Olá, vizinho/a!

Hoje quem vos escreve é a Ana. Lisboa é uma cidade de histórias. Foram muitos os povos que aqui chegaram, criando raízes dentro das fronteiras da cidade.

Eu faço parte dessa grande porção de gente que chegou a Lisboa vinda de outro lugar. Nasci no Norte e cheguei a esta cidade, como tantos outros, com uma mão cheia de sonhos.

Há dias, tive a oportunidade de falar com o rapper Sam The Kid, na escola onde ele estudou, em Chelas, sobre algo que nos une a todos: a Língua Portuguesa.

O Sam estava lá para apresentar o livro que escreveu com o professor Marco Neves, o Assim ou assado: 100 perguntas sobre a língua portuguesa, que os dois criaram a partir do podcast com o mesmo nome.

Daí resultou uma reportagem sobre os mais jovens que, não gostando de Português, se identificam (e muito!) com a poesia do Sam.

Mas a conversa não ficou por aí. O Sam, que é lisboeta de nascença, resumiu aquele que é um problema numa Lisboa multicultural, com gente vinda de todos os cantos do país e do mundo: os dizeres e os sotaques.

“As pessoas já estão todas formatadas para um tipo de linguagem”, explicou ele. “Não há nada conservador em saber que há mais palavras, mais formas de dizer. É enriquecedor haver vários sabores, vários sotaques…”.

Mas até eu, que falo um Português do Norte (e que sou habitualmente gozada por dizer “à beira de” e não “ao pé de”), julgo os dizeres alheios.

Apercebi-me disso no momento em que o Sam falou de uma expressão que oiço o meu namorado muitas vezes dizer quando chega a hora do jantar: “o comer”.

Lembro-me que a primeira vez que o ouvi, ri-me por dentro. “As pessoas julgam a forma como os outros falam, como se dizer ‘o comer’ fosse de uma pessoa menos culta”, disse o Sam. E até eu sou culpada disso mesmo.

Lisboa é a súmula dos dizeres de todo o país e até do mundo – e é essa diversidade que alimenta as ruas. As ruas que todos nós construímos.

Mas, para nos fazermos ouvir na cidade, é preciso um ingrediente mágico: silêncio.

O silêncio para uma troca de ideias, para um passeio, para um momento de reflexão. E é o silêncio que falta num dos eixos mais polémicos da cidade: o Rato.

Esta semana fomos ao Largo do Rato, onde até as conversas com especialistas se desenrolaram com dificuldade, por causa do barulho excessivo.

O que fazer para tornar esta área da cidade num lugar mais amigável para os pedestres? Menos carros, menos barulho, menos poluição…

Mais tempo e espaço para viver a cidade, e para a percorrer de uma forma de que eu também gosto muito: de bicicleta.

Só que por Lisboa ainda são muitos os obstáculos para aqueles que optam por esta forma de mobilidade suave. Um deles são os carris de elétrico, transportes que poderá muito bem vir a ser o futuro da mobilidade e que, ao mesmo tempo, faz parte da memória de Lisboa.

Debruçamo-nos também sobre este tema, e descobrimos soluções para que a bicicleta e os carris de elétrico coexistam pacificamente.

A mobilidade, tal como o barulho, é um desafio que tanto preocupa quem diz “à beira de” como “o comer”. Somos também a forma como nos deslocamos…

E por onde nos deslocamos. É no chão de Lisboa que nos encontramos todos os dias: seja em passeios a pé, de bicicleta, de autocarro, de elétrico.

A todos nós, que aqui nascemos ou que aqui chegámos, preocupam-nos os buracos na rua, o barulho, o trânsito, a poluição…

Tudo isso apesar de falarmos de forma diferente, de nos vestirmos de forma diferente e de termos crescido em sítios diferentes.

Lisboa é o nosso ponto de encontro.

Bom fim-de-semana!

– Ana da Cunha

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