Jorge Costa
Jorge Costa tornou-se cronista na Mensagem de Lisboa, onde durante um ano escreveu sobre a sua experiência enquanto sem-abrigo. Morreu a 20 de abril, no IPO, vítima do cancro que o afetou desde esses tempos.

A vereadora do Bloco de Esquerda na Câmara Muncipal de Lisboa, Beatriz Gomes Dias, fez aprovar, por unanimidade, um voto de saudação a Jorge Costa e às suas crónicas na Mensagem. O funeral acontece dia 17 de maio, no Crematório dos Olivais.

Este é o texto na íntegra:

“Faleceu no dia 20 de Abril Jorge Costa, contabilista, cronista no jornal a Mensagem de Lisboa e um observador da cidade e dos seus silêncios.

No passado dia 22 de abril, a Câmara Municipal aprovou um voto de pesar pelo seu falecimento, numa homenagem de Lisboa a este seu cidadão. Importa da mesma forma homenagear Jorge Costa pelas suas crónicas.

No último ano da sua vida, e através da escrita, constituiu-se como um valioso e pertinente intérprete, entre nós e as pessoas que, por qualquer vicissitude da vida, se encontram em situação de sem-abrigo. Sabia, porque se lembrava, como cada um de nós reage, como pensa, como finge não ver, como está tão longe de fazer a mais pequena ideia do que é estar nessa situação.

Também sabia, porque o viveu, o que é a luta pela sobrevivência na rua, a vergonha que é preciso perder para pedir…, como trespassam todos os olhares de desprezo ou as falsas morais de quem tem uma boa cama à espera.

Jorge Costa sabia, igualmente, quanto carinho se encontra nesta esquina, naquela noite fria ou num jardim que jamais será o mesmo do convívio antigo. Jorge Costa sabia o que custava perder a dignidade e teve a coragem de trazer para o domínio público essa experiência, o ser e o estar na primeira pessoa, em que qualquer protagonismo é sempre doloroso.

Abandonou-nos antes de tempo, de um tempo que se desejava mais longo, logo agora que tinha voltado a nascer há cerca de 2 anos. Data muito próxima da real data de aniversário, neste mês que vai entrar.

A mudança de ciclo de Jorge Costa que ele tanto procurava aconteceu em contexto de pandemia, num programa que deu resposta a muitas pessoas, no Pavilhão do Casal Vistoso, sob um plano municipal aprovado também por esta Câmara.

Jorge Costa mantinha a coragem todos os dias, lutando sempre pela sua dignidade mesmo quando dela prescindia. Amava Lisboa e captava a luz noturna, o silêncio nas noites em que novas paredes o apertavam, caminhando pelas ruas da cidade antiga e redescobrindo o prazer de se distrair. De não ter de estar sempre vigilante.

Travou amizades e escreveu-as.

A Câmara Municipal de Lisboa presta pública homenagem com às crónicas de Jorge Costa, histórias pessoais, de um corajoso contador das experiências. Que a partilha que fez nas muitas crónicas que escreveu em Diário de um Sem-Abrigo no jornal a Mensagem de Lisboa sejam para Lisboa, para cada um e cada uma de nós, um contributo que limpe o preconceito da nossa qualidade de ser solidário, para seremos maiores na cidadania.

Assim, perante o exposto e ao abrigo do disposto no artigo 8.º, do Regimento, temos a honra de propor que a Câmara Municipal de Lisboa delibere:

  1. Saudar as crónicas Diário de um Sem-Abrigo de Jorge Costa no jornal a Mensagem de Lisboa
  2. Editar as crónicas Diário de um Sem-Abrigo de Jorge Costa em papel para que fiquem como memória das pessoas esquecidas da cidade.

Lisboa, 11 de maio de 2022.

A Vereadora Beatriz Gomes Dias”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.