Às quatro e vinte seis da madrugada de 25 de Abril de 1974, a voz segura de Joaquim Furtado lê, aos microfones do Rádio Clube Português, e ao país, o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA). A essa hora Rui Félix Amado estava em Coimbra, a dormir. Tinha três anos e daí a pouco teria de acordar para ir com os pais a Lisboa. O pai tinha uma reunião de trabalho e a mãe aproveitava a viagem para levar o filho ao Jardim Zoológico.
O testemunho de Rui Félix Amado, hoje com 53 anos, é o sexto da série “Lisboa que Amanhece”, que pediu o título emprestado a uma das canções mais bonitas sobre Lisboa, da autoria de Sérgio Godinho. Porque foi o que aconteceu naquele dia. Lisboa amanheceu e fez amanhecer o país todo.
Veja aqui o sexto episódio:
Do início daquela manhã, Rui Félix Amado, então com três anos, lembra-se pouco. Tem uma ideia de silêncio, vazio, ausência de movimentação, “como se fosse um domingo de manhã”.
O pai tinha uma reunião de trabalho importante na sede da empresa em que trabalhava, situada na rua da Madalena. Estacionou o carro no Campo das Cebolas e Rui e a mãe apanharam o metropolitano para o Jardim Zoológico.



Quando ninguém lhe abriu a porta, após várias tentativas infrutíferas, percebendo que alguma coisa de estranho se passaria, o pai de Rui foi buscar a mulher e o filho ao Jardim Zoológico. E foi no regresso, no caminho entre o Rossio e o Campo das Cebolas, que as primeiras memórias conscientes de Rui foram vividas.
O silêncio interrompido por uma rajada de tiros, que Rui supõe hoje que terá sido a disparada no Largo do Carmo, contra o quartel da GNR. O susto dos pais, a calma dele e o refúgio numa sapataria da Rua da Prata, onde um conjunto de pessoas se reunia à volta de um rádio.
Memórias vívidas que o marcaram para sempre.
Ter estado no centro dos acontecimentos da revolução que mudou Portugal e derrubou a ditadura, aos três anos, e ter o 25 de Abril de 1974 como primeira memória consciente, tornou tudo o resto relativo. “Conheci dois prémios Nobel, contactei com pessoas muito importantes de diversas áreas e habituei-me a encarar isso com normalidade e para isso contou o facto de ter o 25 de Abril como minha primeira memória”, diz Rui Amado, cujo trabalho e intervenção cívica o levou a desenvolver grandes afinidades com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e com Timor.

A herança familiar é de direita. O avô, combatente na Primeira Grande Guerra, era monárquico e salazarista, o pai, não se identificando com a ditadura e tendo visto o 25 de Abril como um acontecimento positivo, não apoiou muitas das mudanças operadas pelo PREC (Processo Revolucionário em Curso), o que o levou, em democracia, a ele e à mulher, a serem votantes do CDS.
O jurista de 53 anos, ele próprio “de direita e visceralmente liberal”, faz questão de dizer que tem, no entanto, entre os melhores amigos gente de esquerda. Sem envolvimento político ativo, aposta na intervenção cívica e cultural e desce todos os anos a Av. Sá da Bandeira, em Coimbra, para celebrar o 25 de Abril.
“Embora se tenha a revolução como património da esquerda, o 25 de Abril é de todos, foi de todos”, diz Rui Félix Amado, que aos três anos o viveu de muito perto.
“Lisboa que amanhece”: a série da Mensagem de Lisboa nos 50 anos do 25 de Abril
Às 22h55 de dia 24 de abril de 1974, os Emissores Associados de Lisboa tinham passado a canção E Depois do Adeus, na voz de Paulo de Carvalho. Estava dada a senha. Às 00h20 de 25 de Abril, na Rádio Renascença ouviu-se Zeca Afonso cantar a Grândola Vila Morena Era o sinal. A revolução que derrubaria 48 anos de ditadura estava em marcha.
E apesar de às 04h26 o primeiro comunicado do MFA ter apelado a que os portugueses ficassem em casa, na cidade de Lisboa, foram muitos os que não ficaram. O que os fez sair? Como foi aquela manhã? O que viram nas ruas e nas caras uns dos outros? Que ambiente se vivia na cidade?
Foi isso que procurámos ir buscar ao passado e tornar presente nesta série sobre as primeiras horas de liberdade naquele dia inicial de há 50 anos.
O 25 de Abril de 1974.
REVEJA AQUI OS OUTROS EPISÓDIOS DA SÉRIE “LISBOA QUE AMANHECE”:

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

Inês Leote
Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 23, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. É fotojornalista e responsável pelas redes sociais na Mensagem.

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