O que encontra neste artigo:

1 - A Baixa hoje
2 - Rua Áurea: 28 lojas encerradas
3 - Rua da Prata: 32 lojas encerradas
4 - O incêndio e a concorrência dos shoppings
5 - A lei das rendas
6 - Turismo: o bom/mau da fita?
7 - ZER pode ser a cura?
8 - Que Baixa deve ser a nossa?

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Nas paredes, retratos e diplomas de mérito de antigamente. Cor só nas bordas da moldura. Cheira a passado nesta loja de madeira maciça e vitrines de vidro, onde panos rendilhados fazem a montra. A ourivesaria Araújos faz da Baixa morada desde 1878. Mas histórias destas contam-se cada vez menos na rua que se diz do Ouro e onde todo o negócio, novo ou velho, parece fechar portas. Cheira a passado nesta rua também. Aliás, em toda a Baixa Pombalina.

Sónia nunca viu uma crise como esta. Foto: Rita Ansone

O Natal já se sente nas ruas, mas de forma diferente dos natais da infância de Sónia Faria, 46 anos. Não falhava um ano: vinha de Odivelas para o coração da cidade passear com a avó, ver as lojas e as montras e “tirar uma fotografia com a irmã junto ao Pai Natal que estava em frente à estação dos Restauradores”. Todos os anos. Sem exceção.

Esta zona da cidade tornou-se parte do seu dia a dia quando veio trabalhar ao balcão da histórica ourivesaria Araújos. Tinha 16 anos e, desde então, muito mudou.

“Desses tempos, só a ourivesaria Garsil, o oculista Jomil, a Sarmento e a farmácia é que se mantêm. Ainda me lembro da Loja das Meias, dos Porfírios – adorava lá ir comprar roupa. Havia mais portugueses, até porque ainda moravam várias pessoas na Baixa.” Casas que viraram hotéis ou restaurantes.

Sónia habituou-se às despedidas a vizinhos, mas a crise como a que hoje se sente na Rua do Ouro nunca viu. “Já não tenho vizinho da frente há dois anos”, conta. Foi a loja da Calçado Guimarães que fechou portas – embora mantenha outras duas na Rua Augusta.

A Araújos é uma das Lojas com História que resiste na Rua Áurea, na Baixa. Foto: Rita Ansone

Finais como este repetem-se na Baixa Pombalina – sobretudo nas ruas paralelas à Rua Augusta. Mais de 110 lojas fechadas é a contagem feita pela Associação de Dinamização da Baixa Pombalina. Aqui foi onde “a pandemia teve, talvez, um impacto mais violento”, diz o presidente, Vasco Mello.

Mas a crise já vinha de outros tempos. A pandemia parece ter sido apenas o pé no acelerador. Há quem diga que tudo começou com o Incêndio do Chiado, numa espécie de “ressaca comercial” – embora a zona do Chiado seja a que mais dinâmica mantém, atualmente. Há quem culpe a lei das rendas. E quem fale de falta de planeamento.

Hoje, há em Lisboa uma Baixa cheia de turistas, mas que se esvazia de lojas. Qual a causa deste vazio?

Palmilhámos as três principais ruas da Baixa: a Rua Augusta, a Rua do Ouro e a Rua da Prata. Todas elas com dinâmicas diferentes e, por isso, também com desfechos distintos à saída desta pandemia.

Rua do Ouro: 28 lojas encerradas

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Em menos de dez minutos a pé, nos seus cerca de 700 metros, a Rua do Ouro (ou Rua Áurea, como ditam as placas) tem fechados 28 espaços – dois deles quarteirões escondidos com tapume.

Não sabemos ao certo quanto deste vazio se deve à pandemia: não há dados oficiais e os antigos comerciantes preferem o silêncio.

Percorra a rua e veja os espaços fechados:

“Pagavam dez mil euros de renda,” diz Sónia, explicando a sentença da vizinha da frente, e que é a de tantos. Na Baixa, as rendas podem chegar aos 30 mil euros, garante a União de Associações do Comércio e Serviços (UACS). Não espantará, por isso, que dois anos depois do despejo, a loja em frente à ourivesaria Araújos ainda esteja apenas habitada por restos de jornais na montra.

Dois anúncios encontrados online ilustram bem esta realidade: 147 e 242 metros quadrados por 13 mil e 19 mil euros mensais, respetivamente. A propriedade dos edifícios desta zona, acredita Lourdes Fonseca, presidente da UACS, está dividida entre agências ou grupos internacionais, um ou outro português, e cada vez menos nas mãos de uma herança familiar. São estes que inflacionam o mercado – a funcionar sem qualquer regra nem qualquer limitação legal.

“Nós aguentamos porque a renda não é muito alta e porque a minha patroa é muito organizada,” diz Sónia, sem revelar o valor da sua renda. Lourdes Fonseca, da UACS, admite que ainda “há um ou outro espaço” com rendas na ordem dos 400 ou mil euros.

Não terá sido o caso do café Tábua, onde Sónia e a colega iam todos os dias beber a bica da manhã. Fechou na pandemia. “Percebemos logo que havia casas que não voltariam a abrir”, diz a funcionária da ourivesaria Araújos.

Vasco de Mello, presidente ADBP

Saídas do primeiro confinamento, as ruas receberam os comerciantes sem gente para comprar. Sónia abria portas às 10 horas, para fechar logo três horas depois. E o medo era maior do que a esperança. “Só havia mendigos na rua, pouco mais. Não estava segura com tanto silêncio. Sem ninguém, sem ouvir carros. E eu nunca tive medo de estar aqui.”

“Quando uma loja desaparece destas ruas, normalmente é para fechar. Principalmente as mais antigas. Não vão para outro lado”, diz Vasco Mello, presidente da Associação de Dinamização da Baixa Pombalina (ADBP).

A proteção local do programa de apoio da Câmara Municipal a muitos negócios da cidade “pode ter atrasado um pouco” a sentença de morte do comércio local, mas os apoios, diz, “foram muito reduzidos e não chegaram a toda a gente”. “As empresas mais novas, com valores e custos de produção muito elevados, nomeadamente rendas, não aguentaram. Depois, tínhamos as lojas mais velhas, com valores muito mais baixos de renda e com uma maior resistência. Falamos de centenas para milhares de euros.”

“A sangria foi amortizada pelo período de proteção de cinco anos nos contratos das Lojas com História”, lembra Lourdes Fonseca. Um período que termina neste ano civil, 2021, trazendo ainda mais incerteza ao futuro da Baixa.

Percorra a galeria abaixo e veja a Rua do Ouro de outros tempos:

Desde o início da pandemia, tudo é uma lição. Sónia confessa que, antes, dizia que “já não podia ver tantos estrangeiros”, mas, quando as fronteiras fecharam, percebeu “a falta que eles nos fazem”. Aqui, vêm sobretudo à procura de filigrana em prata dourada, “as peças típicas”. São “os únicos que entram”, porque raros são os transeuntes portugueses que vão além do olhar as montras, diz.

Por estas bandas, o turista é o ganha-pão. Diz a UACS que cerca de 70% do comércio da Baixa depende do turismo em mais de 90% para o seu negócio. E, na hora de escolher qual das três ruas que analisamos mais sofreu com a pandemia, a presidente Lourdes Fonseca não tem dúvidas: a Rua do Ouro.

Rua da Prata: 32 lojas encerradas

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A Rua da Prata “é um fenómeno bem mais antigo” e que poderá encontrar a causa para o seu esvaziamento numa questão meramente urbanística. “Há mais transeuntes na Rua Áurea do que a Rua da Prata, mais escondida, mais lateral”, diz Lurdes Fonseca.

Foi na vizinha Rua do Ouro que muito cedo se posicionaram Ministérios, escritórios, um setor terciário entretanto saído para outras moradas. Gente a trabalhar na Baixa era o que impulsionava uma concentração de pessoas. “Sendo muita da venda por impulso – a pessoa passa, vê, compra -, quanto mais pessoas passarem, mais irá vender-se”, explica a presidente da UACS.

Na Rua da Prata contabilizam-se 32 espaços encerrados – três deles também em quarteirões cobertos por tapumes. E há anúncios desesperados numa vitrine: “Inquilino furioooooso, prédio vendido” – estava escrito até há uns meses na loja Club Balão.

O que não espanta Maria, 53 anos, funcionária de bata verde atrás de uma das Lojas com História da Rua da Prata – a Drogaria Central. Há 18 anos que trabalha em drogarias na cidade, habituada a estar rodeada de cheiro a petróleo, champôs milagrosos e sabonetes que prometem remover acne. No fundo, “o que não existe nos supermercados”.

Por isso é que “eles”, os turistas, já chegam com a morada deste sítio nas notas do telemóvel. Os espanhóis à procura de “um regalito não sei para quem”, os chineses atrás da famosa pasta medicinal Couto. “Levam às dúzias.” Maria está preparada para as muitas línguas diferentes que aqui entram. Porque o turista é o seu maior cliente. “Portugueses só cá vêm para buscar produtos para os cabeleireiros.”

Maria mudou-se há cinco para esta loja, do mesmo patrão, depois da última ter sido vendida para dar lugar ao átrio de um hotel. “Estou habituada a ver isto acontecer”, diz.

Afinal de contas, “também já cá não mora ninguém, na rua”. “É uma rua com pouca vida. Eu gostava de ver pessoas a viverem novamente aqui. Não só hotéis nem prédios vazios onde agora dormem os sem-abrigo.”

Morar aqui, só por dias, nos hotéis que nascem nestas ruas. Um fenómeno recente, diz Lourdes Fonseca, da UACS, visto que “há dez anos, haver um hotel na Baixa era muito”. Em 2009, de acordo com imagens do Google Maps, a Rua da Prata não contabilizava um único.

O incêndio e a concorrência dos shoppings

Muito do que hoje se vive na Baixa vai buscar as suas raízes ao que se viveu naquele dia de 25 de Agosto de 1988, quando ardeu o coração de Lisboa. Foi um incêndio iniciado nos Armazéns do Chiado que, diz-se, veio a destruir nesta zona urbana uma área equivalente a oito campos de futebol.

Imagens do incêndios que começou nos armazéns. Foto: Arquivo CML

Já passaram 33 anos e a destruição que provocou ainda abala a Baixa de Lisboa. Tiago Quaresma, vice-presidente da AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal), gestor da Valor do Tempo (fundadora da Mensagem de Lisboa) e proprietário de várias marcas com presença nesta zona, acredita que foi este o dia que a virou do avesso para sempre.

Está na literatura da cidade e na memória dos mais antigos. O que era a Baixa de Lisboa antes daquele incêndio? “Durante décadas, tudo aquilo que não é hoje. Foi verdadeiramente a embaixada económica do país. O país apresentava-se na Baixa. As mercearias finas vendiam ali o que de melhor se fazia em Portugal. Era quase a elite do comércio português, fosse na área do artesanato, do vestuário, de bens alimentares, era na Baixa que tinham palco”, diz Tiago, também como atual morador nesta zona da cidade.

Apesar da força que exercia na cidade e no país, não foi imune à “ressaca” daquele incêndio. “É, desde logo, a destruição que deixa para trás e a coincidência disto com a febre dos centros comerciais – o grande problema que está sempre por oposição à Baixa”.

Em 1991, este era já o panorama da distribuição das grandes superfícies nas cidades de Lisboa (em baixo) e Porto – tendo o Porto maior predominância de hipermercados e Lisboa de centros comerciais. No mapa em baixo, percebemos como a distribuição da força comercial se começava a espalhar do centro para a periferia, à mesma velocidade com que abriam shoppings na capital.

Retirado do estudo “Baixa de Lisboa: Reconstruída para os portugueses – Reconstruída para os turistas” / Autor:   Nobre, Tânia Isabel – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – 2015
Retirado do estudo “Baixa de Lisboa: Reconstruída para os portugueses – Reconstruída para os turistas” / Autor:   Nobre, Tânia Isabel – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – 2015

Os centros comerciais são responsáveis por uma cultura “completamente antagónica num país como Portugal”, acusa Tiago Quaresma. “Com a qualidade que temos, com o sol que temos, com a história que temos nos centros históricos, é insano que de repente tivéssemos achado todos, durante tanto tempo, que era muito razoável enfiarmo-nos uma tarde inteira num centro comercial. Mas todos, de alguma maneira, comprámos este sonho, durante décadas. Pelo menos durante 25 anos, este foi o hábito vigente”.

E do ponto de vista da economia, diz, os centros comerciais “são perigosíssimos”, na medida em que isolam nas mãos “de nem sequer meia dúzia” todo o poder de evolução económica do país.

António Moura, empresário da Baixa desde há muito e estudioso do seu desenvolvimento, concorda e acrescenta que os shoppings constituíram e constituem um entrave ao progresso de marcas nacionais. “Os lojistas novos olhavam para as ruas e viam-nas envelhecidas e sem tráfego, então iam bater à porta dos shoppings, mas estes não queriam marcas ainda não conhecidas ou consolidadas.”

Numa analogia simples, “é como se tivéssemos aberto grandes torneiras para Portugal, mas com água internacional, ao passo que essa torneira se fechou às marcas nacionais”, explica António.

A lei das rendas e o descontrolo da especulação

Mas há outra razão para o que se tem vivido na Baixa, e que vem na ressaca do incêndio: a lei das rendas, que sofreram enormes transformações do ponto de vista jurídico, até estabilizar com a lei de arrendamento urbano de 2012, no governo de Passos Coelho e com António Costa à frente da Câmara Municipal de Lisboa. A chamada “lei Cristas”, em referência à ministra do CDS-PP que detinha a tutela.

Ao que se seguiu à primeira alteração à lei das rendas António Moura chama-lhe “efeito donut”. Soa estranho, mas a premissa é a seguinte: imagine que Lisboa é um donut e que o buraco desse bolo é o centro da cidade, que começou a ficar vazia quando as rendas foram congeladas, nos anos 1960 e 70.

Nessa altura, encontrávamos uma Baixa com senhorios sem dinheiro para investir na recuperação e manutenção dos prédios e sem acesso aos trespasses – uma figura desaparecida da lei. Os inquilinos mantiveram-se com rendas baratas, mas comércio a envelheceu, não se modernizou. O que criou a cristalização do centro da cidade. E o seu envelhecimento, do comércio à habitação.

Tiago Quaresma, vice-presidente da AHRESP

Já a parte de fora do donut, a periferia, cresceu no final dos anos 1970 e 80 à custa deste congelamento. Foi para aí que se mudaram os lisboetas – o comércio e os casais jovens, impulsionados por incentivos à compra de casas, novas e mais baratas.

A estatística ajuda-nos a perceber melhor o fenómeno. Se em 1991 havia 30948 habitantes na Baixa, dez anos depois a queda estava na ordem dos 30% – em 2001, 9196 habitantes. Assim lembra o estudo “A Baixa de Lisboa: construída para os portugueses – reconstruída para os turistas”.

Foi na periferia que se começaram a instalar as grandes superfícies comerciais, bem organizadas e com acessos simplificados de carro. O Cascais Shopping é disso o primeiro exemplo.

Nos anos 1990, outro movimento: rendas descongeladas e a vinda do turismo – num investimento forte do governo e da Câmara Municipal de Lisboa, que ali reconheceu o lucro. Terá sido o cocktail perfeito. “Com uma velocidade a que ninguém estava à espera, vimos a cidade a mudar”, diz António. Foi com a ajuda do olhar de fora que “começámos a perceber que o centro de uma cidade era lindo”, que quando recuperado “se tornava uma pérola.” Uma pérola parada no tempo, um centro histórico, para os turistas diferentes de tantos outros “centros estandardizados” pelos quais já passaram.

A rua da Prata, praticamente deserta. Foto: Rita Ansone

Depois, a Baixa conhece a nova lei das rendas de Cristas. Ditava, entre outras coisas, que, caso os contratos não tivessem duração determinada – como veio a saber-se ser a maioria -, os senhorios tinham liberdade para proceder ao despejo sob justificação de restauro do espaço.

O mercado liberalizou-se, lembra Lourdes Fonseca, da UACS, de uma forma brutal, com a nova lei a tirar as garantias de renovações de contrato. “Deixaram de existir aqueles contratos a cinco, seis ou dez anos. Não há nenhum negócio que se consiga rentabilizar no espaço de um ou dois anos, muito menos com encargos de renda nesta ordem.” Isso deu espaço às grandes cadeias, para as quais “é mais fácil de rentabilizar e até para as quais é uma questão de prestígio estar nesta zona”.

No boom turístico, com a conivência das companhias aéreas low-cost, o centro da cidade reagiu à procura, dá-se o início da especulação, e quem apareceu para se dizer “presente” foram “as lojas internacionais, a restauração e a hotelaria”.

O turismo, o bom ou mau da fita?

Se a “lei Cristas” veio “possibilitar a reabilitação urbana, também veio matar muito do arrendamento”, diz António Moura. A fase de transição foi curta e muito ficou por acautelar. Nomeadamente, o deixar de haver a figura de trespasse – quando o inquilino da loja recebe um determinado valor para passar a sua loja a outra gerência.

“Era assim que muitos conseguiam mais dinheiro do que a continuar a trabalhar. O que aconteceu é que muitas lojas tinham uma população muito envelhecida, com negócios muito antigos. Com 60 ou 70 anos, se lhes pagavam uma boa indemnização, e isso era possível porque Lisboa se tornou de facto uma cidade muito apetecível, muitos preferiram fechar portas, porque nem sequer lucravam isso no resto dos anos em que iriam trabalhar. É a lei da oferta e da procura a funcionar”, explica.

O turismo serviu de oxigénio a uma zona que, como vimos, estava há muito a ficar desertificada. “Vem, não só revitalizar, como trazer atenção para a Baixa”, garante Tiago Quaresma. E adianta como isso mudou o olhar português sobre a Baixa: “Quando essa atenção regressa, pessoas que não punham os pés na Baixa há anos, voltam, aquela classe média-alta que virou as costas à Baixa e que começa a perceber que, por mecanismo de sobrevivência, a Baixa se descaracterizou, aqui e ali. E, de repente, começam a reclamar a Baixa para os lisboetas. É assim que surge este movimento, esta ideia, de que o turismo veio estragar a Baixa – mas é muito mais complexo do que isso.”

Nesta discussão, não há vencedores. Mas ambas as partes continuam “longe do real problema”, acredita: a ausência de uma estratégia de desenvolvimento da Baixa.

Proibir carros pode ser a cura? O que diz a experiência

Quando analisamos o que se passa nas ruas do Ouro e da Prata o cenário contrasta com a Rua Augusta, a mais movimentada das três. Apesar de muita mudança de comércio – ainda agora se soube que a Casa Canadá, loja de marroquinaria com cem anos, vai fechar para ser a entrada de um novo hotel – esta rua central da Baixa conta apenas dois estabelecimentos fechados: um deles a velha Casa Frazão, que vendia tecidos, e está encerrada desde junho de 2018. Então, o que distingue esta rua? Os comerciantes guardam a resposta na ponta da língua: é a única exclusivamente pedonal.

João, funcionário de uma das lojas mais antigas aqui implantadas (que por sua vontade vamos manter anónima), não tem dúvidas de que estar numa rua com estas características “ajuda a sobreviver.” E frisa “sobreviver”, porque “o facto de ter muitas pessoas a passar não significa propriamente que haja negócio”. A pandemia, sobretudo, deixou a sua marca, no número de turistas que por aqui passam (ainda aquém do antigamente) e nos bolsos de todos, estrangeiros e portugueses.

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Na rua ao lado, Sónia Faria, inveja-o. “Cortarem o trânsito aqui da rua era a melhor coisa que me acontecia. Para andar mais gente aqui. Às vezes, digo à Clarisse, a minha patroa: ‘Se nós estivéssemos na Rua Augusta, era muito melhor’.”

Já houve planos para que assim fosse. A ZER, Zona de Emissões Reduzidas da Avenida e Baixa Chiado – do Rossio até à Praça do Comércio e da Rua do Alecrim à Rua da Madalena – esteve para ser implementada, mas foi adiada com a pandemia.

Ao todos, são mais de 100 mil viaturas de visita à Baixa todos os dias. Em novembro, a Assembleia Municipal aprovou uma recomendação do Bloco de Esquerda pela implementação rápida da proibição de circulação para não residentes – a coligação Novos Tempos votou contra e o presidente da Junta de Santa Maria Maior, que gere a Baixa, Miguel Coelho, do PS, absteve-se. O que neste momento parece levantar mais discussão não é a proibição do trânsito mas como fazê-lo, em que moldes.

Uma das preocupações são os comerciantes e a logística das cargas e descargas. Se uns não reconhecem a vantagem, outros alertam para o número adicional de horas que teriam de pagar a funcionários para abrir mais cedo, caso o transporte de mercadorias fosse limitado ao amanhecer, por exemplo.

Na Rua da Prata, a ideia não convence Maria, da Drogaria Central. “Não sei se será por aí. Muita gente diz: ‘Ah, estava no elétrico, vi a sua loja e voltei para trás’. Param mesmo aqui no semáforo.”

Nem as vizinhas de Sónia, na loja de roupa ZEVA, são adeptas desta proposta. “Para quê?, Fechando a rua, aí é que as pessoas não vêm mesmo”, defende Denise, 46 anos, funcionária neste estabelecimento.

Denise não acredita que o fecho de trânsito na Baixa possa ajudar o negócio. Foto: Rita Ansone

Já a experiência de Tiago Quaresma faz dar razão ao velho ditado: primeiro estranha-se, depois entranha-se. “Há um paradoxo gigante em todas as cidades que viram centros tornarem-se pedonais: a primeira reação do comércio é achar que isso o vai prejudicar, porque acha que o consumidor se não chegar de carro não chega. Mas a Baixa de Lisboa tem uma coisa gravíssima que é o ruído, mau ruído, ruído automóvel.” Diz Tiago Quaresma, vice-presidente da AHRESP.

Um dado comprovado pelo mapa de ruído da cidade. Analisando a imagem, percebe-se a clara diferença entre as ruas do Ouro e da Prata, e a Rua Augusta, onde o ruído é quase nulo nesta última. A principal origem deste ruído já é há muito identificada pelo Plano de Acção de Ruído (PAR), aprovado pela Câmara Municipal de Lisboa em 2015: o tráfego rodoviário.

Tiago Quaresma lança o repto: “E se deixarmos as ruas apenas com passagem dos elétricos? Poderia ser a verdadeira pedra-de-toque para transformar a Baixa”. O elétrico, esse veículo que nos parece do passado, mas que tem sido assumido como futuro em muitas cidades do mundo.

O seu ideal de Baixa seria transformá-la “um grande centro de lazer, com conforto, agradável, com segurança. E, afinal, se há zona da cidade bem servida de transportes e até parques de estacionamento é a Baixa-Chiado.”

Os exemplos são vários, no mundo: no bairro de Gràcia, em Barcelona, o segundo com a maior concentração de comércio na cidade, a ausência de carros começou a ser vista como uma forma de travar prejuízos da pandemia para o comércio local e várias ruas foram encerradas ao trânsito durante dias.

O mesmo aconteceu em Bogotá, na Colômbia, Jacarta, na Indonésia e até em Nova Iorque – a cidade que nunca dorme. A premissa é quase sempre a mesma: fechar o acesso de veículos às ruas, para permitir devolvê-las às pessoas e para atividades individuais (como caminhadas) e coletivas, como visita a mercados e esplanadas.

O resultado deste processo? Os estudos indicam que as zonas onde o comércio participou nesta iniciativa registaram aumentos de receitas para a economia local. O programa “Ruas Abertas”, explica um estudo feito sobre o seu impacto em Missouri, poderá ter sido responsável por 82% das receitas nesses dias e por ter dado a conhecer novos negócios a 56% desses clientes.

Já em Nova Iorque, o programa terminou mais cedo do que o previsto devido ao mau tempo e pelas questões sanitárias em resposta ao covid-19.

Que Baixa deve ser a nossa?

Durante a campanha para as últimas eleições autárquicas, Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, prometeu ajudar o comércio. E poucos parecem estar esquecidos da promessa. Mas que planos podem ser aplicados à Baixa?

Vasco de Mello, da Associação de Dinamização da Baixa Pombalina, pensa numa Baixa onde se consiga competir com outras centralidades como os centros comerciais. “Não vai ser através da habitação que vamos resolver o problema, porque viver na Baixa hoje em dia tem valores brutais, estratosféricos, e não acredito que sejam para portugueses. Tem que se pensar o que fazer, então.”

A ideia de não se viver na Baixa, embora seja corroborada pelos números, tem perigos, nomeadamente o da desertificação ou o da artificialização do bairro. Lurdes Fonseca alerta para a perda de identidade desta zona da cidade, que se pode medir no número de hotéis a ser construídos – segundo um estudo apresentado ao Instituto Superior Técnico, já em 2015 a maior parte das obras de restauro na Baixa eram para construção de hotéis.

“Já estivemos mais longe de perder essa identidade. Temos que fazer um esforço para não perder as nossas Lojas com História”, diz a presidente da UACS, considerando que este programa da CML tem ajudado a mantê-la. Mas o que tem sido feito parece não ser suficiente.

Vasco de Mello, dono de uma loja com este estatuto, “O Campeão” diz que é preciso rever o processo. “Estamos a proteger a atividade comercial ou o edifício?”, questiona. A coordenadora do programa, Sofia Correia, admite que, ao nível camarário, “a proteção não é tanto no sentido de proteção da atividade – porque aqui não conseguimos legislar -, mas do espaço físico”. O que significa que, num caso de venda do edifício dessa loja, a proteção está apenas sobre o património urbanístico e não sobre a atividade comercial aí praticada. A loja física fica, o negócio desaparece.

As Lojas com História, a maioria concentrada na Baixa, beneficiam da lei número 42, de 2017, que vem dar-lhes proteção ao nível do arrendamento, com contratos protegidos durante cinco anos, sem despejos unilaterais. Mas e agora que o prazo de cinco anos está prestes a terminar? “Agora, há várias interpretações da lei”, diz Sofia. “Há quem interprete que são cinco anos desde que a lei entrou em vigor e há quem interprete que se conta a partir da transição para o Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) – transitando para o novo regime, ficam protegidos cinco anos a partir daqui.”

E talvez não chegue conservar as lojas. É preciso que a Rua do Ouro e a Rua da Prata – e até a Rua Augusta – se consigam reerguer das mazelas provocadas por anos de dados, ganhar uma nova personalidade e passarem a ser local de visita. Quer para portugueses quer para estrangeiros. Como foi em tempos – o que só acontecia porque era na Baixa que estavam as lojas que valiam a pena visitar e não as mesmas que estão nos centros comerciais, como lembrava Maria do Rosário Pedreira numa crónica.

O importante é encontrar um plano, diz António Moura: “O que for a Baixa será um pouco o que definirá Lisboa”.

E Tiago Quaresma alerta: a jurisdição de uma zona tão importante para o comércio e uma montra da cidade como esta não pode estar entregue a uma Junta de Freguesia. Propõe uma comissão permanente, entre poder público e privado, com a ajuda dos comerciantes, para redefinir o caminho da Baixa. Garante que o que acontecer na Baixa não será só definidor do que pode acontecer no resto da cidade, o que acontecer na Baixa “vai ser o laboratório para o resto do país”.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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6 Comentários

  1. Refletir sobre a Baixa Comercial da Cidade de Lisboa terá se ser um exercício prospetivo e não meramente retrospetivo. Sem esquecer ensinamentos de experiências passadas, boas e menos boas, o foco deverá incidir no planeamento do futuro próximo, definindo aquilo que efetivamente se pretende para a Baixa de Lisboa.
    Se é de um “centro comercial a céu aberto” que queremos falar, então as vontades, os esforços e os recursos deverão ser concentrados nesse ideal e devemos trabalhá-lo em conjunto (Câmara Municipal, UACS, AHRESP, AVC, Junta de Freguesia, etc…, etc.) de uma profissional, partilhando responsabilidades.

  2. Imagine-se um centro comercial com … 60 lojas devolutas.
    O “gestor/administrador” desse centro comercial estaria decerto muito preocupado com tal ameaça, mas veria nisso, de imediato, uma oportunidade de ouro para cativar, atrair, angariar, negociar, convencer … 60 empresários a investir no “seu centro comercial”.
    Como iria então o “gestor/administrador” operacionalizar a “coisa”?
    Uma vez detentor de informação para a gestão e conhecedor da procura e do perfil do cliente do seu centro comercial, que negócios interessaria atrair para os tais 60 espaços vazios?
    (…) Planear, organizar, gerir, …, gerir, … , gerir!!

  3. Percebo que a baixa já não seja um lugar que atrai pessoas para o comércio, mas também se percebe que as lojas com história, são apenas isso, locais com história porque não conseguem ser atrativas para os consumidores de hoje, principalmente os mais jovens. Nesta reportagem da para perceber que os responsáveis das associações e de algumas lojas, continuam a querer manter o seu negócio a custa dos senhorios, porque esses sim e que tem que suportar rendas baixas para sempre para que os negócios de alguns se mantenham. modernizem se, atraiam pessoas, vendam produtos que as pessoas queiram comprar, estar sempre pendurados no estado ou nos subsídios forçados pelos senhorios é que nao.

  4. Tyresö den 22 December 2021

    Que tristeza.Lembro-me dos anos 60. Ir a Baixa fazer compras assentar-se na Pastelaria Suíça.Ainda Existe. O ALTO PRECO MENSAL DOS LOCAIS. ACONTECE O MESMO na SUECIA STOCKHOLM.Stockholm ja não e o mesmo Stockholm dos anos 70 , 80, 90 etc Stockholm dos meus filhos quando eram pequenos. Como sinto saudades de Stockholm da minha juventude.Como sinto saudades da Baixa dos meus 16 ,17, 18 de idade. A tecnologia também estragou tudo um bocado..sim e um faceto.Edna Vickberg

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