transformada numa placa de isolamento térmico.

Ao recorrer a fruta, Laura está a potenciar o modelo de economia circular. “Sabia que são desperdiçadas três mil toneladas de laranja na Europa por dia? E que há muitos resíduos de citrinos e que as empresas que os produzem não sabem o que fazer com eles?”, questiona. Seriam necessários apenas dois quilos de cascas de citrinos para cobrir 150 metros quadrados de uma casa com ALBEDO – o que representa 400 placas deste produto.

Os citrinos recolhe-os em cooperativas, na produção e na restauração. “Todas aquelas cascas de laranja que sobram dos sumos das máquinas de sumo natural dos cafés podem cobrir uma casa.”

E podem durar até 30 anos numa – além de permitiram um sistema modular de construção, em que a troca de placa não pressupõe obras de maior porte, que influenciam a canalização da casa, por exemplo.

ALBEDO, da empresa criado por Laura A piece of Lemon Cake, concorre com o isolamento atualmente disponível no mercado: de fibra de vidro, lã mineral, lã de rocha e poliestireno. Todos eles provenientes de fontes não renováveis, de uma fabricação extremamente intensiva em energia e sem capacidade de biodegradação e reciclagem do produto final. O maior adversário seria a cortiça, uma solução mais amiga do ambiente, mas “mais cara”, explica a engenheira.

No passado dia 16 de setembro, na sua cidade – Barcelona -, Laura Lorenzo foi a grande vencedora do prémio de CleanTech Camp, uma aceleradora portuguesa e catalã. Mas “a primeira geração de ALBEDO” tornou-se antes possível porque procurou o apoio e investimento de gigantes mundiais como a Fraunhofer, organização destacada para desenvolver investigação de utilidade prática para entidades privadas e públicas.

A segunda geração está agora a ser testada, como um melhoramento da primeira, onde foram encontradas falhas como “a perda da fofura” da espuma – resultante do albedo do limão – e deverá estar pronta em dezembro deste ano.


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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