De cada vez que ouço as músicas e vejo as imagens daquela manhã, daquele dia, e ouço a voz de Joaquim Furtado, o jornalista que às 04h26 leu o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA) naquele 25 de Abril de 1974, a apelar a que os portugueses ficassem em casa, há uma emoção que me invade e não consigo conter, por mais vezes que oiça e que veja. Queria ter estado lá, mas não nasci a tempo. Como a Maria Jorgete, o João, o Manuel, a Luísa e a Lurdes.

Às 22h55 de dia 24, os Emissores Associados de Lisboa passaram a canção E Depois do Adeus, na voz de Paulo de Carvalho. Estava dada a senha. Às 00h20 de 25 de Abril, na Rádio Renascença ouviu-se Zeca Afonso cantar a Grândola Vila Morena. Era o sinal. A revolução que derrubaria 48 anos de ditadura estava em marcha.

Na cidade de Lisboa, muitos não ficaram. O que os fez sair? Como foi aquela manhã? O que viram nas ruas e nas caras uns dos outros? Que ambiente se vivia na cidade?

Eu estava na barriga da minha mãe, de onde só saí dois meses depois. E, por isso há anos que aproveito o facto de ser jornalista para colar os meus olhos e ouvidos aos daqueles que saíram à rua e viveram e sentiram e tomaram parte daquele dia inicial. Juntei dezenas de testemunhos desde então. E volto a fazê-lo para esta série, a nova da Mensagem, nos 50 anos do 25 de Abril.

A ideia partiu de uma das canções mais bonitas sobre Lisboa, Lisboa que amanhece, de Sérgio Godinho. Porque foi o que aconteceu naquele dia. Lisboa amanheceu e fez amanhecer o país todo. Esta série, concretizada por mim, Catarina Pires, e pela Inês Leote, dá-nos a conhecer vários testemunhos sobre essas primeiras horas de Liberdade.

Veja aqui o trailer:

Os testemunhos das primeiras horas do 25 de Abril de 1974:

Foi um amanhecer estranho para Maria Jorgete Teixeira, 73 anos, hoje professora aposentada, escritora e ativista pelos direitos das mulheres e todas as causas que considera justas. Naquela altura, vivia no Lumiar e estava envolvida nos movimentos antifascistas e nas lutas estudantis na Faculdade de Direito de Lisboa, curso que depois de Abril haveria de trocar pelo de Letras. Tinha uma filha pequena e estava grávida de sete meses da segunda filha, o que não a impediu, depois de uma espera que se tornou insuportável, de ir para a Baixa de Lisboa, onde percebeu que a Liberdade tinha saído à rua. Finalmente.

João Gonçalves, 76 anos, era então interno no Hospital de São José e foi um dos médicos a responder ao apelo do MFA. A noite de 24 de Abril tinha-se estendido pela madrugada de 25 à conversa com amigos em casa. Falhou o primeiro comunicado do MFA, mas pouco depois de se deitar, por volta das seis, um dos amigos ligou-lhe a dizer que tinham de ir para o hospital porque havia uma revolta em curso. As ruas desertas levaram-no em pouco tempo a São José, onde os doentes estavam todos à janela. Quando se assegurou de que a sua presença já não era necessária no hospital foi para a rua, onde viveu dois dias que nunca vai esquecer.

Manuel Augusto Araújo, arquiteto, então com 29 anos, hoje 80, vivia num prédio da Penha de França, onde era vizinho (e amigo) de vários destacados antifascistas. Ele era militante do Partido Comunista Português. Havia um pide sempre à porta. Na madrugada de 25 de Abril, aí pelas cinco, um amigo telefonou-lhe. Tinha ouvido o primeiro comunicado do MFA. Foram logo para o Rádio Clube Português, mas não conseguiram entrar. O ar “simpático” dos militares tranquilizou-os (constava que o general Kaúlza de Arriaga ia fazer um golpe de extrema-direita). Desceram à Baixa e depois subiram ao Carmo, num movimento estonteante, como a euforia que se vivia nas ruas.

Luísa Ramos era hospedeira da TAP, tinha 25 anos, hoje 75, e, no dia 25 de Abril de 1974, partia para Roma e Atenas, numa lua de mel adiada pela guerra. O marido, com quem casara em fevereiro de 1973, tinha regressado do Ultramar a 14 de Abril. Ia num avião que vinha de Joanesburgo de madrugada e às cinco da manhã ligou para as colegas no aeroporto para saber se o voo partia a horas. Responderam que não sabiam, que fosse ouvir a rádio. Pensou que estavam a pregar-lhe uma partida. Telefonou para outro serviço e a mesma resposta. Até que ligou, finalmente, a rádio. Numa casa onde sempre foi viva a luta contra a ditadura, a euforia foi imediata.

Lurdes Fernandes, 74 anos, tinha 24 e era bancária. Sabia que alguma coisa estava para acontecer, só não sabia ainda é que essa coisa seria linda como foi aquela manhã e aquele dia que começou com a chegada ao banco onde trabalhava. Inquietação. Inquietação. Alguma coisa estava mesmo a acontecer. Ela e os colegas fecharam o banco e foram para a rua. Baixa de Lisboa. Largo do Carmo. A cidade ganhava outras cores e Lourdes lembra-se da inquietação e da alegria.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.


Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 23, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. É fotojornalista e responsável pelas redes sociais na Mensagem.


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