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Se porventura, ainda, há quem pretenda planear, organizar e gerir a cidade e as zonas nobres da mesma, sem levar em linha de conta o Comércio, deparar-se-á, decerto, com … más notícias!

Quem conheceu a Baixa de Lisboa, de há uma, duas ou três décadas, e vê, hoje, olhando e reparando na Rua do Ouro, na Rua da Prata, na Rua de Santa Justa, na Praça da Figueira, e tantas outras artérias cuja vocação comercial jamais seria sequer posta em causa, estará muito desiludido, algo preocupado, quiçá, altamente, frustrado.

Há algumas décadas, uma das razões para o princípio do fim era a pedonalização de alguns eixos, depois, pasme-se, a possibilidade da instalação de … um …El Corte Inglés, em plena Baixa de “ouro”, mais tarde as alterações do trânsito e a carência de lugares de estacionamento e sua gestão, depois a insegurança, o tráfico de droga e os sem abrigo, mais tarde, ainda, a falta de limpeza, posteriormente, a falta de regulamentação e/ou disciplina ao nível das esplanadas, das cargas/descargas, por fim as infindáveis obras inacabadas, tanto em espaço público, como em edifícios privados, umas mais consensuais que outras, etc., etc.

Era o tempo em que, apesar dos múltiplos e diversos problemas, o Comércio se queixava de todos menos de si próprio, tendo força, representatividade, opinião público-privada e comunicação/imprensa do seu lado, ainda que, por vezes, de pouco eco!

Um comércio fechado dava lugar a outro, por vezes, tantas vezes, melhor, porque mais qualificado, com mais procura. A um “Comércio Menos” sucedia um “Comércio Mais”.
Não existia, de facto, espaço nem espaços para, apenas, “Mais Comércio”!

Naquele tempo o Comércio não era incómodo, não incomodava e, mais ou menos comodamente, cumpria o seu papel perante quem o procurava e satisfazia em pleno as
suas necessidades.

Os tempos mudaram, as vontades foram mudando e o cenário não podia deixar de mudar também. O Comércio passou a fazer-se de outros comércios, o centro fez-se de outros centros, a velha arte da coincidência passou a acontecer menos, as novas procuras passaram a poder ter outra oferta e a velha oferta não se adaptou às novas procuras.

Assim, tanto, tudo e mais alguma coisa, que alguns, ainda, recordarão, outros reconhecerão, conducente a um novo cenário, o atual, no qual tudo culminou num “Menos Comércio”, num “Comércio Menos”, enfim, num certo “DesComércio”!

Quantitativa e qualitativamente o Comércio da Baixa, tantas vezes estudado, pouco ou nada terá permitido concluir, unir e agir em conformidade, traduzindo-se, agora, numa certa descaracterização, desqualificação, descontinuidade, disfuncionamento, …, o tal “desComércio”!

Num tempo de três/quatro décadas, ouvimos falar do Comércio da Baixa Pombalina, da Cidade das Compras, do Centro Comercial a Céu Aberto, da Agência para a promoção da Baixa-Chiado, das Lojas com História, entre outras, inclusive, quiçá, de um hipotético Bairro Comercial Digital.

Hoje, perante este “novo (a)normal”, o pragmatismo com que tem de se encarar o problema, conduzir-nos-á à constatação de que o Comércio da Baixa, tal como está, talvez já não viva num cenário que justifique a sua revitalização, a dinamização e a promoção, antes sim, a regeneração, a redefinição e a reestruturação. Passou-se literalmente de uma realidade em que o Comércio dava vida ao cenário para uma outra
em que tanto o Comércio como o cenário pouca ou nenhuma vida têm!

O Comércio e os seus comércios, o mix comercial, que poucos admitiriam pôr em causa como sendo, desde sempre, a principal marca daquela “zona” de Lisboa está hoje seriamente comprometida e a exigir um plano de ação estratégica local que envolva todos e não esqueça, nem ostracize, quem quer que seja!

Do(s) comércio(s) que tanto vivia(m) e fazia(m) viver a Baixa, passou-se para comércio(s) que já não vive(m) (ou apenas sobrevive(m)!) e já não faze(m) viver, nem o Comércio, nem a Baixa!

Crentes e menos crentes nestas andanças do Comércio, terão decerto uma importante palavra a dizer sobre o futuro, tendo, deveras, por certo que o Comércio será o futuro da Baixa, mas sendo altamente incerto que a Baixa seja o futuro do Comércio!


* João Barreta é especialista em gestão do território e especialista em Urbanismo Comercial, ex-Diretor Municipal das Atividades Económicas da Câmara Municipal de Lisboa, membro da Direção da extinta-Agência para a promoção da Baixa-Chiado

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