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É um homem de intuição e é por ela que se guia, mesmo que esta lhe aponte um caminho pouco evidente, ou mesmo incompreensível para quem o rodeia. Assim aconteceu há perto de 30 anos, quando, regressado de Paris e do mundo tão implacável como cintilante da Alta Costura, Tony Miranda decidiu instalar-se em Portugal e apostar muitas “fichas” na lisboeta Avenida da Liberdade.

Nesse final de século XX, as grandes marcas do luxo internacional ainda não se tinham mudado para esta avenida nobre de Lisboa. E a artéria aberta um século antes por iniciativa de Rosa Araújo, parecia-se um pouco com a descrita por Eça de Queirós em Os Maias: “Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem pálida e rara. E ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate campestre àquele curto rompante de luxo barato – que partira para transformar a velha cidade, e estacara logo, com o fôlego curto, entre montões de cascalho.”

A Av. da Liberdade já tinha a Rosa&Teixeira, mas mesmo assim era um destino improvável para quem vinha do luxo (nada barato) da Rue Cambon, em Paris, onde fora vizinho da Maison Chanel.

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O atelier de Tony Miranda na Av. da Liberdade. Vídeo: Rita Ansone.

“Quando eu cheguei à Avenida da Liberdade só existia o Rosa & Teixeira na moda e tudo o mais estava muito decadente, até com muita prostituição na rua”, recorda agora Tony Miranda. “Os meus amigos diziam-me que era um disparate e que eu morreria sem amortizar o investimento. E, no entanto, eu gostava disto e algo me dizia que se alguma coisa teria futuro nesta cidade teria de ser a Avenida. Quais eram as alternativas? A Avenida da República é um lugar de passagem e a Avenida de Roma é demasiado pequena.”

As décadas seguintes deram-lhe rezão e hoje, além do atelier privado onde recebe no maior recato uma muito exclusiva carteira de clientes, tem, nas traseiras deste prédio (na Rua de São José, 55) um conjunto de apartamentos destinados ao arrendamento de curta duração, muito procurado por turistas estrangeiros.

No TM Luxury Apartements (assim foi designado o empreendimento) não faltam “toques de charme”, que são como uma assinatura do criador de alta costura: logo no piso térreo, que dá acesso aos apartamentos e ao terraço, está uma peça muito especial: a máquina de costura Singer da mãe de Tony Miranda, a mesma onde ele, ainda miúdo, aprendeu a costurar.

“Ainda funciona e continua a fazer um ponto lindíssimo.”

A máquina de costura inicial da mãe de Tony Miranda. Foto: Rita Ansone

Elementos como este multiplicam-se pelos vários apartamentos do edifício, todos eles diferentes entre si, unidos apenas pela inspiração no mundo da Moda e no universo particular do seu criador.

Uma longa aprendizagem e um passo em falso

Hoje a marca de alta costura de Tony Miranda é um dado assumido, mas o sucesso e o glamour não foram servidos em bandeja de prata a este português que, nos seus anos áureos de Paris, chegou a vestir o Shah da Pérsia, Reza Pahlevi, o príncipe Saud Al Faisal, Charles Aznavour, Jacques Brel ou Brigitte Bardot.

Nascido em Torrados, uma aldeia do concelho de Felgueiras, aprendeu alguns rudimentos de costura com a mãe mas foi como aprendiz dum alfaiate local que, como tantos rapazes da sua geração, aprendeu a sua arte.

Anos depois, decidiria tentar a sua sorte em França e, como tantos na sua região, foi “a salto”, sem saber ao certo o que o esperava, a não ser que para trás ficava a pobreza e a mobilização certa para a Guerra Colonial.

Na dura prova de atravessar os Pirinéus a pé valeu-lhe um sobretudo feito por ele próprio. “Era muito bom e resistente. Um dos homens que me acompanhava puxava-me pela manga e eu lá ia conseguindo caminhar”.

O atelier de Tony Miranda. Foto: Rita Ansone

Em Paris, depois de alguns trabalhos de passagem, “daqueles que esperavam todos os emigrantes, sobretudo na construção civil”, entrou finalmente para um atelier que transformava peças de alta costura ou que as restaurava: “As pessoas pagavam fortunas por esse trabalho e posso dizer que me passaram autênticas maravilhas pelas mãos. Aprendi muito, muito mesmo e fiz uma reputação porque esse atelier era conhecido pela sua qualidade em toda a Paris.”

Daí seguiria para o atelier do catalão, radicado em Paris, Joseph Camps e, finalmente, em 1967, para o de Ted Lapidus, onde foi diretor criativo durante 10 anos.

Seguro das suas qualidades e de uma carteira de clientes que o conhecia bem, Tony Miranda decidiu, no final dos anos 1970, apostar na sua própria griffe e instalou-se primeiro na Avenue de Suffren e, finalmente, na rua mais mítica da História da Moda: a Rue Cambon, onde Coco Chanel em pessoa se instalara na década de 1930 e onde ainda hoje está a casa (e a famosa escadaria de espelhos) que perpetua o seu nome.

A dois passos da Place Vendôme e do Faubourg Saint-Honoré, no local onde os escritores Stendhal e Chateaubriand se enfrentaram em duelo.

Até que um grande amor se atravessou no seu caminho e Tony, fiel à tal voz interior que o guia em decisões difíceis, trocou Paris pelo regresso a Portugal: “O amor não durou muito mas eu sabia que, depois de tomada essa decisão, não poderia voltar a Paris. Os meus clientes eram pessoas de alguma fierté (orgulho), não me perdoariam um passo em falso.”

Sem arrependimentos (“para quê? Foram decisões minhas, não tenho de me queixar”, diz), começou por se instalar em Guimarães, não muito longe da terra natal. Comprou uma casa solarenga, fez-lhe obras, mas os clientes não apareciam.

Não havia moda fora de Lisboa

Sem abandonar a cidade (onde ainda vive e trabalha parte do seu tempo), percebeu que, no Portugal dos anos 1990, não existia moda fora de Lisboa. Foi então que se deixou seduzir pelo charme de certa forma délabré (delapidado, em português) da Avenida da Liberdade.

Tal como fazia em Paris, abriu um atelier privado de couture para homens e mulheres, ciosos da sua privacidade. “Os meus clientes não gostam de ostentar marcas e logotipos. Não precisam disso”, explica. “São pessoas que conhecem que o verdadeiro luxo está na qualidade da confeção e dos materiais.”

Tony Miranda explica a importância dos pormenores na Alta Costura. Foto: Rita Ansone

Exemplos? Tony Miranda convida-nos a entrar neste autêntico templo de preciosidades e mostra casacos de homem plissados à mão como Fortuny fazia no princípio do século XX, tecidos que são como uma segunda pele, “casas” de botões que levam mais de 400 pontos (à mão, naturalmente) cada…

À entrada do atelier, como um amuleto, está uma peça carregada de simbolismo: uma capa que se destinava a um dos melhores clientes de sempre de Tony Miranda, o antigo presidente do Gabão, Omar Bongo, que ainda a provou, mas não a chegou a vestir porque, entretanto, morreria. Toda ela é seda e lã e, posta sobre o manequim, irradia força e elegância.

Incapaz de ver futuro numa moda que, diz, “cada vez mais prescinde da arte da alfaiataria e do saber fazer”, em Portugal e no resto do mundo, o costureiro apresentou a sua última coleção para homem e mulher. 

Tony Miranda no pátio que faz a ligação entre o atelier e o edifício de apartamentos TM. Foto: Rita Ansone

“É a minha resposta a este mundo terrível em que vivemos mas em que também não podemos parar”, afirma.

Tony Miranda admite que os primeiros tempos da pandemia o angustiaram muito e condicionaram a sua produção: “Mandei o meu pessoal para casa e ia para o atelier de Guimarães tentar trabalhar. Mas ver a cidade deserta entristecia-me muito. De repente, percebi que estava a fazer peças muito escuras e melancólicas e que não seria isso que as pessoas quereriam quando voltassem a ter vida social.”

A intuição voltou a falar-lhe ao ouvido e “ditou-lhe” todas as cores da vida em pleno.


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Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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