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No café Deguimbra, Francisco Ribeiro Telles recorda o seu pai, Gonçalo Ricardo Telles., folheando o livro Gonçalo Ribeiro Telles: A Fotobiografia do seu amigo Fernando Santos Pessoa. Foto: Inês Leote

Quando era pequeno, Gonçalo Ribeiro Telles observava da janela de sua casa, na Rua das Pretas, os pardais que sobrevoavam os céus de Lisboa e que tinham como destino os ulmeiros da Avenida da Liberdade.

Gonçalo Ribeiro Telles

Nesse tempo, a cidade do pequeno Gonçalo ainda se alimentava de searas, de carros de bois e de mulas que carregavam hortaliça. Essa foi a cidade que marcou o miúdo que viria a ser arquiteto paisagista. A cidade que ele próprio ajudou a transformar com obras como os jardins da Gulbenkian, o Corredor Verde de Monsanto, o Parque Eduardo VII.

E claro, com a sua intensa atividade política, sempre ligada à ecologia.

“O homem do futuro é um homem que vai juntar a cidade e o campo”, dizia. Desde pequeno que conhecia bem Coruche, de onde a família era natural. Numa entrevista ao Expresso, descrevia as viagens de comboio até lá: “atravessava os montados, os arrozais…”. Pelo campo, “metia o nariz em tudo”. “Nas lavouras, ia ver como funcionava o rebanho”. Ficava a contemplar os cogumelos, as lagartixas, os sobreiros.

Era um observador tão atento da natureza que, no seu primeiro exame de condução, falhou um sinal vermelho porque ficou a admirar as bonitas buganvílias no caminho.

Neste ano do seu centenário (1922-2022), a obra de Gonçalo Ribeiro Telles tem sido celebrada pela cidade e houve até o lançamento de um manifesto, Honrar Gonçalo Ribeiro Telles: O homem, a vida, o pensamento, a obra.

A cidade dele era Lisboa, mas a Avenida da Liberdade seria sempre a sua casa. Viveu nas proximidades: da Rua das Pretas, mudou-se mais tarde para a Rua São José, nº204, onde ficou até à morte.

Numa altura em que tanto se fala de como se poderia mudar a Av. da Liberdade – com projetos aprovados pelo LIVRE de deixar de haver trânsito ao domingo, e a polémica consequente -, fomos à Avenida que era a dele conhecer os planos que Gonçalo fez para ela.

Um jardim na Avenida da Liberdade

A Av. da Liberdade “foi a sua primeira luta”, conta o velho amigo, também arquiteto paisagista, Fernando Santos Pessoa.

Mesmo no final da vida, era por esta zona que Ribeiro Telles deambulava. Muitas vezes, com o amigo que vinha do Algarve a Lisboa só para o acompanhar: “Lá ia ele com a sua bengala, íamos sempre tomar uma bica”, recorda Fernando Santos Pessoa.

“Toda esta zona sempre lhe disse imenso”, recorda o filho, diplomata, Francisco Ribeiro Telles, sentado numa mesa do café Deguimbra, mesmo ao lado da casa onde viveu o pai.

“O senhor Gonçalo tinha muitos amigos, fazia aqui reuniões”, confirma Silvério Antunes, um dos cinco irmãos que gere a Deguimbra.

Fernando Santos Pessoa com Gonçalo Ribeiro Telles e no café Deguimbra.

Em 1950, na Avenida da Liberdade, impunha-se a construção do metropolitano, a necessidade de se aumentar a faixa de rodagem e a de se intervir nas árvores que, por estarem em caldeiras, estavam mais suscetíveis a doenças.

Foi então que Gonçalo Ribeiro Telles, ainda um jovem, foi chamado a intervir – na altura estava a trabalhar na Câmara Municipal de Lisboa.

Na Avenida projetada originalmente por Ressano Garcia, no mesmo quarteirão existia uma única espécie botânica de árvores em placas situadas frente a frente, absolutamente diferentes da espécie plantada no quarteirão seguinte.

Foi isso mesmo que Ribeiro Telles começou por querer mudar.

“Não existe qualquer razão de ordem estética ou biológica para que se encontrem as placas duas a duas povoadas com espécies de porte, volume e cor totalmente diferente”, escrevia o arquiteto paisagista na memória descritiva do seu projeto apresentado em 1955.

Um projeto que desenhou com Francisco Caldeira Cabral, antigo professor e responsável por trazer a arquitetura paisagista para Portugal, para tornar esse eixo emblemático da cidade num verdadeiro jardim, onde o elemento principal seria, claro, a árvore.

Na primeira figura, a imagem à direita refere-se ao projeto de Gonçalo Ribeiro Telles e Caldeira Cabral e à esquerda ao projeto original de Ressano Garcia. Na segunda figura, em cima o projeto de Ressano Garcia, em baixo o projeto de Ribeiro Telles e Caldeira Cabral. Fonte: Espaço Público de Lisboa

Juntos, o professor Caldeira Cabral e o discípulo Ribeiro Telles projetaram uma Avenida da Liberdade diferente. O espaço para os carros até era aumentado – em cada um dos lados havia uma lateral para trânsito local, como dantes. Mas no centro, as árvores surgiam dos dois lados, e os peões passeavam ao meio, em espaços ajardinados.

O movimento dos passeios laterais ficava assim isolado pelas faixas verdes que funcionavam como um “biombo vivo” em relação aos carros, como escreve a arquiteta paisagista Teresa Bettencourt Câmara no documento da CML Espaço Público de Lisboa.

Nas faixas ajardinadas laterais, plantar-se-iam árvores de copa larga e nas centrais árvores de copa mais estreita. Quanto às árvores que já se encontravam na Avenida, a sua maioria em mau estado, aquelas que se conseguiram preservar foram integradas no projeto.

“Foi privilegiada a flora de Lisboa, a flora nativa”, explica a arquiteta paisagista. Deu-se mais importância à forma da vegetação do que à cor. Para formar uma parede que separasse as pessoas dos carros nas faixas laterais.

Nas faixas exteriores, optou-se por vegetação mais densa e foram plantados canteiros de vegetação mais baixa e com plantas perenes. Já as faixas centrais que dão para o centro da avenida não tinham quase arbustos, para que fosse possível verem-se as paradas e manifestações que sempre ali decorreram.

“Era para a Avenida ser vivida como um jardim”, diz Teresa Bettencourt Câmara. Um jardim onde as pessoas passavam pelas árvores e pela sua vegetação, bem longe dos carros, e onde se podiam demorar em muretes em lioz cor-de-rosa que tinham a função de bancos ou em bancos com as costas inseridas nas próprias faixas ajardinadas.

Um espaço com quiosques e esplanadas, esculturas e até mesmo com bebedouros para pássaros, respeitando-se a fauna de Lisboa. No fundo, na Avenida da Liberdade dava-se vida àquilo que hoje tanto se defende: a criação de zonas de usufruto na cidade.

Fotografias da Avenida como projetada por Ribeiro Telles e Caldeira Cabral. Fonte: Espaço Público de Lisboa

Francisco Caldeira Cabral, filho do arquiteto paisagista Caldeira Cabral (que herdou não só o nome do pai como a profissão) e em tempos colega de Gonçalo Ribeiro Telles, recorda a Avenida que o pai e o amigo sonharam: “Era um projeto que dava prioridade ao peão. A Avenida passava a ser uma alameda, uma promenade, onde se podia passear afastado dos carros”.

Francisco Caldeira Cabral, filho do professor com o mesmo nome, recorda o projeto do pai e de Gonçalo Ribeiro Telles. Foto: Inês Leote

É curioso que tenha sido esta a proposta de Ribeiro Telles e Caldeira Cabral. Porque quase sessenta anos depois, discute-se isso mesmo: libertar espaço para o peão.

A discussão hoje vai ainda mais longe. Neste projeto, o trânsito automóvel continuava, se bem que separado dos peões. Agora, aquilo que se propõe é proibir o trânsito automóvel em toda a Avenida aos domingos e feriados.

“Era um projeto que dava prioridade ao peão. A Avenida passava a ser uma alameda, uma promenade, onde se podia passear afastado dos carros.”

Francisco Caldeira Cabral, arquiteto paisagista filho do professor Caldeira Cabral

Se proibir o trânsito automóvel hoje gera polémica, imagine-se como foi na altura, ao apresentar-se um projeto que alterava a imagem criada por Ressano Garcia.

“Rompia com aquilo que se considerava estar certo no desenho dos jardins”, diz Teresa Bettencourt Câmara.

E por isso não foi fácil defendê-lo.

No Diário Popular, em 1957, as críticas fizeram-se ouvir desde logo: “A beleza da Avenida estava em grande parte nas suas proporções, na largueza e desenho dos empedrados, na disposição geométrica das árvores. Nada disso se mantém. A Avenida fica às avessas, virou uma avenida ao contrário. Dos lados das placas há zonas verdes desiguais e rua ao meio ensaibrada (…)”.

Iniciava-se uma guerra feroz de críticas nos jornais, com vários arquitetos a insurgir-se contra a obra. Mas também na CML as vozes se levantaram: em 1958, o vereador Francisco Ribeiro contestou o projeto num parecer em que dizia que a Avenida ganharia um “aspeto demasiadamente informal” graças aos “ajardinamentos” propostos.

A primeira figura representa a Avenida dividida pelos dois projetos (do lado esquerdo, o projeto de Ressano Garcia. Do direito, o de Caldeira Cabral e Ribeiro Telles). Na segunda figura, no troço poente avança-se com as obras de Ribeiro Telles e de Caldeira Cabral, no troço nascente permanece o projeto de Ressano Garcia. Fonte: Espaço Público em Lisboa

As respostas de Gonçalo Ribeiro Telles ao parecer esclarecem aquelas que eram as intenções dele desde o início. “O peão em permanente contacto com o trânsito automóvel tem estado sujeito a inúmeros desastres”, disse. “Insistir em manter as árvores na Avenida nas condições atuais (…) é condenar a Avenida a não ter árvores dentro de poucos anos”, acrescentou.

No ano seguinte, chegou-se à conclusão que, em zonas ainda não remodeladas da Avenida, se verificava o mau estado fitossanitário, até mesmo a morte, de algumas árvores. O mesmo não acontecia nas faixas ajardinadas, onde as árvores se desenvolviam de forma saudável.

Mas nem isso foi suficiente para cessar o descontentamento. “O projeto no seu tempo teve alguma adesão, mas não foi compreendido por muitos”, conta Teresa Bettencourt Câmara.

Em 1960, um jornal publicava um artigo intitulado “O Problema da Avenida” que, segundo o documento da CML, “comentando as obras da avenida testemunhava o movimento de opinião no sentido de se retroceder ao estado inicial” daquele ponto da cidade.

O movimento de opinião que correu os jornais e que de facto surtiu efeitos. Nesse mesmo ano (sete anos desde que Ribeiro Telles pensou o primeiro esboço da Avenida em 1953), o presidente da CML França Borges pediu que fosse Ribeiro Telles a repor a situação inicial da avenida. O arquiteto recusou, acabando por demitir-se das suas funções.

“O que aconteceu ali foi uma polémica dos velhos do Restelo, que se agarraram a questões de conservadorismo”, denuncia Francisco Caldeira Cabral.

E a Avenida voltava ao que era dantes. Como é hoje, aliás – com os peões a passarem junto dos carros. E as árvores em reduzidas caldeiras.

Um homem de convicções

Apesar do desaire, o arquiteto nunca abandonou as convições. “O que eu guardo dele e que no fim de contas foi um ensinamento é a convicção das suas ideias e dos seus projetos. Nunca o vi acomodar-se em relação ao que quer que fosse para comprometer os ideais em que sempre acreditou”, recorda o filho.

Fez das suas ideias a sua vida e a sua política. Não era tanto a ideologia que lhe importava, basta pensar que tanto foi deputado da Assembleia pela Aliança Democrática (AD), da qual foi fundador, como mais tarde voltou como independente nas listas do PS. “Sendo convictamente monárquico, o que lhe interessava era pôr as ideias dele em prática, quer fosse abordado por partidos à direita ou à esquerda”, explica o filho.

Francisco Ribeiro Telles na porta de casa do pai, Gonçalo Ribeiro Telles. Foto: Inês Leote

“O que era importante para o Gonçalo era renovar a paisagem, captando o pensamento ecologista”, diz o velho amigo Fernando Santos Pessoa. E muito foi conseguido.

Nos anos 1980, a criação da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional mudariam para sempre o ordenamento do território. “Oh pai, conseguiu!”, disse-lhe o filho Francisco. O pai respondeu-lhe: “Oh filho, eles nem sabiam o que estavam a aprovar”.

Talvez as conquistas de Gonçalo Ribeiro Telles se tenham devido em grande parte à sua capacidade de comunicar.

“A forma como o meu pai falava com as pessoas, o respeito que lhes tinha”, recorda Francisco. “Fosse com um pequeno comerciante, com um agricultor de Coruche ou com o Presidente da República, o meu pai falava sempre da mesma maneira”.

“Houve muitos ensinamentos transmitidos ao longo da vida, mas não foi uma coisa forçada”, diz Gonçalo Ribeiro Telles, filho de Francisco que herdou o nome do avô em sua homenagem. “Ele era um grande conversador sobretudo”.

E atreve-se ainda: “Muitas vezes queria discordar do meu avô, mas revia-me tanto em algumas coisas que ele dizia”.

“A forma como o meu pai falava com as pessoas, o respeito que lhes tinha. Fosse com um pequeno comerciante, com um agricultor de Coruche ou com o presidente da República, o meu pai falava sempre da mesma maneira.”

Francisco Ribeiro Telles, filho de Gonçalo Ribeiro Telles

Mas não é só do seu avô que Gonçalo tem boas recordações, é também da sua avó, Maria da Conceição de Calazans Fortinho de Sousa. “Eram pessoas bastante diferentes mas completavam-se na verdadeira acepção da palavra. A minha avó era pragmática nas questões do dia-a-dia, o meu avô era um pensador que vivia imbuído nas suas questões”.

O pai de Gonçalo segue as palavras do filho: “O meu pai só conseguiu ter a vida que teve, sempre a trabalhar e com uma disponibilidade absoluta, porque tinha a minha mãe. Respeitavam-se enormemente. Para além de um grande amor, ele sentia que a minha mãe era um esteio”.

Gonçalo Ribeiro Telles e a mulher, Maria da Conceição de Calazans Fortinho de Sousa, com os netos.

Muito daquilo que defendeu ao longo da vida causou polémica, claro. Hoje alguns dos seus projetos e ideias seriam aceites de outra forma, como é o caso da Avenida da Liberdade.

“Ele estava sempre à frente do seu tempo”, desabafa Fernando Santos Pessoa. Estava, sim, e por isso deixou na cidade as sementes de um conhecimento que hoje resiste.

Antes de morrer, em novembro de 2020, só pedia uma coisa à família: que se preservasse a sua biblioteca em Coruche. Esses livros que, em pequeno, ainda com os olhos postos na Avenida da Liberdade e nos seus pardais, ele tanto gostava de folhear.

Mas talvez não haja melhores palavras para descrever Gonçalo Ribeiro Telles do que as do seu neto que, com cerca de oito anos, foi a um programa de avós e netos da RTP para falar do avô:

“O meu avô já tem uma certa idade, mas ainda é muito verde, sempre foi. Nasceu em Lisboa e o resto é paisagem, sonha com uma cidade de aldeia com muitas árvores, um verdadeiro alfacinha. É um arquiteto mas só tem olhos para a paisagem. É sonhador mas tem os pés bem assentes na terra, é monárquico mas não tem o rei na barriga. Já foi subsecretário de Estado e depois secretário de Estado e depois ministro e ficou ainda mais verde. Só vê o lugar do ambiente”.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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2 Comentários

  1. Ou é impressão minha ou o projecto de Gonçalo Ribeiro Telles, tem muito menos árvores e mais alcatrão do que o de Gessano Garcia ?
    Numa altura em que se fala em reduzir o trânsito automóvel na Avenida da Liberdade, passarmos de 8 faixas de rodagem efectivas para 12, não se se seria um projecto ambientalmente correcto.

  2. Não viu bem. Tem de facto mais alcatrão porque se teve de alargar a via na altura – mas tem muito mais verde e árvores.

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