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Quando eu nasci, morávamos num andar bastante espaçoso da Avenida da República, que fora alugado pelo meu avô paterno com o objectivo de ali albergar toda a família.

O prédio era antigo e seria demolido uns dez anos depois; e o meu avô, não sendo velho, também já não era vivo no ano do meu nascimento. Porém, entre outras coisas, legou-nos uma herança singular: a obrigação de dar de comer, de quinze em quinze dias, a uma mulher pobre com vasta criação.

Mãe e filhos abancavam então à roda da mesa da cozinha quase sempre em dias certos. Nunca soubemos quem era o pai das crianças – a minha mãe desconfiava de que havia mais de um –, mas estávamos cientes de que se tratava de gente muito pobre pelos andrajos que traziam no corpo, por andarem sujos e praticamente descalços e, acima de tudo, pela voracidade com que comiam.

Nessa Lisboa cinzenta onde passei a infância, havia muita gente miserável pelas ruas: mulheres com xailes aos ombros e crianças pela mão que pediam esmola ou algo de comer; ceguinhos que ficavam sentados todo o dia numa esquina com um cofre de madeira ao pescoço onde deitávamos moedas; velhos curvados de mão estendida à porta das igrejas, sobretudo aos domingos, à hora da missa.

No colégio que eu frequentava, as freiras eram bastante progressistas (uma delas acabou, de resto, nas FP25): tinham tirado definitivamente o véu e abandonado o hábito até aos pés, trocando-o por roupa comum e saias ligeiramente abaixo do joelho. E, numa atitude não apenas cristã, de ajuda ao próximo, mas muito provavelmente também pedagógica e ilustrativa de que o mundo não era todo igual, levavam-nos de vez em quando a um bairro de lata próximo da Alameda para tomarmos contacto com a realidade dos desfavorecidos, a quem tudo faltava, da comida à higiene. (Nessas visitas, era entregue a uma jovem mãe um enxoval de bebé que, ao longo do ano, as freiras e as alunas internas faziam, bem como sacos com roupa e comida.)

No bairro, a construção era fragilíssima: as paredes eram tábuas de madeira atadas com cordas e, por cima, a servir de telhado, uma placa ondulada de zinco; o chão era de terra – as mais das vezes enlameado – e havia uma única divisão onde dormiam em enxergas adultos e crianças. Estas andavam pelo meio de nós encardidas, descalças e de rabo ao léu; e as nossas colegas mais velhas punham-lhes fraldas de pano trazidas do colégio, treinando para uma futura maternidade e apagando uma nudez que, nessa época, era indecorosa pelas razões erradas.

Quando, há muitos anos, já a trabalhar na edição, recebi o «meu» primeiro escritor estrangeiro em Lisboa – um jovem que vinha de um país frio e chuvoso –, ele pediu-nos que tirássemos uma tarde para irmos à praia. Porém, ao atravessarmos de carro a Avenida de Ceuta em direcção à ponte que nos conduziria à Caparica, não pude deixar de reparar no seu ar completamente chocado quando o Casal Ventoso e a encosta de Alcântara repleta de barracas e casas degradadas ocuparam o seu horizonte visual. Portugal já estava na Comunidade Europeia havia uns anitos, mas as mudanças ainda não eram visíveis. Tive vergonha daquela paisagem.

Graças aos executivos camarários de Jorge Sampaio e João Soares, o bairro foi desmantelado e os seus moradores realojados em prédios de betão – e o mesmo aconteceu em muitos outros lugares por esse País fora.

No entanto, ainda que os pobres tenham desaparecido das ruas da capital e o nível de vida tenha melhorado significativamente em relação à miséria a que se assistia na minha infância (sim, hoje só veste farrapos quem gosta da moda das calças esburacadas), temos ainda um quinto dos portugueses a viver no limiar da pobreza. Com a pandemia, a inflação e a guerra na Ucrânia, as coisas só podem piorar.

É, pois, preciso olhar com atenção para o que não está à vista.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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