Às quatro e vinte seis, e não às quatro, como previa o plano de operações militar, devido a um atraso na tomada do Aeroporto de Lisboa, a voz segura de Joaquim Furtado lê, aos microfones do Rádio Clube Português, e ao país, o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA). Na madrugada de 25 de Abril de 1974, Luísa Ramos não tinha o rádio ligado. Estava a preparar-se para sair para o aeroporto de onde finalmente partiria para Roma e Atenas, para uma lua de mel já antes adiada pela guerra. Mas, horas depois, estaria a distribuir omeletes pelos soldados da revolução que punha fim à ditadura, no Cristo Rei.
O testemunho de Luísa Ramos, hoje com 75 anos, é o segundo da série “Lisboa que Amanhece”, que pediu o título emprestado a uma das canções mais bonitas sobre Lisboa, da autoria de Sérgio Godinho. Porque foi o que aconteceu naquele dia. Lisboa amanheceu e fez amanhecer o país todo.
Veja aqui o segundo episódio:
“Ó Luisinha, vai ouvir a rádio”
O então marido, com quem casara em fevereiro de 1973, tinha regressado do Ultramar a 14 de Abril. Luísa Ramos, 25 anos na altura, era hospedeira da TAP, e antes de sair de casa queria certificar-se de que o avião partiria a horas.
“Íamos num avião que vinha de Joanesburgo de madrugada e eu às cinco da manhã liguei para as minhas colegas no aeroporto para saber se o voo estava no horário. Responderam-me que não sabiam, que fosse ouvir a rádio. Pensei que estavam a pregar-me uma partida.”
Telefonou para outro serviço e o mesmo tom: “Ó Luisinha, vai ouvir a rádio”. Desesperou. “Achei que estava tudo avisado e, portanto, liguei para o representante da South African [Airways], um senhor muito sério que nunca entraria numa brincadeira daquelas. Expliquei-lhe que tinha um bilhete para Roma e Atenas e que ninguém me dava informação nenhuma. E ele: ‘já ouviu a rádio? Ligue o Rádio Clube Português'”.


Ligou, finalmente, o rádio.
“Só dava música clássica. Pensei: queres ver que morreu o Caetano [Marcello Caetano, presidente do Conselho, sucessor de Salazar]?” Não, mas era como se tivesse morrido. A notícia das movimentações militares veio pouco depois, com o comunicado do MFA.
Numa casa onde sempre foi viva a luta contra a ditadura, a euforia foi imediata. “O meu pai até dançou de pijama, deu-me um abraço e foi-se embora. Naquele dia nunca mais o vi.”




Um 25 de Abril entre as duas margens
Luísa Ramos, que depois do 25 de Abril viria a ser durante muitos anos dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos (SITAVA), tinha esquecido a lua de mel e estava a arranjar-se para ir para a rua quando alguém que sabia a que portas bater, lhe bateu à porta com a informação de que era preciso ir dar apoio aos soldados estacionados no Cristo Rei.
Luísa adiou também a festa e preparou café e umas celebradas omeletes de queijo, para levar aos militares.
Depois, passou o dia em Almada, uma cidade com grande tradição de luta contra o fascismo, e foi para o Largo do Carmo. Foi dia de chorar de alegria e abraçar amigos e camaradas. “Foi como uma panela de pressão a que se tira a tampa. Foi inesquecível.”
A lua de mel ficou para depois. Para depois de maio.
“Lisboa que amanhece”: a série da Mensagem de Lisboa nos 50 anos do 25 de Abril
Às 22h55 de dia 24 de abril de 1974, os Emissores Associados de Lisboa tinham passado a canção E Depois do Adeus, na voz de Paulo de Carvalho. Estava dada a senha. Às 00h20 de 25 de Abril, na Rádio Renascença ouviu-se Zeca Afonso cantar a Grândola Vila Morena Era o sinal. A revolução que derrubaria 48 anos de ditadura estava em marcha.
E apesar de às 04h26 o primeiro comunicado do MFA ter apelado a que os portugueses ficassem em casa, na cidade de Lisboa, foram muitos os que não ficaram. O que os fez sair? Como foi aquela manhã? O que viram nas ruas e nas caras uns dos outros? Que ambiente se vivia na cidade?
Foi isso que procurámos ir buscar ao passado e tornar presente nesta série sobre as primeiras horas de liberdade naquele dia inicial de há 50 anos. O 25 de Abril de 1974.
Reveja o primeiro episódio da série “Lisboa que Amanhece”:

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

Inês Leote
Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 23, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. É fotojornalista e responsável pelas redes sociais na Mensagem.

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