Jonhathan Markish, o judeu que fundou a Prisma, em Lisboa. Foto de Rita Ansone

Jonathan Markish é uma estrela em Tel Aviv, não só porque foi um conhecido ator infantil, mas sobretudo porque descende de uma família que todos conhecem em Israel: é neto do poeta Peretz Markish. Sendo o avô um famoso judeu sefardita, ele cresceu a ouvir o pai, também escritor, a contar histórias sobre as raízes portuguesas da família. Em 2017 cumpriu um sonho antigo ao tornar-se legalmente português. Nunca mais deixou Lisboa.

“Gosto muito de Israel, mas a situação política é complicada”, diz. Foi aqui que imaginou a Prisma, um coletivo de artistas que acabou por transformar uma antiga loja de plantas num atelier, centro de exposições e residência artística, mesmo na rua da Palma. É aqui que é também o epicentro da sua empresa de ilustração – faz ilustração para guiões e trabalha para todo o mundo. Recentemente, o projeto People of Lisbon entrevistou-o para um vídeo.

Jonathan chega ao espaço em passo apressado e abre o portão: o estúdio fica junto à Rua da Palma, ao fundo de um largo privado rodeado por restaurantes, um hostel, lojas asiáticas e onde se ouve alemão, urdu, inglês e português com sotaque. Lisboa moderna, portanto. Em Arroios.

Uma antiga estufa

À entrada há pernas e pés e mãos e bustos desirmanados, outrora manequins inteiros, agora apenas despojos de uma loja que faliu. Também muitas flores e vasos, outra herança, desta vez de uma antiga loja de plantas que chegou a ocupar o espaço. Debruçado sobre o balcão do bar à entrada da associação aponta para um móvel ainda por montar, “foi doado por essa mulher que está na fotografia”, diz Jonathan, apontando para uma moldura. E ela ali está, com um bebé ao colo, num antigo retrato a preto e branco.

A Prisma vive de muito boa vontade, e foi por isso que quando um novo confinamento chegou e a associação ficou em risco, decidiram criar uma página de angariação de fundos. “Com tudo fechado e sem podermos mostrar e vender a nossa arte, não tínhamos como pagar a renda e as despesas”, conta. Explicavam quem são e pediam ajuda.

Pela Prisma já passaram pintores e fotógrafos, ilustradores e poetas, produtores e curadores de arte. A residências artísticas duram duas semanas e oferecem ao artista um espaço para trabalhar e dormir, materiais e companhia. Por agora, e por causa da pandemia, a associação tem sido um lugar mais solitário, mas que continua a fazer acontecer.

“Prisma é uma estufa para a geração atual de arte contemporânea. Situada no coração de Lisboa, a nossa associação sem fins lucrativos dedica-se a ajudar os criadores a aperfeiçoar o seu talento e a aplicar os seus dons para construir um futuro melhor para a sociedade em geral”, diz Jonathan.

Ajuda de todos

A campanha conseguiu reunir o valor necessário para pagar as despesas e renda do espaço até abril – um valor de cerca de dois mil euros – muitos donativos chegaram de outros artistas que entendem o quão difícil é conseguir sobreviver para quem está fora do círculo artístico mais conhecido.

Entretanto, souberam há dias, também tiveram apoio para a um projeto nascido antes do novo confinamento: a Prisma conseguiu um financiamento da Direção-Geral das Artes para o programa “Saúde Mental”. Por isso, em breve, haverá sessões de arte-terapia uma vez por mês.

O objetivo da associação é simples, mas crucial: não só atrair artistas não representados como o público que vive afastado da arte. Qualquer pessoa pode visitar e assistir ao que acontece na associação, todos os artistas podem mostrar o seu trabalho.

É só aparecer: o portão está aberto e Jonathan Markish deve estar mesmo a chegar. Esta nova Lisboa, feita de fios antigos e ideias inovadoras.


Paula Freitas Ferreira

Nasceu em Moçambique e viveu em muitas cidades até chegar a casa, Lisboa. Acredita que os lugares são impossíveis de contar sem ouvir as pessoas e as suas histórias. É jornalista desde o ano 2000 e passou pelas redações do 24horas, Sábado e Diário de Notícias. Colaborou com a Notícias Magazine e escreveu três livros.

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3 Comentários

  1. Ah ah ah…
    Oh meus senhores!!!! Então!? Tanto paleio sobre o 25 d’Abril, PIDE, censura e tal…
    Agora digam lá, confessem a vocês próprios: será que não um pide dentro de cada um de nós? Um daqueles censores, profundamente ignorantes, mas cheios de poder e convencimento para apagar o que os outros escrevem?
    Ah pois é….
    Atira-se a calinada para debaixo do tapete e finge-se que nada aconteceu. E vai-se continuando a pregar moral e a pintar lindos cenários e tal… Lisboa assim… Lisboa assado… moderna… multi isto e multi aquilo…
    Tsc tsc tsc… malandrecos! Ainda os hei de ver a apagar figuras em fotografias, qual censor estalinista!
    Sugestões pra um próximo artigo: “Isto de ser censor até que sabe bem!”
    Um abraço.
    Vão mantendo o lapiz azul a jeito, e bem afiado…

  2. Pereira – a política de comentários da Mensagem está explícita. Não publicamos todos. Não publicamos comentários ofensivos ou que façam considerações ofensivas. É isto.

  3. Porque não colocam à venda alguns dos trabalhos produzidos como forma de gerar receitas que ajudem a suportar a galeria ?

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