Não tivéssemos imagem e o som colocar-nos-ia numa qualquer oficina de carros nos meandros da cidade e não numa cozinha escolar. Imagine-se: são nove da manhã, um rádio antigo escuro em cima de uma bancada toca músicas aleatoriamente, abafadas pelo ruído sibilante do vapor – tão denso, que quase nos turva a vista. Não dá para decifrar se é uma máquina de mecânica de carros ou de culinária.

No lugar de macacos hidráulicos temos altas bancadas cinzentas de inox, as rebarbadoras são panelas carregadas por braços com força e os torquímetros as colheres que remexem uma sopa de espinafres ditada pela ementa do dia. Três cozinheiras e cerca de dez ajudantes de cozinha, rede na cabeça, bata branca vestida e máscara no rosto são os mecânicos neste cenário. Estamos na cozinha da Escola Básica Galinheiras, na freguesia de Santa Clara.

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Coloque os auscultadores e entre brevemente no ambiente da cozinha da EB1 Galinheiras

A única assunção mecânica possível sobre quem aqui trabalha é que, desde março passado, no arranque da pandemia de covid-19, se tornaram o combustível deste bairro. Daqui, saem cerca de 500 refeições diárias para crianças de famílias carenciadas, ou seja, do escalão A e B da Ação Social Escolar. Esta escola é das que mais tem contribuído para que a suspensão das atividades letivas presenciais não signifique a fome daqueles que dependiam de uma refeição no refeitório. Ali, confecionam almoços e preparam lanches que são distribuídos para várias outras escolas – a gestão está a cargo da empresa Gertal.

Por isso, nesta cozinha, o caos está instalado. “Neste momento, estamos a passar [ralar] a sopa, para começarmos a embalar.” Telma Mesquita, 42, coordena os trabalhos, com uma folha na mão: “eu depois explico-lhes que têm de fazer 306 pequenas e 175 grandes, porque temos crianças do secundário a comer e uma cuvete das pequenas nem sempre dá para os do secundário”, jovens de mais sustento, diz, a apontar sobre as letras escritas à mão.

Os suspiros com que intercala frases, como se fossem vírgulas, fazem adivinhar que o dia já vai longo. Arranca todos os dias às 7:30 da manhã, hora em que começam a cozer ou assar o que a ementa do dia pedir. “Se virmos que temos mais refeições, vimos mais cedo, porque temos um timing (11:00), para que as carrinhas saiam a tempo do meio-dia”, altura em que as refeições são distribuídas aos pais ou aos próprios alunos.

Horários são assunto de peso nesta cozinha, que neste segundo confinamento, apesar do caos, até vive tempos mais serenos. No primeiro, de março a maio do ano passado, estas cozinheiras chegaram a alimentar duas mil bocas por dia. Foi daqui que saíram refeições para as famílias carenciadas em toda a cidade. Esse serviço, atualmente, está a ser assegurado pelas diversas cantinas das Instituições Particulares de Solidariedade Social.

Nessa altura, uma dúzia de cozinheiras e ajudantes chegou a dormir no refeitório da escola. “Era isso ou não conseguiríamos dar conta do recado”. Di-lo Fátima Cardoso, 52 anos, 20 destes como cozinheira. Na altura da Páscoa, de sexta-feira Santa para sábado seguinte, por exemplo, dormiram neste mesmo sítio, “para terem as refeições prontas no sábado – porque, nessa altura, deram um reforço de alimentação”. Não ganharam mais por isso. Não ganharam mais do que o pouco (perto do ordenado mínimo) que já ganham. Mas ali já não era só um trabalho que estava em causa. Era uma missão.

Nuno Ventura, coordenador da EB1 Galinheiras, chama a memória, para sacudir a normalidade do que conta. “Surreal” é a palavra que usa.

Fátima Cardoso, 52 anos. É cozinheira há cerca de 20 anos. Foto: Orlando Almeida

A escola-armazém

Fátima fala de um “trabalho de doidos”, dividido entre panelas de vários quilos e debaixo do fumegar constante de tachos, que as faz sentirem-se sempre num dia de Verão – mesmo que o Inverno esteja agreste lá fora.

“Esta panela de sopa estava cheia de carne, depois, tínhamos de encher outra vez. Quando era batatas, era para esquecer [tal a dificuldade de cozedura]. E, se íamos embora, tínhamos de deixar tudo adiantado para o outro dia. Só quem cá esteve é que sabe dar valor, não é verdade?” Lança para o ar, à espera de confirmação dos restantes presentes. A resposta é um encolher de ombros, como se reclamasse o que era óbvio entre todos.

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Ouça a cozinheira Fátima e o coordenador da escola, Nuno Ventura, sobre os desafios dos sacrifícios que esta equipa fez para alimentar duas mil pessoas, no primeiro confinamento geral

“A gente, quando se sentava, parecia que via Deus. Às vezes, nem tínhamos tempo para comer. Mas, graças a Deus, conseguimos. E, por vezes, quando pediam mais [comida], nós fazíamos mais”, lembra Fátima, que por esta altura já raspava do fundo de dois pequenos tanques de inox – um de massa e outro com carne e legumes – o que cabia em cada embalagem de alumínio de take-away. Cada aluno tem direito ao prato do dia, uma sopa e um lanche (leite, fruta e uma sandes).

Foto: (antes/Março 2020) Nuno Ventura; (depois/Fevereiro 2021) Orlando Almeida

Este sítio já não era uma escola, tornou-se um armazém. “Era caixas, era leite, todos os alimentos vinham”, recorda o coordenador escolar. Enlatados acondicionados em películas de plástico e deixados no corredor onde normalmente passariam alunos para irem para as suas aulas. Ou “onde os do Jardim de Infância estão quando está a chover, no seu período de almoço”. Crianças em andamento trocadas por uma loja de conveniência embalada. “Porque também não era só a Junta de Freguesia de Santa Clara que vinha aqui buscar, eram outras juntas, para fazer a distribuição para as suas famílias carenciadas.”

No recreio, agora sem crianças, a manhã terminava com “uma fila de carrinhas”, prontas para carregar as refeições e distribuir.

Sem elas, “haveria famílias sem uma refeição quente”

Passado quase um ano desde o cenário de uma escola-armazém, o volume de trabalho reduziu drasticamente, mas há hábitos que não mudam. “Vocês já tomaram o pequeno-almoço?”, ecoa na cozinha. Já passava das 11:00 da manhã. “Não, ainda nem sequer comemos, não!” “Aqui só se come quando o comer todo sair. A gente é assim” – a missão, sempre a missão.

“Vêm aí, vêm aí.” Na cozinha, anuncia-se a chegada de pessoas à fila para a recolha de refeições. Há uma calmaria anunciada na descontração corporal das cozinheiras: encostadas às bancadas, em conversa numa mesa da cantina ou a dar largas ao instinto musical se a música que toca na rádio até agrada. Já só se pensa no dia seguinte.

Todos têm direito ao prato do dia, sopa e lanche
Foto: Orlando Almeida

O testemunho foi passado a outros. Na entrada da escola, há preparada uma mesa de apoio, onde se sentam duas mulheres, de caneta na mão, prontas para riscar o nome que esperam que venha levantar a sua refeição. Uma outra pessoa encarrega-se de fazer chegar em mãos o que há preparado para cada agregado. “É o quê? Duas [embalagens] pequenas e uma grande?”

O pequeno Amaria, 13 anos, chega envergonhado. Enquanto a porta da escola não abria, escondeu-se atrás das grades, no exterior, atento a qualquer movimento, de mãos recolhidas nos bolsos da camisola e a nuca coberta por um capuz. “Às vezes sou eu, outras vezes é o meu irmão”, mais velho. Justifica a postura assim, com a falta de hábito em aqui estar. Até o local lhe é estranho. Não pertence à EB1 Galinheiras e sim à Escola D. José I, mas este é o ponto de recolha para o levantamento das refeições.

Mais adiantada na fila, Nicole, 17 anos, já parece conhecer os cantos à casa, embora também ela seja alheia a este mesmo ambiente escolar. “É para os meus primos. A mãe deles está a trabalhar, não pode vir buscar o almoço e eu venho sempre.” E, quase num sussurro, com os olhos postos no chão de alcatrão, admite: “temos dificuldades”.

São mais os alunos que vão buscar a sua própria refeição à escola, em vez de os pais
Foto: Orlando Almeida

Não é cenário estranho para Nuno Ventura, coordenador da escola, que nos traça uma malha escolar com muitas fragilidades económicas. “Temos várias culturas, temos aqui uma forte comunidade cigana, temos cada vez mais africana e, depois, os miúdos de bairro, que moram aqui nas redondezas da nossa escola. São famílias com bastantes carências económicas. Alguns dos pais trabalham, levantam-se muito cedo e chegam a casa só ao final do dia, fazem dois ou três tipos de trabalhos diferentes durante o dia, para conseguirem responder às necessidades que têm em casa.” Quando têm emprego.

Há cerca de cinco anos na coordenação, sente-se seguro para dizer que “se não fosse este apoio [prestado pelas escolas durante o confinamento], algumas famílias acabariam por não comer uma refeição quente”. “Uma sandes ou coisa do género” seria o máximo que iriam ingerir.

Em Lisboa, “a taxa de crianças com carências [escalão A e B] é acima dos 40%”, alerta o vereador da Câmara Municipal de Lisboa com o pelouro da Educação. Manuel Grilo diz ser “muito provável que, entre estes, haja situações limite de pobreza, crianças que, sem este apoio alimentar, dificilmente comeriam uma refeição completa”. São apenas sete as escolas da capital a cozinhar e a distribuição de refeições decorre em 55 pontos de recolha. Por isso, o que retratamos desta cozinha da EB1 Galinheiras representa várias outras, onde se trabalha para apoiar crianças mais desprotegidas.

Muitos destes casos já estavam sinalizados, antes da pandemia. Nuno Ventura conta que “há miúdos que vêm para a escola sem tomar o pequeno-almoço. Já sabemos quem são e ajudamos. Não distribuímos na sala, para os outros colegas não se aperceberem. Tentamos ao máximo resguardá-los e distribuímos cá em baixo. Já não há aquela situação de vergonha, de mostrar aquela vulnerabilidade e acabamos por dar logo o pequeno-almoço. E, mesmo ao final do dia, quando sobra leite e pão, acabamos por fazer um reforço, para eles levarem para casa.”

Nuno Ventura é coordenador da EB1 Galinheiras há cerca de cinco anos Foto: Orlando Almeida

A procura por refeições escolares, “cada vez maior”, tornou-se “expectável” face às dificuldades que já eram tangíveis durante todo o ano letivo. Mas “acabou por agravar algumas famílias deixarem de ter trabalho fixo”, sublinha. “Fizemos muitas sinalizações para a Junta de Freguesia e para a Santa Casa da Misericórdia, para se responder a determinadas necessidades. Além disso, temos, em colaboração com a Junta de Freguesia, algumas famílias a receber [a alimentação] em casa, por não terem possibilidade de se deslocarem até aqui à escola durante o dia. A Junta faz esta distribuição.”

Pedro Duarte tem quatro filhos e perdeu os rendimentos devido à pandemia
Foto: Orlando Almeida

Quem nunca precisou daquilo, mas agora ali marca presença diariamente às 12:00 é Pedro Duarte, 31 anos, pai de Luana, de oito anos, Diogo, de seis, Catarina, de 11, e da recém-nascida Mariana. Pedro é funcionário de um cinema fechado – está em layoff integral. Assume que a continuação deste apoio alimentar é o que lhe permite gerir as despesas mensais e até a logística diária. A mulher continua como funcionária de uma cadeia mundial de restaurantes de fast food. “Acabamos por nos preocupar só com o jantar. Parecendo que não, duplica o número de refeições que as nossas compras mensais suportam.”

Voltamos à cozinha. Telma já arrancou numa das carrinhas que faz a distribuição para outras escolas. Quem ficou, prepara o dia seguinte: numa das bancadas, descascam-se batatas a toda a velocidade; descarrega-se de um camião os alimentos frescos para a nova ementa.

O tema de conversa é o prato de eleição das crianças. A cozinheira Fátima Cardoso diz que é esparguete à bolonhesa, que concorre com os hambúrgueres e as almôndegas. Peixe, nem pensar. São os meninos delas, conhecem-nos bem. Mas a ementa é fixada pelo programa alimentar, por isso não podem escolher ir ao encontro das preferências dos alunos. Mas sabem bem o gozo que veem nos seus olhos quando dão com um destes pratos. Telma está de volta e recorda: “Até vêm ali à porta agradecer. Gritam: ‘obrigada, cozinheira! Fizeste a nossa comida’.”

Por “obra do destino”, diz Fátima, quando as escolas reabriram, depois do primeiro confinamento geral, as crianças foram recebidas com o prato favorito. “Eles todos felizes, coitadinhos.” Para o dia seguinte, o arroz com carne, que o carinho das suas mãos transforma num delicioso prato: “eu é que faço um refogado antes e fica assim”, diz, como quem sussurra um segredo que nunca deveria ultrapassar estas quatro paredes. Já só aguardam a cantina cheia novamente e “o alívio” que sentiram ao ver a escola “a parecer escola outra vez”.

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Catarina Reis 

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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4 Comentários

  1. Parabéns pelo seu trabalho . Um trabalho real e verdadeiramente humanitário

  2. Belíssimo artigo que nos mostra uma realidade desconhecida de muitos de nós.

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