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“Duas mães e duas filhas vão à missa com três mantilhas.” Quando éramos pequenos, a minha avó gostava de nos lançar este enigma para, diante da nossa perplexidade, esclarecer que se tratava de uma avó, uma mãe e uma filha (a mãe era mãe e filha ao mesmo tempo) e que, por isso, três mantilhas eram suficientes.

A mantilha era, no fundo, um outro nome para o véu; sim, “véu”, esse adereço geralmente em tule ou renda com o qual, nesse tempo, as mulheres e as raparigas cobriam o cabelo ao entrar na igreja.

Lembro-me, aliás, de eu própria o ter usado na primeira comunhão: um véu branco e levemente transparente debruado a cetim, preso com ganchos atrás das orelhas para não escorregar e causar atrapalhação no momento solene em que o padre pousasse a hóstia na minha língua e dissesse: “O corpo de Cristo.”

Eu devia ter uns sete anos, não mais, e comunguei depois de, uns dias antes, ter confessado pecados gravíssimos como ter preguiça de lavar os dentes; mas, a partir de então – e apesar de ser uma criança – também para mim o uso do véu passou a ser recomendado durante a missa, a que já ia há uns anos “em cabelo”, porque a minha avó, católica fervorosa, nos levava à igreja, pelo menos nas datas festivas, desde muito pequenos.

Aliás, parece que a minha estreia foi uma galhofa pegada…

Para começar, assim que cruzei o grande portal da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, de cujo tecto pendem uns grandes candeeiros circulares decorados com velas, pensei que eram bolos de aniversário suspensos e, além de perguntar várias vezes em voz alta quem é que fazia anos, sempre que a congregação entoava um cântico, eu acompanhava com o Parabéns a Você, fazendo rir os que se sentavam ao pé de nós.

Avisada com um beliscão de que devia estar calada, dei então em observar os crentes mais fervorosos e em imitar-lhes as poses dramáticas, levantando os braços para o alto, fechando os olhos com força e juntando as mãos sob o queixo em suposta oração, ajoelhando e batendo três vezes no peito, benzendo-me, enfim, todo um catálogo de posições que decerto resultaria muito útil a um pintor religioso, mas que era uma palhaçada numa criança de quatro anos.

Depois de novo abanão da minha mãe impaciente (a avó começava a ficar chocada com a risota dos circunstantes), não fiz mais ondas até ao momento imediatamente a seguir à comunhão, em que as pessoas rezavam de joelhos e me era possível abarcar um horizonte mais amplo; então, chamei a minha mãe e, com uma expressão tremendamente aflita, apontei uma pessoa várias filas à frente.

Verificando que não passava de uma velhinha toda vestida de preto e com um véu negro na cabeça, ela encolheu os ombros, como a perguntar o que é que havia de especial; e eu, num tom claramente mais alto do que seria desejável, declarei, chocada: “É uma velhinha sem cabeça!”

De facto, a senhora tinha uma marreca tão acentuada que, assim de joelhos e olhada de trás, parecia uma dessas galinhas que ainda andam uns segundos às voltas depois de lhes terem cortado o gasganete…

Maldito lenço preto que me lançou ao engano! Maldito véu.

Malditos véus que ainda hoje são obrigatórios em tantos países, responsáveis por decapitações, lapidações, tortura, morte; ainda bem que em Lisboa já nos livrámos deles há muito tempo.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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