Pode escolher ouvir esta reportagem, em vez de ler:

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2021/04/grandereportagemassociacoes1.mp3

Dez anos depois, o silêncio foi devolvido ao bairro PER 11. Nas ruas sombreadas pelos prédios de vários andares, os carros estão estacionados e duas crianças correm com cautela, quase em bicos de pé, à volta das redes de um campo de futebol fechado. O mais alto sinal sonoro neste bairro na freguesia de Santa Clara está a latir numa varanda do segundo andar.

O que existe são apenas sussurros na rua, todos eles familiares a Mauro Wah, 42 anos. A mesma falta de barulho serviu-lhe de motivação, há dez anos, quando decidiu trazer os mais pequenos cá para fora e mudar a vida do bairro. Nessa altura, as ruas estavam caladas pela amargura de uma vida que a comunidade recomeçou aqui, depois de terem abandonado as suas barracas de lata, madeira ou tijolo burro espalhadas pela cidade.

Desta vez, foi uma pandemia que devolveu o silêncio ao bairro. E com ela, chegou uma velha inimiga: a fome.

O alarme soou na voz pequenina de uma criança. Mauro esperava os jovens do bairro na sala da associação que criou e onde se preparava para os ajudar a ler e escrever. Sem aviso, ouviu um grito de alerta. “Havia miúdos que diziam que não tinham ido à escola porque a mãe não tinha dinheiro para os levar ou para comprar o lanche.” A pobreza não estranha por estas bandas, mas o elefante estava muito maior.

Não só ali, em toda a cidade.

Alimentar bocas não era o mote de nenhuma das associações de bairro que visitamos nesta reportagem. Tinham sido criadas e estavam habituadas a trabalhar para a educação (a escolar e a cívica) dos jovens dos bairros sociais de Lisboa. Mas a sua missão não seria completa se, nesta fase de pandemia, esquecessem os adultos. São os pais e avós das suas crianças e jovens cujos rendimentos foram reduzidos devido à crise causada pelos aos sucessivos confinamentos pela covid-19.

Logo no ano passado, Ariana, Muxu e Joana, coordenadores da associação Passa Sabi, já se tinham habituado a alimentar Lisboa. O bairro delas deixou de ser o do Rego, para ser a cidade inteira. A não muitos quilómetros de distância, Carla viu a sua “antiga e esquecida” Curraleira ser a boia de salvação para famílias até de classes socioeconómicas acima da dela.

Aqui contamos a história destas associações, de quem as leva em frente, e de como os que delas fazem parte viraram heróis da cidade.

Capítulo I

A revolução que começou num campo de futebol

Há dez anos, Mauro Wah desafiou as crianças do bairro de diferentes etnias a unirem-se num campo de futebol. Foto: Facebook Associação Raízes

A revolução no PER 11, em Santa Clara, chegou tão suave como o bater de asas de um pássaro. Mas teve a força de mudar até a vida de um.

Assim que as crianças se vergavam para apertar os cordões dos ténis e inaugurar as redes do campo de futebol do bairro, num pequeno apartamento, lá no alto de um prédio vertido para o campo, um periquito andava de trás para a frente, e vice versa, com o passo delimitado pelos extremos da gaiola. Lá em casa, sabia-se: assim que o pequeno começava a marchar, os miúdos do bairro estavam em campo. O futebol transformou realmente a comunidade inteira, até um pássaro.

“A associação é um reflexo de uma necessidade, que começou comigo. Quando mudei para cá, fazia-me falta o barulho,” recorda Mauro Wah. O correr desajeitado e sem medo das crianças na rua, o burburinho à volta dos carros onde se partilhava a vida em conversa e a gritaria entre janelas, como quem chama por alguém na mesma casa. Quando, no início do milénio, todos foram obrigados a mudar do bairro de barracas e casas precárias, essa memória barulhenta deu lugar ao silêncio no novo bairro.

O Mauro e a família foram realojados no bairro PER 11, um dos que albergaram dezenas de famílias vindas de bairros de barracas espalhados pela cidade. PER é o que ficou conhecido como o Programa Especial de Realojamento: prédios de vários andares, em betão, partilhados entre pessoas que até então viviam nas mesmas condições.

Cada bairro novo ganhou o seu número. Este é o 11. O mesmo número de jogadores necessários para formar uma equipa de futebol, o desporto através do qual Mauro combateu o silêncio das ruas. Criou uma associação para devolver as crianças ao barulho da brincadeira, ensiná-las e amparar-lhes o futuro.

Mauro nasceu em Moçambique e veio para Portugal com quatro anos. Morou no antigo bairro de barracas das Galinheiras, antes de chegar ao PER 11. Foto: Catarina Reis

“É fácil dizer: ‘vai brincar lá para fora’. Mas se tu não conheceres ninguém, não tens ninguém que te consiga encaminhar…” Os maiores perigos nascem nesta infância frágil e largada ao acaso. “Acredito que eles acabam por tomar outro tipo de caminhos.”

Sobretudo num bairro dividido pela etnia e pela droga, como este foi em tempos. “Como o PER 11 é uma mistura de vários bairros, o princípio foi complicado, foi quase um choque de civilizações. Temos uma comunidade cigana aqui de Santa Clara que até conhecíamos bem, mas veio uma da Ajuda que chegou com uma postura de ‘isto é nosso’. O pessoal do meu bairro até era muito calmo e deixou andar. Até certo ponto”, conta Mauro. Seguiu-se o choque e o bairro dividiu-se em vários.

As crianças de etnia cigana estavam proibidas de brincar com as de pele mais escura e vice-versa. Por isso, as ruas silenciaram-se, com a vida a acontecer confinada dentro de portas. Antes do tempo. Já não era um bairro, apenas se intitulava um. Até que Mauro questionou-se: “Porque é que tem de ser assim? Nós não somos tão diferentes uns dos outros, sendo brancos, negros ou ciganos. Somos pessoas, no final.”

Efeito Big Bang: o homem no ponto zero

Com experiência junto de crianças, devido à mentoria que exercia em colónias de férias da freguesia, estava certo de que seria fácil unir as do bairro em torno de uma bola de futebol. Um dia, desceu a escadaria do seu prédio e desafiou algumas delas que passavam na rua. Na pressa com que aceitaram o desafio havia a memória de Cristiano Ronaldo e de Messi, ídolos de competição que os faziam sonhar com as redes da baliza rasgadas por golos de bicicleta ou no ângulo impossível.

“Mas sabem o que é jogar à bola?”, perguntou-lhes Mauro. “Não é só correr pelo campo e chutar. Têm de se saber comportar, tem de haver regras.”

E aqui disse logo ao que vinha: mudar a vida das novas gerações. Para jogar futebol, todos teriam de aprender a conviver uns com os outros e correr – porque sem trabalho não se marcam golos. A cada vitória precede o empenho e o espírito de equipa, ensinou-lhes.

O resto esperou calmamente ver acontecer, confiante de que aconteceria. Passados uns dias, o barulho regressava às ruas, batia e ecoava nas paredes dos prédios ali pousados serenos. E como coisa estranha que era desde que todos se tinham mudado para ali, não tardaram a chegar os olhares curiosos. O campo começou a ficar rodeado de crianças. “Das vezes em que vinha para aqui, com os miúdos, acabamos por ver a comunidade cigana à volta do campo a olharem e queriam todos jogar.” Ninguém quis ficar de fora do 11 de Mauro.

Primeiro, vieram os miúdos. Depois, os graúdos. À volta de uma bola, uniram-se as comunidades que ali residiam de costas voltadas. “Começou tudo ali. O nosso espaço de reunião era o campo de futebol. E conseguindo trabalhar os miúdos, acabas por trabalhar os pais. Os miúdos têm ‘bué’ força neste sentido.”

Então, Mauro fez do discurso uma arma. “Eu disse-lhes: ‘vocês são todos iguais para mim; não quero saber se tu és branco ou cigano’. A comunidade cigana olhou para mim e colocou-me no ponto zero. ‘Ele não é nem mais nem menos, não faz mais para uns ou menos para outros’. Era o que diziam.”

No ponto zero da nova história deste bairro estava Mauro. Como um Big Bang no Espaço, tudo o que há hoje aqui eclodiu a partir deste ponto.

Mauro apalpa o bolso das calças e verifica as horas no telemóvel. Do outro lado da rua, uma criança apressa a resposta que ele procura no pequeno visor e chama-o. “Às quatro horas”, grita de volta o mentor. E ri-se com a ansiedade com que lhe chegou a pergunta.

Não muito depois, forma-se uma fila de crianças à porta da sala onde Mauro já os aguardava. Um T-0 de paredes revestidas a Fernando Pessoa e autores anónimos. Tenho em mim todos os sonhos do mundo, anunciam as palavras do poeta. Ao centro, uma mesa. Estantes com pilhas de livros, material deixado ao acaso e guardado para outras atividades. Num canto, uma Playstation.

Há muito que as reuniões deixaram de ser só futebol. A certa altura, foi preciso responder a outras necessidades.

“Vão fazer cópias”. Mauro explica a ordem de trabalhos. “Eles vêm da escola e sei que há muitos miúdos que não fazem os trabalhos de casa – a mochila vem e volta, eles não a abrem. Eu não me esforço para eles fazerem o trabalho de casa, mas peço-lhes uma cópia ou uma leitura. Porque acho que a base está aqui. Temos muitos miúdos que não sabem ler nem escrever e isso fez-me uma confusão imensa. Como é que tu consegues fazer alguma coisa se nem ler consegues?”

Aqui, instaurou uma regra mor: para brincar, dentro ou fora, há que trabalhar primeiro. A fazer cópias ou a ler em voz alta. Só assim têm acesso aos treinos de futebol, a aulas de dança, ao comando da Playstation ou às bicicletas. O que explica a fila que se faz lá fora e a pressa com que, minutos depois, cada uma das crianças agarra um livro da prateleira.

Mauro já perdeu a conta a quantos são. Uns dias uns, outros dias outros. Até já há quem venha de outros bairros. A comunidade cresceu, muitos dos que estrearam o campo de futebol com o mentor são agora pais e os filhos também andam por cá. Está tudo gravado no mural de fotografias que ele próprio preparou e montou numa das paredes desta sala. Anos e anos em imagens.

Outros deles tornaram-se o braço direito de Mauro, como é o caso de Denise Tavares, de 20 anos. Ou Dedé, como é carinhosamente chamada. “A mãe”, intitulam os mais pequenos.

Mauro oficializou o seu movimento como associação, há seis anos, e conseguiu ganhar três salas no rés-do-chão de um dos prédios. “É fixe teres uma casa cheia, mas tens de a sustentar.”

No lugar da bola, comida

Há muito que Mauro se habituou a esta fila de crianças. Mas, no ano passado, os pés miúdos que a faziam foram trocados por graúdos, de passo tímido e impaciente. Ali estavam alinhados mães e pais, representantes de família, para recolher alimentos. “Mais de 20 famílias, na boa”, contabiliza Mauro.

A pandemia também atravessou os prédios gigantes do bairro, capazes de travar o sol, mas não o vírus. Numa zona onde os recursos já são escassos, Mauro previa a fome que fez fila à porta da associação. Veio a confirmar-se nas confissões dos mais pequenos, que lhe diziam faltar às aulas porque naquele dia falhou o dinheiro para o transporte. “E preocupo-me quase a triplicar com família numerosas, porque se com um é como é, imagina com mais três ou quatro.”

E, de repente, Mauro viu-se obrigado a mudar o seu mote de ação. Já não era com a bola de futebol que a mudança acontecia, era com cabazes.

As crianças do bairro seguem Mauro para todo o lado. Foto: Catarina Reis

À porta da associação, viram-se rostos familiares, mas também caras novas. No ano passado, a Câmara Municipal de Lisboa, em parceria com a Fundação Aga Khan, delegou nas associações locais a responsabilidade de distribuírem pelos agregados mais necessitados os alimentos que a autarquia adquiriu às feiras e mercados fechados. “Servimos de meio facilitador. Até porque nem toda a gente tinha aquela vontade de ir a uma Junta [de freguesia] pedir ajuda, não estavam habituados a isso.” Dois dias por semana, lá se abriam as grades da associação para passar sacos de legumes e frutas pelas mãos de quem cá vinha. Algumas trémulas e ansiosas.

A iniciativa “foi ouro sobre azul”. A pobreza chegou primeiro do que a pandemia, mas só o vírus veio criar os apoios há muito necessários. “Porque naquela altura já havia muita gente desempregada. Numa família de quatro, estava um, numa altura normal, e depois ficou o casal.”

“Tens de perguntar, muitos não vão dizer que têm fome”

É o caso desta mulher, “Ana” (nome fictício), que entra numa das salas da associação para abordar Mauro. É uma mãe jovem, até há uns meses auxiliar numa escola privada nos arredores do bairro. O contrato precário de 591 euros líquidos que a vinculava à empresa não aguentou o embate da pandemia. “Já fui entregar o papel ao centro de emprego. Até estou a procurar coisas que dê para fazer sem ser a descontar. Ainda pensei fazer umas horas para lavar a louça, qualquer coisa. Assim, recebo algum dinheirinho.”

Mauro recorda como viu mudar os rostos mais serenos. “Aquelas feições mais alegres já não eram, havia alguma coisa ali que…” Adivinhou nos mais tímidos que fosse fome. “Tens de chegar e perguntar. Só assim é que alguns têm acesso aos apoios. De outra forma, nunca irão admitir o que passam.”

Passado um ano, as feiras e mercados já voltaram à sua dinâmica habitual e as sobras já não chegam a estas famílias, apesar de continuarem ativos outros mecanismos de apoio alimentar da autarquia e das várias juntas de freguesia.

Nas salas da associação, volta a falar-se de livros e futebol, quase como antes. Mas, agora, com olhos de falcão perante a pobreza que aqui existe, sem nunca esquecer que esta também é uma missão. Na “sala dos adultos”, uma das três da associação, onde os desenhos de figuras animadas penduradas no teto dão lugar a taças dos torneiros de futebol e uma copa onde guardar e aquecer comida, prepara-se o futuro. É aqui que se ajuda os graúdos a construir os seus currículos, para que a candidatura a um trabalho não seja apenas uma miragem, mais uma tentativa.

Um moçambicano que não quis voltar tornou-se o pai do bairro

Bruno, 27 anos, um dos braços-direito de Mauro, está sentado nesta sala, de frente para um computador. Do outro lado, um recrutador faz-lhe perguntas. “Onde te vês a chegar na empresa?”. Bruno hesita, esquece o olhar no horizonte e olha para Mauro, que lhe faz sinais: com a mão esquerda e o indicador levantados, acena para cima. “O mais longe possível, o objetivo é sempre esse”, responde finalmente Bruno.

Nos últimos anos da sua vida, Mauro tem feito a sua própria vida profissional aqui. Para a comunidade com a qual trabalha. “Acabei por desistir um bocado da minha vida profissional, no sentido de não progredir. Eu trabalhava por turnos [no atendimento de lojas do aeroporto de Lisboa, onde agora está a part-time]. Quando entrava às 5:30 da manhã, saía às 14:00 e conseguia dar continuidade na associação, mas, no turno seguinte, eu fazia 13:30 e 22:00 e perdia tudo o que tinha feito nos outros dias. Chega a um ponto em que me pergunto: o que quero realmente da vida? Dinheiro não é tudo. Faz falta, mas há coisas que têm mais importância que o dinheiro.”

Nascido em Moçambique, onde ainda tem toda a família, à exceção dos primos, Mauro voou cedo para Portugal. Tinha quatro anos e veio acompanhar o pai numa cirurgia. Como irmão do meio, diz não entender, até hoje, porque foi ele quem veio. Mas vê agora este episódio como uma sorte. Porque a verdade é que este menino moçambicano podia ser apenas uma criança, mas negou como um adulto a viagem de regresso ao país que se debatia com uma guerra e onde a fome era o prato do dia.

Alguns dos amigos de Mauro, que colaboram com a associação, e crianças que a frequentam. Foto: Catarina Reis

Quis ficar com os avós, nas Galinheiras, num antigo bairro de barracas. Estava a conhecê-los pela primeira vez. Viveu com a avó até à mudança para o PER 11, numa das barracas mais seguras daquele bairro. Conta que umas eram de madeira, mas a deles já era feita de blocos.

Atirou-se cedo ao mercado de trabalho. Tinha 14 anos. “Era natural. No bairro, até uma certa idade, sim, brincas. Mas, a partir de uma determinada altura, os pais perguntam: ‘estás a fazer o quê’?” Arregaçou as mangas e estendeu os braços ao sol enquanto carregava cimento e corria andaimes à volta do edifício que se viria a tornar no Centro Comercial Colombo. Depois, passou por uma pizzaria e, só mais tarde, pelo aeroporto de Lisboa.

Mas sem nunca descurar os estudos. Terminado o 12.º ano, enveredou por um curso profissional de multimédia e, no final, seguiu para a faculdade, para o curso de Relações Internacionais. Ficou-se pelo 2.º ano. “Entretanto, veio o filho e tive de priorizar as coisas.”

Antes de saberem que Mauro tinha o 12.º ano, conta que os jovens da associação competiam entre eles: “Ah, eu vou ser o primeiro a terminar o 9.º ano”. Foi deixando o seu percurso escolar em segredo, sem vaidade nele, reconhecendo-lhe apenas o propósito de um dia chegar a algum lugar melhor. Depois, soube-se que tinha terminado toda a escolaridade agora obrigatória. E, quando se tornou público até onde tinha realmente chegado, a competição passou a ser outra: “Eu vou ser o primeiro a acabar a faculdade”. “Não pode ser só garganta”, espicaça sempre em resposta.

Mauro desistiu de progredir no emprego para poder dedicar-se mais à associação. Foto: Catarina Reis

Com o seu próprio exemplo, Mauro já está a mudar o que há anos parecia perpetuar-se no bairro. “Aqui no bairro, diz-se que tens de estudar para ser alguém. Mas, entre ser alguém e trabalhar, preferem que tu trabalhes.” E aproveita para desmistificar rótulos: “Muitas vezes, dizem que estás no bairro e não tens capacidade, mas isso depende de ti como pessoa, da tua base familiar.” A ele sobrou vontade e o apoio da avó.

Sentir-se um herói do bairro soa-lhe a algo longínquo. Mauro diz que é “mais como um pai” para as crianças que acompanha há anos. “Oficialmente, no registo, só tenho um filho. Depois, há os outros todos…”

Ao final de uma década, confessa que ainda é difícil ter a perceção do impacto que está a deixar na comunidade. Vai-lhe chegando na rua, sem aviso. “Havia uma senhora que, quando estamos a treinar ali, veio à rua e perguntou: ‘Você é o Mauro?’. ‘Sim’. ‘Eu queria dar-lhe os parabéns, porque você é a única pessoa que consegue ter os miúdos todos aqui, de várias etnias, e pô-los a fazer atividades. Porque, senão, eles estão aí a partir vidros, isto e aquilo’.”

Outra mostrou-lhe como o que faz diariamente muda até a rotina dos animais dentro de algumas casas. “Uma senhora disse: ‘Vocês hoje não vão treinar?’. ‘Não, porquê’. ‘O meu periquito, cada vez que vocês estão a treinar, corre. Vocês corriam de um lado para o outro, o periquito também corria.” O pássaro lá aguarda pelo recomeço.


Capítulo II

Onde moram as famílias de 20 pontos

A associação Passa Sabi abriu recentemente uma mercearia social. Foto: Catarina Reis

“Então, são 20 pontos.”

No rés-do-chão de um dos lotes do bairro do Rego, Andreia Gonçalves, 37 anos, abre o saco de compras que trazia dobrado debaixo do braço e escolhe de duas prateleiras o que levar. Não estamos num supermercado. Esta é uma mercearia social, na freguesia das Avenidas Novas, feita à base de doações para famílias às quais nem os apoios alimentares municipais bastam.

“Polpa de tomate, um ponto”, diz Andreia, vergada sobre as prateleiras inferiores.

Ariana Moreira, 21 anos, regista no caderno onde vai fazendo contas aos produtos que Andreia põe no saco. A maioria deles vale um ponto, tirando exceções como garrafas de azeite e meia dúzia de pacotes de leite, que valem três. A cada família, são atribuídos pontos, com base no número de pessoas do agregado e no contexto em que se encontram – um casal em que ambos estão desempregados significa que o donativo terá de ser maior. Se tiverem a preocupação de reciclar o que consomem e ali entregarem as embalagens de plástico ou vidro, ganham números na conta.

É o primeiro dia em que a mercearia criada pela associação Passa Sabi está aberta e Andreia fica a saber que tem direito a 20 pontos, o valor máximo de doação. O seu contexto familiar justifica.

Andreia e o marido têm quatro filhos, mas apenas ela está a conseguir levar dinheiro para casa. Foto: Catarina Reis

“As coisas não estão muito famosas.”. Andreia traduz: 500 euros líquidos para uma família com quatro filhos menores de idade e um pai acamado.

A incerteza, e a agonia que a acompanha, são presença recorrente lá por casa.

Andreia é funcionária de limpeza no Hospital de Santa Maria, o marido é taxista. Só ela está a conseguir angariar dinheiro para a família. “O meu marido não está a ganhar nada. Traz, em média, cinco ou seis euros por dia. Às vezes, dá para o pão.” Façamos as contas: com uma renda de dez euros no “bairro fantasma” – como lhe chamam, a uns metros dali -, uma conta de luz de 50 e de gás de 90, fora as duas bilhas (25 euros cada), resta a esta família uns míseros 325 euros. O valor com o qual terão de abarcar as refeições para sete bocas e todos os custos adicionais – transportes para a escola, para o trabalho e os cuidados com o pai acamado.

Há um ano que as contas mensais de Andreia são feitas a pensar no que vai falhar. Porque algo terá de falhar. Diz que já não sabe o que é não ter de abdicar: de uma renda, que fica em dívida para quando der; ou de um pequeno-almoço que às vezes substitui almoço, lanche e jantar. “Hoje um prato de sopa, amanhã um bocado de carne. E por aí vamos levando a vida. Depois, quando há estas ajudas, a gente aceita sempre, até que se consiga estabelecer a nossa vida como tínhamos antigamente e deixamos de vir cá pedir o que quer que seja.”

O telefone tinha tocado na semana anterior.

Do outro lado, Andreia ouviu a notícia: a associação Passa Sabi, criada no bairro do Rego, a quem já tinha recorrido no ano passado para apoio alimentar, ia estrear uma mercearia social e a sua família poderia usufruir do que lá tivessem.

A mercearia social funciona por pontos – a doação é tanto maior quanto mais debilitado foi o contexto do agregado familiar. Foto: Catarina Reis

Do bairro para a cidade

Andreia finaliza o saco com uma embalagem de cereais de chocolate.

“Já está.”

Ariana diz que não, que ainda sobram pontos. “Com isto, já poupo dez euros à vontade. Há pouquinho e tenho de deixar para os outros”, apressa-se a responder. E não o diz sem razão: há outros. Para já, são sete agregados ao todo a serem cobertos por esta mercearia, que depende exclusivamente de doações. A média de elementos das famílias que cobre é três, mas há outras como a de Andreia, numerosas.

Foto: Facebook Associação Passa Sabi

Ao lado de Ariana, de caneta sobre o papel, concentrada em quem chega, está Muxu (Eugénio Silva), de 37 anos. O fundador da Passa Sabi não precisa de exigir grande esforço à memória para lembrar que estas prateleiras são apenas uma extensão do trabalho que desenvolvem há mais de um ano. Primeiro, no bairro, de onde não esperavam sair.

Num bairro como este, à semelhança de outros em Lisboa, a fome que a pandemia fez assentar por aqui não deixou ninguém surpreso. Os telhados já eram de vidro, a pobreza há muito que era assunto. Mesmo que, desde 2001, estivesse escondido por trás das paredes de betão que ali se edificou no plano de realojamento municipal, de certa forma a esconder o que as barracas antes punham em montra.

O que os bulldozers não conseguiram derrubar foi isto mesmo, a pobreza.

Muxu estava lá quando as máquinas avançaram e a família mudou-se para o novo bairro, do outro lado da estrada. Chegou com quatro anos a Portugal, vindo de Angola, e viveu num daqueles barracões. “Não sei se viste um prédio azul no final da reta. Morávamos ali.” Num sítio que já é outro e dá agora lugar a um arranha-céus. Ariana tinha apenas dois anos, por isso, tudo o que tem é a memória do que lhe contam. O seu bairro é este, o de betão, ao qual sempre volta. “Fui morar para a Serra da Luz, já voltei. Fui morar sozinha, já voltei. Nada é a mesma coisa que aqui. Conhecem-me desde sempre, toda a gente conhece a minha família, é outro ambiente. Aqui, às tantas uma pessoa já não tem nome, é a Ariana da Lily (avó).”

Ariana e Muxu recebiam as pessoas na mercearia. Foto: Catarina Reis

Por ali terem crescido, sabem que as estatísticas não mentem quando apontam para taxas de desemprego perto dos 50% nos bairros sociais de Lisboa, segundo um diagnóstico social da cidade elaborado pela Rede Social de Lisboa em 2015. O documento admitia ainda que os vínculos de trabalho precários poderiam inflacionar o resultado. Já em 2011, altura em que foram conhecidos os dados do último Censos, havia 12,1% da população residente nos bairros municipais a necessitar de viver com Rendimento Social de Inserção (RSI).

Números que fazem estremecer e acentuam-se com o abalo da atual crise sanitária. Por isso, a associação soube logo que teria de entrar em ação e procurar servir de apoio à fome que algumas famílias iriam sentir. Tal como aconteceu no bairro PER 11, serviram de ponte entre a população e os alimentos que a Câmara Municipal fez chegar através das feiras e mercados fechados. “Quisemos dar continuidade. Quando acabou esse apoio, entramos nós”, explica Muxu.

O bairro do Rego é um dos bairros sociais no centro da cidade, onde as dificuldades financeiras das famílias estão visíveis. Foto: Catarina Reis

E embora o bairro onde ele e Ariana cresceram seja um perfeito reflexo deste retrato municipal, falamos de um problema que diz respeito a toda esta franja social de Lisboa a viver em bairros municipais. Por isso, a associação dobrou esforços, saiu do bairro e dedicou-se ao distrito. Envolvidos numa rede de associações locais que estavam em ação, chegaram até a ir a Alverca, a cerca de 30 quilómetros de Lisboa. Responderam a tantos pedidos quanto puderam. “Cerca de 50 famílias, dentro e fora do bairro.”

Se provas fossem necessárias de como o que iniciaram no bairro do Rego em 2014 faz a diferença na comunidade, esgotaram-se imediatamente nos primeiros dias de pandemia. Diz Ariana que “se os bairros se organizassem, era tudo mais fácil” de resolver. E Muxu acrescenta: “Não podemos estar sempre a depender destas entidades. Além de muita burocracia, vamos ficar presos, se não fizermos o que querem.”

Uma segunda escola, para provar que tudo é possível

A Passa Sabi está longe de ser hoje aquilo para que nasceu há sete anos. “Um espaço.” Apenas e só um espaço. Tudo o que os mais jovens precisavam, para trocarem pelas ruas, onde o convívio a determinadas horas abria discussões com os mais velhos do bairro. “Nós éramos moradores, mas éramos ditos problemáticos. Ficávamos na rua até tarde, a jogar cartas ou a falar. E as pessoas iam trabalhar no dia seguinte e havia este conflito. O barulho… Porque nós jovens não tínhamos um espaço onde parar.”

A ligação com o Instituto Padre António Vieira (IPAV), com morada numa loja no bairro, acabou por motivar a abertura de um espaço onde os jovens pudessem estar e viabilizar determinadas atividades. “Precisávamos de 300 euros” para abrir enquanto associação e aceder a este espaço. A união fez a força: “Começámos a reunir a comunidade, a bater porta a porta, a explicar a ideia e cada pessoa foi dando cinco euros. Abrimos em outubro de 2014.”

O nome nasce do crioulo, como homenagem à origem de muitos que aqui habitam. Passa Sabi significa “estar bem”. E foi apenas com este propósito que nasceu a associação: harmonizar o barulho que se fazia nas ruas e canalizá-lo, para o bem de todos.

Desde há três anos, são financiados pelo programa BIP/ZIP, porque na verdade tornaram-se muito mais do que isto a que se propunham no início. Rapidamente transforam-se num movimento do bairro, onde jovens dedicavam os dias à limpeza dos espaços, a ajudar os mais idosos e até a levar as crianças a passear por Lisboa.

Até perceberem que o mal se corta pela raiz. E o bom também começa nela.

Transformaram uma sala, montaram mesas e cadeiras e chamaram as crianças do bairro. “Por muito que se apoie a comunidade, o significativo que resulta disso não é tanto como apostarmos as cartas todas em crianças que só não alcançam tudo porque não tiveram a mesma oportunidade que outros. Começamos a perceber que, em Portugal, são necessárias cinco gerações para se quebrar a pobreza e a única forma de este elevador social funcionar é através da educação. Só assim é que se consegue, de uma geração para a outra, quebrar este ciclo vicioso de pobreza.” É Joana Mouta (na foto, em baixo), uma das atuais responsáveis pela associação, quem o diz.

Ao contrário de Muxu e Ariana, não nasceu cá, mas encontrou aqui a incubadora dos seus sonhos: trabalhar com direitos humanos, área na qual se formou, no terreno, e cravar uma marca numa comunidade.

Até há pouco tempo, antes da pandemia, habituaram-se a ser o abrigo de dezenas de crianças que não encontravam na escola e nos ATL o suficiente para singrar nos estudos.

“A nossa primeira loja era aqui. Vou mostrar. Estão aqui fotos.” Muxu guia-nos pela sala ao lado daquela de onde neste dia saíam sacos de alimentos para as famílias carenciadas do bairro. “Imagine 30 crianças aqui dentro.” – as restrições sanitárias atuais suportam a estranheza.

“Começamos a reparar que, quando saem do ATL, ao final da tarde, eles ficavam na rua. E quando chegavam até não tinham o trabalho feito ou estavam com dúvidas… Percebemos: algo se passa. Então, vamos lá montar aqui um apoio personalizado. Cada voluntário com um miúdo. É assim que nós trabalhamos, consoante a necessidade.”

Os resultados merecem paciência até virem à tona, mas já há vitórias das quais se envaidecem. “Tenho pessoas que tinham negativa a inglês e tiveram 75%”, conta Ariana. E Muxu acrescenta outro peso na equação: “Alguns eram dos casos mais problemáticos aqui na associação. Mesmo na escola não se davam muito bem com professores.”

Percebe-se que eufemiza. O que Ariana explica com a falta de tempo que os professores têm para dedicar a tantas turmas e crianças. E Joana com o rótulo que elas ouvem desde sempre. “Não podemos achar que os miúdos que vivem aqui estão todos a beber uma água diferente que os faz menos aptos para a escola. Não é isso que se está a passar. Parece que são as crianças que nascem numa determinada zona geográfica que estão erradas e não é isso. É uma envolvência que tem de se ter em consideração. Temos aí miúdos que estão no 4.º e 5.º ano e não sabem ler. Não é aceitável. Como é que essa criança vai para um mundo normal, de cão, em que pessoas com mestrado nem arranjam trabalho? Uma criança que não sabe ler vai fazer o quê? Nem sequer consegue visionar que existem oportunidades.”

A associação abriu uma sala de estudo para ajudar as crianças do bairro a alcançar melhores resultados escolares. Agora, funcionam à distância. Foto: Catarina Reis

“Então, Catarina, como estás hoje?”, pergunta Ariana, virada para o ecrã de um tablet.

A pandemia confinou-lhes as crianças, mas não o trabalho a que se comprometeram fazer com elas. As aulas presenciais foram trocadas por aulas à distância. E, para os jovens mais velhos, que enfrentam alturas críticas da vida escolar ou já profissional, a associação desenvolveu um programa de mentoria, através do qual um sénior e mais experiente, padrinho da associação, pode orientá-los.

São bússolas em tempos de visão turba.


Capítulo III

O bairro que salvou quem nunca pedia ajuda

Diariamente, saem da Quinta do Lavrado 50 sacas de comida. Foto: Catarina Reis

Plim. Plim.

Carla Alves, 39 anos, leva uma unha à boca, agarra o telemóvel, desbloqueia-o, faz play e deixa o olhar perdido no vazio enquanto escuta. Do outro lado, em voz alta, num áudio enviado por WhatsApp, uma mulher avisa-a que há mais uma família a quem os rendimentos não estão a chegar para pôr comida na mesa. “Estão mesmo na merda.” Ouve-se também: “Teve uma bebé há dias”. Carla, que ainda rói a unha, promete ajudar. “Envia-me os dados.”

Quatro membros da associação, num dos andares da Quinta do Lavrado. Foto: Catarina Reis

A sala ainda está fria, de tão serena. É de manhã e o movimento pouco, por enquanto. Dentro de poucas horas, este rés-do-chão na Quinta do Lavrado fará ecoar música pelo bairro. O rádio ligado é o primeiro sinal de partida: pelo meio-dia, homens e mulheres arregaçam mangas e abrem a pista de corrida pela cidade. Na carrinha, dezenas de sacas com pão, sopa e pratos do dia quentes.

Estamos na associação Geração com Futuro, a partir de onde Carla e os amigos alimentam parte da cidade. Apesar de a Quinta do Lavrado ainda viver agarrada à memória da antiga Curraleira, de onde a maioria chegou e onde todos viviam em barracas, a pobreza ganhou outras moradas com a pandemia.

Os vínculos laborais precários de quem aqui mora anunciavam tempos difíceis. Mas grande parte das funções profissionais que estas pessoas exercem não foram suspensas. “Apesar de toda a gente achar que ia cair, houve muita gente a continuar a trabalhar. As pessoas da limpeza não pararam, portanto, os autocarros da manhã saíam cheios”, lembra Carla. O abalo foi mais sentido “em sítios que não era suposto”. Como que desafiando regras da gravidade. Fala de bairros de casas particulares, “pessoas que nunca pediram ajuda em lado nenhum, que tinham bons rendimentos”.

Carla Alves é a responsável pela Geração com Futuro. Foto: Catarina Reis

Eram pessoas que somavam mais ao final do mês do que muitos dos residentes no seu bairro, mas que, de repente, se viram com um ordenado incapaz de suportar rendas altas, faturas de água e luz, comida, o estilo de vida que levavam. “As pessoas que já estão em dificuldades conseguem organizar-se de outra maneira. Ficam sem trabalho, então, ‘calma: não vamos gastar, vamos apertar o cinto desde já’. As outras pessoas, e é legítimo, se fazem a vida com mil euros de ordenado, quando oferecem 500… o que é 500? Vais pagar as tuas coisas e ficas sem dinheiro. Vai faltar em algum lado.”

Ao final de mais de um ano de pandemia, ainda não há sábados ou domingos. Se chega um pedido à associação, a equipa põe pés ao caminho sem olhar ao calendário. “A fome não espera.”

Meio-dia.

Let’s groove, get you to move“, canta o rádio. E aqui obedece-se ao hit dos anos 80. De repente, as mesas estão cobertas por cuvetes de comida quente, cozinhada em escolas, e pão. Três pessoas enchem saco a saco, o necessário para cobrir o agregado. Depois, ‘Belinha’, residente no bairro e membro da associação, agarra em cada um e agrafa-lhes um nome. Aqui, a solidariedade não se faz anónima.

Desta sala, partem diariamente cerca de 50 sacos, o equivalente a 50 famílias.

No ano passado, a ajuda chegou a 120. Porque também daqui se fez escoar o que vinha de feiras e mercados fechados, para quem mais necessitava. O que vinha “dava para 60”. Frutas e legumes. Mas Carla conta que tornavam aquilo divisível por 120. “Como era semanal, era escusado estar a dar tudo a só uma família. Havia outras que iam ficar sem nada.”

É hábito de quem cá vive dizer que mora nas costas da cidade – o ponto de Lisboa para onde ninguém olha, apagado pela imagem de um cemitério, lá no alto, e uma ETAR a céu aberto. “Geograficamente, os cemitérios são as pontas da cidade e nós estamos por trás . Chegando à [praça] Paiva Couceiro, era óbvio que terminava ali a cidade.” Era. Aos poucos, isso foi mudando. Foi com isso em mente que nasceu a associação Geração com Futuro.

O fim da curraleira: do campo para a grande cidade

O chão que agora pisamos é apenas um resquício do que sobrou da antiga Curraleira, onde Carla nasceu e cresceu. A memória é a preto e branco, porque já não sobram muitos para a recordar por inteiro. Foi em 2001 que as barracas desapareceram da paisagem e os seus moradores foram espalhados por diferentes bairros sociais da cidade. Um deles é este, onde Carla vive e a associação foi formada. Antes, chamavam ao terreno, onde agora se elevam prédios altos e amarelos, a “quinta do Abel”. “Era para onde íamos brincar, por isso, não era território completamente desconhecido.”

O nome mudou com a arquitetura. Sem barracas, isto não era a Curraleira. Agora seria a Quinta do Lavrado.

Carla tinha 18 anos.

“Era uma coisa que nós ouvíamos há vários anos consecutivos, que ia ser destruído. Claro que com tantos anos seguidos da coisa, e sem nunca acontecer, quando começa a acontecer as expectativas são sempre elevadíssimas. Mas, principalmente para os mais novos, nós não tínhamos bem a perceção daquilo que ia acontecer e da forma que ia acontecer.”

Os mais velhos alertavam: com as barracas, ia-se a alma da comunidade. “E foi. Hoje, passados estes anos e como adultos, conseguimos perceber o que perdemos ou aquilo que foi feito de errado. Ganhamos condições sanitárias. Embora houvesse muitas casas de tijolo, com casa de banho, água de cano – já não era precisa aquela transação de água que fazíamos com frequência com o jarros e canteiros -, em termos de bicharia era um problema.” E a droga também, presença habitual no bairro, como era conhecido. “Mas, depois, perdemos uma série de coisas, que é o viver quase no campo, com uma grande família. Passamos para a cidade.”

Foi perante este mote que, chegados à Quinta do Lavrado, um grupo de jovens, entre os quais Carla, decidiram criar uma associação de defesa dos moradores. Primeiro, “para ajudar a promover os negócios das pessoas” que os tinham perdido com o fim do antigo bairro, “e a motivar algumas para se lançarem no mercado”.

Mas depois, eles, jovens, cresceram, tiveram filhos e estagnaram a associação. Seria reativada anos mais tarde, pelas mesmas mãos, agora com uma consciência mais plena do que precisava de ser transformado na Quinta do Lavrado. “Depois, já temos os filhos e começamos a ver as coisas de outra forma. Percebemos que este é um sítio que não tem comércio e não tínhamos autocarros [entretanto, chegou o 730], não tínhamos como sair daqui. A partir das 17:00, então, era um bairro morto. Todas as atividades que fizéssemos com os miúdos, possíveis e imaginárias, tinham de ser fora.”

O Lavrado era um vazio à espera de construção.

Carla e a equipa da Geração com Futuro propuseram-se a reavivar os valores de comunidade que estavam adormecidos desde que a Curraleira desapareceu. “Nós começamos a perceber que, se não houvesse uma frente, ia continuar a acontecer as coisas que nós não gostamos.” Como a construção de um terreno de alta tensão da REN ali mesmo ao lado ou de um tanque de tratamento de águas a céu aberto que obriga a viver de janelas fechadas no Verão. Mas, sobretudo, as crianças fechadas em casa todo o ano.

À mesa, a equipa discute os próximos passos da associação. Foto: Catarina Reis

O sucesso desta missão mede-se pelo momento em que as luzes da loja da associação se acendem. “É uma festa”, conta Carla, a quem os pequenos do bairro chamam “tia”.

Pedidos de ajuda em aviões de papel

A associação abriu-lhes portas para terem um espaço onde pudessem brincar e estudar, com apoio e em segurança. Assim que a pandemia rompeu, não foi diferente. As portas fecharam-se, mas abriram-se as janelas.

“Começamos a criar desafios, tendo em conta que eles passam muito tempo no computador. O primeiro foi: ‘Nós estamos bem, mas precisamos de saber como é que tu estás. Portanto, escreve ou desenha, faz um avião de papel, que às tantas horas do dia tal vamos recolhê-los.” No dia e hora combinados, os céus do Lavrado encheram-se de papel em loops desajeitados. Caíam como neve. “Eram eles todos à janela… fiu… fiu… a mandar aviões”. Dentro de cada um, mensagens que davam conta do que estavam a sentir. “Estou farto de estar em casa, tenho saudades de ir para a rua brincar”. “Estou farta de máscaras e de álcool”. Ou desenhos ilustrativos do estado de espírito, de quem não sabia escrever.

Da pandemia saem de missão reforçada: já não é só sobre o espírito de bairro que trabalham, é pela sobrevivência de toda a cidade.

Nota final: Esta reportagem partiu de uma ideia do nosso consultor editorial António Brito Guterres, a quem agradecemos o apoio.

Quer ajudar? Conhece mais histórias de bairros e associações que tiveram impacto na sua comunidade durante esta pandemia? Conte-nos:


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Entre na conversa

4 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *