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Para os cristãos o Natal ainda está longe. Eles preparam-no com um tempo de quatro semanas a que dão o nome de Advento e, assim, tentam travar a antecipação do Natal que o mundo consumista nos quer impor e vai conseguindo. Porque para os cristãos é importante manter viva a memória do acontecimento único na história da humanidade, que lhe mudou a data e o rumo, que é o nascimento de Jesus Cristo.

Não sendo eu pessimista tenho uma forte intuição de que, se não o fizermos, daqui a umas décadas, do Natal vai apenas ficar uma leve memória (ou lenda) do nascimento invulgar de um menino a quem deram o nome de Jesus, a que depois alguns seguidores lhe deram força, divulgando a sua pessoa e ensinamentos a todo o mundo.

De facto, há mensagens e atitudes subliminares de querer apagar do Natal qualquer intenção cristã. Se colocarmos a palavra “Natal” na Internet e procurarmos imagens, a do presépio, além de não predominar, também não aparece no ranking das primeiras. Aparece o anafado Pai-Natal, Árvores de Natal, luzes e embrulhos. Mais em baixo alguns presépios infantis, que pouco dignificam a quadra e o acontecimento.

Andamos nas ruas da cidade e também escasseiam alusões à autenticidade desta quadra: os enfeites das luzes, que antes eram de sinos, bolas e anjos, foram trocados por medusas em Lisboa (Rua Garrett) e golfinhos na vizinha cidade da Amadora. Em vez de “Feliz Natal” aparecem as “Boas festas” ou “Festas Felizes” para agradarmos a todos e não sermos inconvenientes para com ninguém.

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Natal ao calhas

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Nas montras nem se fala, porque de Natal só aparece neve artificial, renas, uma vaca com um gorro na cabeça e algumas bolas que antigamente serviam para enfeitar a árvore, mas que, agora, coitadas, estão arremessadas no chão ou dentro de uma jarra de vidro com umas luzes a piscar.

Como cristão, para quem o Natal diz muito, preocupa-me o pior inimigo para uma espiritualidade do Advento e do Natal que é o consumismo. O filósofo francês Gilles Lipovetsky, que acompanho, tem falado do “Homo Consumericus”, o homem (pessoa) consumista, que como o vai descrevendo, é “imprevisível e insaciável”.

Esta nova “espécie” de ser humano não é de agora. Já nos anos 1960, Eric Fromm escrevia sobre esta (des)evolução do ser humano que “não tem como objectivo principal ter coisas, mas consumir cada vez mais e, assim, compensar o seu vazio interior, a passividade, a solidão e a ansiedade”.

É claro que qualquer grande festa se prepara. O Natal não escapa a esta preparação: precisamos comprar atempadamente os presentes, fazer as encomendas, endereçar os convites, participar nos jantares antecipados de Natal e por aí fora.

Também é verdade que ninguém obriga ninguém a entrar nesta roda do consumismo: compra quem quer e entra quem quer. Não nos podemos por contra o comércio porque os comerciantes precisam vender para fazer subsistir o negócio, ainda por cima, com estes tempos tão cinzentos que a pandemia carregou. Tudo isso é compreensível e aceitável.

Não poucas pessoas tentam equilibrar o Natal exterior com o Natal interior. Com mais ou menos sucesso, tentam viver o Natal. E o Natal não pode ser outra coisa senão a comemoração do nascimento de uma pessoa que mudou a história da humanidade (não é por acaso que estamos no ano 2021).

Com pena li que, agora, alguns movimentos europeus, não necessariamente religiosos ou ateus, em nome da inclusão e da diversidade, querem acabar com a palavra “Natal”, trocando-a por “período de férias” ou “período das festividades”. Ora, não é eliminando a cultura que se evolui na inclusão e na diversidade.

O que nos enriquece como sociedades civilizadas é exactamente a tolerância e o respeito que o outro me merece e que espero que tenham para comigo. Liberdade para quem quer celebrar o Natal, liberdade para quem quer celebrar o Ramadão ou outra qualquer festa religiosa, liberdade para quem quer celebrar mais exteriormente ou mais interiormente, com fé ou sem fé o que a sociedade e a diversidade nos vai propondo.

A História não se apaga, nem por decreto nem por convenções. Que o Natal não tenha de ser só património dos cristãos é óptimo. Gosto de ver a cidade iluminada por causa do Natal, gosto da alegria das prendas por causa do Natal, gosto dos encontros entre crentes e não crentes em festas e jantares porque é Natal. Que o futuro do Natal seja cada vez mais consumista e menos espiritual é expectável. Agora, querer que o Natal deixe de ser Natal é um crime cultural.


* Nasceu e cresceu em Marvila, Lisboa, há 46 anos. E há 23 que vive em São Domingos de Benfica. Frade dominicano, de 46 anos, a sua vida divide-se entre o convento e a cidade, sobretudo no apoio aos mais pobres, como voluntário da Associação João 13. Escreve por gosto e também por necessidade.

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2 Comentários

  1. “Não é eliminando a cultura que se evolui na inclusão e na diversidade.” É exatamente isto! Muitos parabéns e Feliz Natal!

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