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Era hora de almoço. Sandra Santos, 49 anos, estava prestes a conhecer a casa que a iria salvar. Corria janeiro de 2021. Não era só a casa que era nova: o bairro era novo, o país onde agora vivia era novo também. Tudo mudou desde que uma médica lhe diagnosticara um cancro da mama, em Cabo Verde.

Na casa nova, uma moradia branca térrea plantada no bairro Padre Cruz, em Carnide, esperava-a Bernarda Vitorino, com o almoço feito. Nunca se tinham conhecido, apenas partilhavam o mesmo diagnóstico clínico e, agora, a mesma casa. A casa que as salvou.

A cozinha encheu-se de cheiro a funje com ovo frito e espinafres que Bernarda cozinhou para as duas. Aquele almoço, lembra Sandra, foi como uma viagem de regresso à normalidade, à vida que ambas já não tinham, obrigadas a viver a quilómetros de distância das famílias.

Em Lisboa, recolhia-se os estilhaços de um terror que começou em Angola e Cabo Verde.

Numa rua com nome de rio, o Tejo, há uma casa que acolhe mulheres diagnosticadas com cancro da mama vindas de fora de Lisboa, a cidade onde encontraram tratamento. Chegam sobretudo dos PALOP (Países de Língua Oficial Portuguesa), mas também há quem venha de outros pontos do país. É hoje a morada de três mulheres: de Bernarda, que nem um diagnóstico encontrou em Angola; de Sandra, que recebeu um quando estava prestes a ser avó, um momento que acabou por perder; e de Antónia, que só em Lisboa encontrou a cura, mas para isso teve de viver na rua.

Este é um abrigo que nasceu da cabeça de um casal, Jorge e Ilda Silva, moradores no bairro onde a nova casa destas mulheres existe, o bairro Padre Cruz.

Foi depois de anos confrontados com as mazelas que um cancro provoca na vida e com quartos de hospital partilhados com outros doentes oncológicos, onde Ilda também se debateu com um cancro da mama, que quiseram preencher a falha. Decidiram dar casa a tantas mulheres que tinham de escolher entre ficar para sobreviver, mas viver na rua, ou regressar ao ponto de partida, sair de Lisboa e morrer.

A primeira inquilina

“Vim à procura da minha doença.” Ninguém procura doenças, a não ser que se viva num país onde muitas delas não são diagnosticadas e as dores teimam em alertar para algo de errado. Ninguém procura, mas Bernarda, 52 anos, teve de procurar.

Há três que aterrou em Lisboa, em busca de um diagnóstico. Em Angola, onde nasceu e cresceu, davam outros nomes para as suspeitas que lhe tiravam o sono: dermatite ou gordura a mais na mama. “Eu não acreditei no que me diziam lá.”

A teimosia meteu-a num avião em direção a Portugal.

De mão no rosto, para esconder as emoções, Bernarda Vitorino conta como foi o bairro Padre Cruz que a salvou. Foto: Rita Ansone

As mamas inflamavam de dia para dia e tomavam outra cor e textura, “como uma laranja”. Não era só pelo aspeto físico estranho. Além da estranheza daquilo que via, vieram também as dores e a febre.

“Então, os familiares contribuíram com a passagem de avião e vim para aqui.” Com uma filha pequena, de três anos, e o marido. Escolheu Portugal por ser o país, entre os que mostravam avanços no diagnóstico de cancro da mama, aquele com que partilhava a mesma língua. “Eu, que já estava confusa, ficaria mais ainda se não conseguisse perceber o que me diziam.”

Em Angola, diz, “é como se esta patologia fosse nova”. “Podíamos morrer de outras causas, mas nunca de cancro de mama, porque não é diagnosticado. Se eu não viesse, não estaria aqui, estaria morta. E a minha filha pequenina, que hoje faz sete anos, não teria mãe.”

Mas Bernarda estava longe de imaginar a maratona que tinha pela frente, mesmo num país desenvolvido. “A minha salvação foi uma enfermeira.”

Saltou de hospital em hospital, para pedir um diagnóstico e, depois, um tratamento. “Foi demorado, porque eu vim à revelia, sem relatório médico do meu país. Quando se vem para Portugal por conta própria, mais difícil é.”

“Íamos voltar para eu ir morrer a Angola, à minha terra.”

BERNARDA VITORINO

A última paragem foi o Hospital da Luz, onde mais uma vez lhe estava a ser negado acesso. E onde Bernarda não podia pagar os tratamentos. Comprou os bilhetes de regresso a casa. “Íamos voltar para eu ir morrer a Angola, à minha terra.”

Já lá iam semanas de tentativas falhadas, uma dor na mama ainda sem explicação, a estadia numa casa onde os anfitriões lhes escondiam a comida, e uma pensão que encarecia a cada dia que passava. Habitar em Lisboa, aos preços hoje praticados, estava fora das possibilidades de Bernarda e do marido.

Emília Vieira é uma das maiores referências nacionais no tratamento de cancro da mama. Foto: site Faculdade de Medicina de Lisboa

Até que uma enfermeira chamada Marisa, do Hospital da Luz, mudou o rumo da vida desta mulher. “Ela viu que ou me ajudava ou eu ia morrer.” Agarrou no telemóvel e digitou o número de uma cirurgiã oncológica, há mais de 30 anos com experiência em casos de cancro da mama: Emília Vieira, também presidente da Associação Amigas do Peito.

Do outro lado da linha, chegou a certeza de um sítio para ficar e sobreviver. Neste momento, ainda sem que Bernarda Vitorino o soubesse, a necessidade que tinha cruzava-se com a missão de vida de um casal residente na freguesia lisboeta de Carnide.

O marido e a filha regressaram a Angola e Bernarda levou as malas para a nova casa: uma pequena moradia de paredes brancas num bairro do qual nunca tinha ouvido falar, em Carnide.

Bernarda foi a primeira inquilina a chegar.

Um rasgo de inspiração na TV

“O primeiro telefonema que eu faço é para o Jorge e para a Ilda”, na altura dois meros moradores do bairro Padre Cruz, lembra Bernarda. Eram mais do que isso: os obreiros desta missão que deu uma casa a Bernarda. “Liguei e perguntei: ‘É a empregada da casa?’. Nunca mais me vou esquecer da resposta dela: ‘Não, eu sou ajudante.'”

“Ajudo a cuidar”, remata agora Ilda.

Ilda é uma das guardiãs desta casa, onde vê mulheres a enfrentar uma luta que já foi dela também. Foto: Rita Ansone

Diz Bernarda que “a experiência que ela transmitiu” foi salvadora. Ela, Ilda, também tinha sido diagnosticada com cancro da mama em 2018 e passou dois anos em tratamento.

A ideia desta casa surgiu nos piores dias desta luta. “Começou tudo no hospital de Santa Maria, onde estava também uma menina de 30 e poucos anos, angolana, que até me tratava por mãe, que também tinha cancro da mama. Vivia ali no Barreiro com uma irmã que veio com ela, para a acompanhar nos tratamentos, e tinha dificuldades em pagar as despesas, porque não trabalhava”, recorda.

Esta “menina” chamava-se Cátia e conta uma história semelhante à de Bernarda. Ambas chegadas de um país sem recursos suficientes para tratar a doença e que nem disponibiliza financiamento para tratamentos no estrangeiro. “O único país que ainda apoia é Cabo Verde”, diz Jorge Silva. “E a Guiné não tem nem um mamógrafo.”

Terá sido na televisão que Jorge encontrou parte da solução para a sobrevivência destas mulheres. Estava em casa, a olhar para o televisor e, pela primeira vez, este roubou-lhe a atenção sem que uma bola estivesse a rolar num relvado. Nas imagens, uma cara familiar: a da cirurgiã Emília Vieira, médica da mulher, Ilda. Falava como representante da Associação Amigas do Peito, da qual este casal se tornou associado, e da necessidade de apoiar pessoas de fora de Lisboa, sobretudo dos PALOP’s, que andavam a fazer tratamento para o cancro da mama e não tinham alojamento.

Um dia, em frente a uma TV, Jorge e Ilda, casal de moradores no bairro Padre Cruz, Carnide, encontraram a salvação para estas mulheres. Foto: Rita Ansone

Na cabeça de Jorge e Ilda, já se formava o mapa de Lisboa, os possíveis cantos e recantos que poderiam servir de casa a estas mulheres. Não precisaram de ir muito longe na imaginação: no bairro Padre Cruz, uma pequena moradia da Gebalis e cedida à Paróquia, lá jazia, sem ninguém para a habitar. Foi pensada para servir de habitação ao pároco, mas isso nunca aconteceu.

A paróquia não viu melhor utilidade do que esta. Seguiram-se umas obras, doaram-se móveis. O que era gás passou a elétrico e o que antes era sala transformou-se num quarto com duas camas. Aqui, passavam a caber três pessoas.

Jorge e Ilda lançaram o repto à cirurgiã Emília Vieira e a associação a que preside prontificou-se a tornar esta a sua casa de acolhimento oficial e a assumir os custos de manutenção. Já as despesas gerais da habitação (como renda, água e luz) são suportadas pela Junta de Freguesia de Carnide.

Mas o bairro todo escolheu fazer parte desta missão também. A Associação de Moradores disponibiliza os serviços da lavandaria e engomadoria solidária. E jantares a um preço simbólico.

Para cá viverem, só é requerida uma condição: que sejam pessoas autónomas, capazes de cuidar de si.

Em Portugal, diagnosticam-se cerca de seis mil novos casos por ano de cancro da mama, mais comum entre as mulheres. Destas, 1500 morrem vítimas da doença. Mas a taxa de mortalidade tem vindo a diminuir ao longo dos anos.

De Cabo Verde, com 18 euros por dia

Quase um mês depois de Bernarda Vitorino assumir esta pequena casa como porto-seguro, chegou Carla. A segunda mulher a vir para aqui morar, chegada de Castelo Branco e com quem Bernarda se debateu inicialmente devido à estranheza resultante da diferença da cor de pele de cada uma. Hoje são grandes amigas. Um leque a que se juntaram Sandra e Antónia, as outras duas mulheres que partilham atualmente esta casa.

Nem uma nem outra vieram nas mesmas condições de Bernarda. Sandra e Antónia eram de Cabo Verde e, por isso, trouxeram a esperança de um país que lhes permitia circulação aberta pelos hospitais públicos portugueses, acesso a cirurgiões e exames oncológicos, através de um acordo celebrado entre os dois países. Além de um subsídio de 18 euros por dia.

“Eu gostava é de saber como é que se sobrevive com isto em Lisboa”, diz Sandra, 49 anos.

Sandra Silva estava prestes a começar um novo e entusiasmante capítulo da vida quando foi surpreendida com o diagnóstico de cancro da mama. Foto: Rita Ansone

Na altura em que descobriu o cancro, vivia na capital de Cabo Verde, mas “já a arrumar bagagem para ir para São Vicente”, a ilha onde cresceu. Com outros planos, com outros projetos… “não deu”. “Tinha terminado um projeto em que trabalhava para o Estado de Cabo Verde e ia começar um outro em São Vicente. Já não deu. Fui na mesma, para casa, já com o diagnóstico” – cancro da mama.

As suspeitas levantaram-se num dos mais simples atos do dia-a-dia: enquanto fazia uma depilação na axila. “Como estava gordinha, fazia a depilação com o puxar da gordurinha, para facilitar. A minha filha estava a ajudar e notou que estava ali qualquer coisa. Eu pensei logo que aquilo era sinal de chatice.”

Ao contrário do que aconteceu com a amiga Bernarda, Sandra tinha condições em Cabo Verde para um primeiro diagnóstico. Embora faltassem aos hospitais exames que permitissem aferir exatamente que cancro a estava a matar.

A primeira conversa em consultório sentiu-a como uma declaração de óbito. “Quando me disseram que eu tinha cancro da mama, eu acreditei que era o fim. Dizem-te que tu tens cancro e só pensas na morte”, desabafa hoje esta mulher com rosto de esperança. O que pensou em tempos mudou com a vinda para Portugal, onde veio ser tratada por Emília Vieira, “muito conhecida lá em Cabo Verde, por já ter tratado muitas pessoas”.

“Limpei a casa toda, mesmo operada, cheia de dores, para lá morar. Mas não conseguia ficar lá sozinha. Todos os dias, ia dormir a casa da vizinha.”

ANTÓNIA RODRIGUES

Já Antónia Rodrigues, 49 anos, andava por Portugal, vinda da ilha de Santo Antão, vizinha à de Sandra, em 2018. Mãe de nove filhos, o mais pequeno agora com dez anos, chegou sem companhia. Sabia apenas que o cancro não a podia matar e, por isso, pediu abrigo na casa da sobrinha, no Barreiro. Sem saber que quem lhe deu teto tão rapidamente também a poria a dormir sob as estrelas.

“Passei muito lá. Como ela tinha os seus filhos, eu tinha de ir ao hospital todos os dias sozinha. Ela expulsou-me da casa dela e eu fiquei quatro dias na rua, só eu e as minhas coisas. Debaixo das escadas da vizinha, a chorar”, suspira.

Antónia Rodrigues viveu quatro dias na rua e passou pela dor de viver anos longe dos nove filhos para conseguir salvar-se. Foto: Rita Ansone

Ali, cruzou-se com um pastor de uma igreja do Barreiro, que lhe perguntou a razão das lágrimas que ela não conseguia fazer secar. “Fez-me uma oração e, naquela hora, apareceu uma senhora. ‘Não é para chorar, porque eu já sei onde é que você vai morar’.” Na casa de um homem, que residia em Inglaterra e tinha ali uma casa fechada a sete chaves. “Limpei a casa toda, mesmo operada, cheia de dores, para lá morar. Mas não conseguia ficar lá sozinha. Todos os dias, ia dormir a casa da vizinha.”

Com os filhos longe e um possível regresso ainda mais longe da vista, Antónia diz ter passado os dias em choro. “As saudades, as saudades.” Não curavam, só faziam doer mais o que estava a enfrentar: além de um cancro, o tumulto de não saber se havia dinheiro para sobreviver amanhã.

Afinal, recebia 370 euros da embaixada de Cabo Verde, aos quais subtraía 240 para a renda da casa e 50 para a compra de medicamentos para diabetes, colesterol e tensão alta. Sobravam 80 euros mensais para a alimentação e transportes. Sobravam, mas nunca chegaram.

“Fui ao hospital, falei com a dra. Emília, expliquei o que estava a passar e cheguei à Ilda e ao Jorge. Esta casa salvou-me.” Porque nem para ir morrer a casa Antónia tinha dinheiro.

Estas mulheres encontraram umas nas outras a força de que precisavam. Acompanham-se em tratamentos e nas saudades que têm da família. Foto: Rita Ansone

“Nunca quis morrer fora de Cabo Verde. Nunca.” Sandra é perentória nas vontades próprias. Mas, 16 sessões de quimioterapia, 30 de radioterapia e uma operação depois, está em fase de remissão e a morte já não é tema tão premente como foi.

Tudo por causa desta casa.

De repente, esta pequena moradia antes sem vida dentro tornou-se a salvação de mulheres que não esperavam mais do que morrer. E encontraram umas nas outras o que não esperavam. Quando uma ia para tratamento, as outras seguiam-na. Sabem como é duro passar um dia ligado a máquinas, horas a fio sentadas numa cadeira e a tentarem salvar-se.

Bernarda foi a primeira a chegar e é uma das mulheres que mais cozinha nesta casa. Foto: Rita Ansone

O companheirismo estende-se ao casal Jorge e Ilda, “a família” que elas ganharam por aqui e que “não deixa que nada falte”. Jorge até já ganhou uma representação espiritual para estas mulheres. Diz Bernarda que é “o salvador” delas e, por isso, é o São Jorge da Capadócia, “o rei que salva muita gente”. Fala ela de um soldado romano, mártir cristão e um dos maiores heróis do Catolicismo.

Mas também a própria cirurgiã Emília Vieira entra no retrato de família. Não se importa de esbater as paredes entre médico e utente para cá vir de vez em quando e testar outra cura: a conversa e o abraço. “Falamos de projetos de vida, coisas do dia, ideias para ampliar a casa. É bom, porque sais daquele mundo de terror”, conta Sandra.

Um acordo caducado e tantos planos

Todas elas estão hoje fora de perigo maior: o cancro está em remissão. Sabem que é um prognóstico incerto, sobretudo num prazo de cinco anos após o início da remissão, altura em que a doença pode voltar a manifestar-se. E, por isso, fazem dos exames de controlo a sua vida.

O protocolo que Sandra e Antónia usufruem entre Cabo Verde e Portugal prevê apenas três anos de financiamento. Mas Antónia está agora na corda bamba: o financiamento terminou a 28 de fevereiro, sem pré-aviso. E ainda há uma operação por fazer, depois de lhe ter surgido uma anomalia física fruto da doença.

Antónia preparava-se para as primeiras consultas antes da cirurgia, mas vê-se em Lisboa sem dinheiro. Por ter sido trabalhadora independente, sem descontos, nem de uma baixa comparticipada Antónia pode usufruir. “Enquanto aqui está, tinha este subsídio. Lá, não tem nada”, diz Jorge Silva, que está em contacto com a embaixada para descobrir uma alternativa viável à sobrevivência financeira de Antónia.

Jorge, Ilda e até a cirurgiã Emília Vieira são visitas frequentes nesta casa. Foto: Rita Ansone

A precisar de um futuro mais seguro está também esta casa, que Jorge e Ilda têm o sonho de ampliar, para dar resposta a mais mulheres vindas de longe. Às ambições, o casal junta a ideia de abrir um segundo andar para jovens estudantes de medicina de fora de Lisboa que, ali, aprenderiam mais sobre a doença e a arte de cuidar. Ao mesmo tempo que davam alojamento a novos estudantes à procura de casa ou quarto, permitia-lhes estar num ecossistema de aprendizagem constante e real e, às mulheres, um suporte ainda maior.

Mas o financiamento atual não basta para tantos sonhos. O apelo é agora feito a toda a cidade, a quem possa ajudar a construir este futuro.

Leia aqui os direitos e deveres de um doente oncológico


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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