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Os mais novos fogem da Língua Portuguesa. Têm medo das suas palavras longas, dos verbos de difícil conjugação. “Não gosto de poesia, não gosto de português”, confessa Gonçalo Neves, de 15 anos. O amigo, Guilherme Nogueira, de 16, acena com a cabeça.

Gonçalo e Guilherme estão sentados no auditório da escola deles, a D. Dinis, em Chelas, a assistir à apresentação de um livro. Pode parecer estranho para quem diz não gostar de Português, mas o mistério é resolvido quando se olha para o autor no palco do auditório.

Com o boné na cabeça e o ritmo na ponta da língua, é o rapper Samuel Mira, mais conhecido por Sam The Kid, quem segura o microfone. Ele, que aprendeu Português nesta escola, partilha o palco com o professor Marco Neves, um apaixonado pela Língua Portuguesa.

Da direita para a esquerda: Nuno Mota, Gonçalo Neves, Guilherme Nogueira, João Matos, Rodrigo Rodrigues. Foto: Inês Leote

Os dois uniram-se numa missão: a de combater o medo das palavras com o livro Assim ou Assado: 100 perguntas sobre a língua portuguesa, escrito a partir de um podcast com o mesmo nome. É que até eles – um poeta e um professor – já batalharam com a língua.

Samuel partilha uma dessas experiências: “Lembro-me de uma vez o professor perguntar: ‘o que é que isto simboliza?’ e eu respondi com uma justificação. Mas depois o professor disse: ‘não, isto simboliza isto’, e eu não concordei porque deve haver liberdade de interpretação”.

É talvez por se identificarem com este discurso que os jovens da plateia vibram tanto com Sam. Mas não é só com o discurso. É, acima de tudo, com a música. “Eu gosto de ouvir as músicas do Sam e de analisá-las”, diz João Matos, de 16 anos. “Algumas músicas dele, como o Recado, estão carregadas de metáforas e recursos estilísticos”.

Como se explica que Sam seja capaz de pôr estes miúdos a discutir metáforas quando nem Fernando Pessoa ou Luís de Camões o conseguiram?

O jovem Guilherme sabe a resposta: nem Camões, nem Pessoa viveram para escrever sobre a realidade dos bairros sociais. “As músicas do Sam são um bocadinho aquilo que os meus tios e os meus irmãos mais velhos viveram”, diz ele. “Como somos de Chelas, as músicas são uma representação do nosso dia-a-dia”.

O rap: a voz dos bairros

Recuemos no tempo para perceber o que aqui se está a passar. A história do rap, a música que levou estes jovens ao auditório da escola, começa em Lisboa em 1986, quando o Correio da Manhã Rádio transmitia o programa Mercado Negro, com antena aberta só na capital.

Do South Bronx, nos EUA, o rap viajava para Cacilhas, Massamá, Amadora, Carcavelos, Oeiras, Monte da Caparica, Pedreira dos Húngaros, Cova da Moura, Pinhal Novo.

Soraia Simões de Andrade, investigadora e membro da associação Mural Sonoro, conta na sua tese de mestrado como o rap apelou à população que imigrara para Lisboa no período pós-25 de Abril e que se vira “empurrada” para as periferias, remetida à discriminação e à exclusão social.

O rap é um dos quatro pilares do movimento hip hop, além do breakdance, graffiti e DJ, e tornava-se aqui, tal como nos EUA, a “banda sonora do bairro, do subúrbio, daquilo que esteve à margem do capital cultural”. Nomes como Black Company, Family, Boss AC e Zona Dread entraram em cena, surgindo quase como “anticorpos” ao cavaquismo da altura.

Chegar à indústria foi um “ato de resistência” por parte dos artistas que o conseguiram graças a jornais, rádios e televisões independentes, como a Blitz, O Independente, a Revista K, a SIC Radical. O rap funcionou “como um megafone para retirar esses grupos da invisibilidade”, diz Soraia.

É que o rap não foi só um movimento musical, “foi um movimento de contracultura” que se tornou a poesia da luta contra o racismo, a violência, a criminalidade, recorrendo até à língua do quimbundo e do crioulo para refletir sobre a diferença e a identidade cultural.

Transformou-se na poesia que ainda ninguém escrevera: é sobre isso mesmo que o rapper Double V, do grupo Family formado na década de 1990 na Amadora, reflete numa entrevista conduzida por Soraia.

“Quando eu comecei a escrever era em português, num hábito de escrever diários sobre a minha vida e coisas que me aconteciam. Então, a transição disso para o hip-hop foi natural porque já estava habituado a escrever. Podia ser o poeta que eu não via nos livros que lia. Na escola tínhamos acesso a determinados autores, mas não aqueles que escrevem sobre o que vivíamos todos os dias (…)”

Double V, do grupo Family

Entretanto, muitos dos grupos que começaram esta onda do rap acabariam com a Expo ’98. Mas o rap viera para ficar, e para continuar a contar as histórias tantas vezes silenciadas dos bairros da cidade.

Durante este período, em Chelas, essa área de Marvila que se tornara morada da população vinda de bairros de barracas e das ex-colónias, um miúdo crescia a rimar, fazendo furor com as suas quadras.

Chamava-se Samuel Mira.

Com a idade, as rimas viraram música: “Comecei a ser invadido por essa música americanizada: o rap”. E passou a escrever sobre uma realidade específica: a dele, a de Chelas. Uma zona esquecida e marginalizada.

Hoje, a sua música – a sua poesia – é a banda sonora dos miúdos da mesma escola onde ele andou, a D. Dinis. “Identifico-me com a música do Sam por sermos vistos fora de Lisboa ou mesmo dentro de Lisboa como uma zona perigosa”, explica Guilherme. “Não é que Chelas seja o bairro mais pacífico, mas também não é o que descrevem”.

O sítio onde eu moro
O sítio onde eu vivo
O sítio onde eu paro e
Fico pensativo

Chelas, Sam The Kid

O que têm em comum Camões e Sam The Kid?

“Às vezes pensamos ‘ah, a poesia está fora de moda, os miúdos não gostam, não leem’”, reflete Dora Neves, professora de Inglês no liceu D. Dinis.

Mas a paixão destes miúdos pelo rap prova o contrário. Foi aliás essa paixão que levou a escritora Maria Teresa Maia Gonzalez, bem conhecida do público juvenil pelo seu livro A Lua de Joana, a escrever isso mesmo: rap.

Maria Teresa Maia Gonzalez.

Há alguns anos, a viajar pelas escolas de Lisboa para apresentar os seus livros, Maria Teresa passou a ser recebida por raps criados pelos próprios alunos. “Acontecia sobretudo na Linha de Cintura, na Margem Sul”.

E por isso começou a questionar-se: “E se eu fizesse um livro diferente, com base naquilo que é a experiência deles? Com um texto acessível e que os faça saborear as palavras e o encanto que elas têm?”.

O resultado dessa pergunta foi o livro O Rap na Escola, publicado em 2010, e que percorreu as escolas do país. É uma obra que parte de 30 palavras para a “construção da paz”, contando a história de cada uma delas, recorrendo à prosa, à poesia e ao rap. No fundo, é um livro que brinca com as palavras.

Para Maria Teresa Maia Gonzalez, o livro foi sobretudo importante para os jovens que não têm experiência de leitura. É que, apesar da paixão pelo rap, e até mesmo do entusiasmo em analisar letras, os jovens continuam a insistir que não gostam de Português nem de ler livros.

Dora Neves tem uma explicação: “Eu acho que os jovens põem determinados escritores num patamar e pensam ‘estes são os clássicos, estes não’”.

Dora Neves, professora de Inglês da escola D. Dinis, acredita que a poesia pode apelar aos mais jovens. Foto: Inês Leote

Mas, afinal, o que têm Sam The Kid e Camões em comum? O próprio Sam responde com uma memória de quando a professora de Português lhe perguntou por que é que Camões usara tantas vezes o som “f” num verso.

“Era a foice, a faca, a fila, a fola”, recorda. “E a professora depois explicou: ‘é porque isto simboliza as espadas, o barulho das espadas’, e eu fiquei ‘meu, isto abre-me a mente’”.

Camões inspirou Sam The Kid. E por isso é importante quebrar barreiras entre poetas contemporâneos e clássicos. A professora Olívia Martins, que dá aulas de Português numa escola em Viseu, faz isso mesmo: “Nas aulas, fazemos um paralelismo entre o texto literário e as letras das canções”.

O objetivo é mostrar que os sentimentos que Camões expressa são exatamente os mesmos que expressam rappers como Sam The Kid ou Boss AC. “O que muda são as vivências, a forma como se expressam os sentimentos”, explica.

A professora Dora Neves, que tem um filho no 12º ano, conseguiu fazê-lo perceber a teoria do fingimento de Fernando Pessoa assim mesmo: “O meu filho começou por não entender mas depois aplicou a teoria do fingimento a determinadas ações que temos no dia-a-dia”.

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Sam The Kid a falar da sua relação com a poesia. Vídeo: Inês Leote

Na escola D. Dinis ainda não se usa esta abordagem, mas essa hipótese deixa os mais jovens entusiasmados: é o testemunho da força da poesia, e da música. “A música e a poesia tornam tudo mais fácil, ou podem tornar”, diz Maria Teresa Maia Gonzalez.

E reforça ainda: “a poesia não tem de ser toda erudita, não é por ser simples que as mensagens importantes não são transmitidas”, e é por isso que a escritora defende que o rap pode muito bem ser um instrumento de trabalho para muitas disciplinas, como o Português, o Inglês, a Música, a Dança.

O único medo que surge para Sam The Kid é que, com o tempo, também o rap se torne imposição para os alunos. “Eu, apesar de me sentir lisonjeado, sei como é que o ser humano funciona: quando nós estudamos uma coisa de livre-vontade, é diferente de ser imposta”.

Aquilo que Samuel teme é que, daqui a uns anos, perante as suas rimas, os mais novos se queixem: “Por que é que não se dá outro artista moderno?”.

Talvez isso possa acontecer no futuro, sim. Mas estes jovens veem nas palavras de Sam The Kid a poesia que “toca e transforma”, “que faz pensar e sentir”, como diz Maria Teresa. Foram as palavras dele que levaram Guilherme a compor: “Oiço, componho algumas coisas só para mim nas notas do telefone, lembro-me de palavras que rimam”.

E este pequeno poeta já consegue imaginar o futuro: “Estou mesmo a ver, o meu filho e o meu neto a abrirem um livro para estudar Sam the Kid!”.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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1 Comentário

  1. Temos que passar palavra, de outras formas de expressão e comunicação tocando, os jovens com a música, com as suas letras a poesia da atualidade e dos clássicos.

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