Olá vizinhos e vizinhas,

Hoje quem vos escreve é o Nuno. No fim de semana passado assisti presencialmente à concretização de um sonho de quem acreditou que a união faz a diferença numa cidade por vezes tão desigual. 

No Bairro do Rego, a Passa Sabi inaugurou finalmente o seu espaço. Esta é uma associação de moradores que foi fundada em 2014 e que desde 2017 tem vindo a intensificar o seu trabalho com a comunidade, sobretudo com as crianças e jovens mais desocupados. Na festa, ali, no meio de Lisboa, houve atuação das batucadeiras de origem cabo-verdiana, serviu-se cachupa, espalharam-se sorrisos e discursos e até Carlos Moedas esteve presente.

Foi bonito, mas é ainda mais bonito o que esta associação faz todos os dias, no dia a dia, sempre lá para a comunidde, cuidando e enquadrando o futuro das próximas gerações. Força, Eugénio Silva e Joana Mouta – cá estaremos para vos apoiar sempre.

A verdade é que é deste entretecer que, de uma ponta à outra da cidade e arredores, ela se vai construindo, sedimentando, de baixo para cima. Em muitos lugares vamos encontrando mais associações e grupos de moradores que se juntam e lutam por causas. Esta Lisboa feita por dentro, fora da política e dos salões, tem sido uma descoberta fascinante.

Veja-se o caso da Rizoma, uma cooperativa que ficou conhecida pela sua mercearia comunitária – a primeira da cidade -, com produtos locais e biológicos. O ano passado contámos a história de quando ainda ocupavam 30m2 de um espaço na Renovar a Mouraria e tinham 30 cooperantes. 

Entretanto, creceu. O Frederico Raposo foi conhecer o novo espaço de 400m2 nos Anjos que está a poucos dias de inaugurar. São agora mais de 300 pessoas, e multiplcaram-se para vários grupos de trabalho, da Habitação à Cultura. Vão ainda dividir a nova morada com outros projetos, servindo de incubadora.

A Rizoma é também exemplo de uma economia comunitária: “Temos frutos e legumes que vêm de Marvila, da Ajuda, da Graça e pães de queijo que vêm de perto da Culturgest”. 

E, nisso, dão conta das preocupações crescentes sobre o consumo, que é também a causa da Rede do Decrescimento: este grupo cívico quer unir os cidadãos contra o crescimento desgovernado num planeta com recursos limitados, por cidades e países mais sustentáveis. Porque a necessidade é agir agora, organizaram uma série de debates onde a Mensagem participou.

Não são os únicos preocupados com o futuro: a Oficina do Cego, que mantém viva a tradição das técnicas das artes gráficas, está numa luta contra o esquecimento e em risco de perder o atual espaço, na Penha de França. O Álvaro Filho foi lá e trouxe a certeza de que não desistem – depois da reportagem já receberam algumas propostas para mudar de lugar.

E por falar no futuro, em Marvila, o Palácio Marquês de Abrantes, está a ganhar nova vida graças ao trabalho de reabilitação participativa promovida pela empresa de arquitetura ateliermob e pela cooperativa “Trabalhar com os 99%”. 

A Ana da Cunha passou lá a tarde a perceber tudo e, entre as várias voltas que o projeto já levou, o que parece agora certo é que edifício será dividido pelo Estado, pela comunidade de Marvila e por uma entidade que saiba gerir os diferentes usos, surgindo assim um espaço para a habitação, um espaço de coworking, um espaço com serviços da Junta de Freguesia e um espaço para associações de desenvolvimento local. 

Como dizia mais acima, Lisboa tem sido uma descoberta fascinante, um abre-olhos. Vejam a história que a Catarina Reis trouxe esta semana: uma casa ao abandono no bairro Padre Cruz, em Carnide, foi a solução que Ilda e Jorge encontraram para salvar mulheres com cancro da mama, que vieram de fora de Lisboa e sobretudo dos PALOP em busca de tratamento e apoio. Têm agora o sonho de ampliar o espaço e poderem dar resposta a mais mulheres vindas de longe. E pedem ajuda a toda a cidade. 

Nestes tempos difíceis, mas ao mesmo tempo de união e de atenção ao outro, queremos lembrar a quem quiser acompanhar que a cerimónia fúnebre em homenagem a Jorge Costa vai acontecer no próximo dia 17 de maio (terça-feira), pelas 9:30, no Crematório dos Olivais.

Jorge Costa foi o cronista que ao longo de 14 textos mudou a forma como muitos lisboetas olharam as pessoas em situação de sem-abrigo. Morreu no dia 20 de abril, vítima de um cancro que piorou com a chegada dele às ruas de Lisboa, sem teto.

Contamos convosco para continuarem a fazer parte desta comunidade da Mensagem. Por uma Lisboa melhor. Para todos.

Boa semana,

— Nuno Mota Gomes

PS 2 A Mensagem de Lisboa e a sua sede emocional, A Brasileira do Chiado, estão nomeadas para os prémios da AHRESP. Os nossos leitores podem votar online aqui.

PS 1 – No dia 26 de maio, vamos ter um novo passeio pelas ruas de Lisboa – desta vez quem nos guia é a jornalista e professora de história da moda, Maria João Martins. Já adivinharam, o tema é esse: a história da moda na cidade. Podem inscrever-se aqui.

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