Foi um dia para lá de revolucionário. Durante duas horas, alguns leitores da Mensagem passearam por seis séculos de história de uma Lisboa em Revolução, o título da exposição em cartaz no Museu de Lisboa, no Palácio Pimenta, e percorreram seis momentos onde os lisboetas se uniram para bradar e lutar (e até atirar alguns desafetos pela janela), em nome da liberdade.

Uma viagem pelas agitações de 1383, desde quando os lisboetas resistiram às investidas espanholas e mantiveram um rei português no seu devido trono, até 1974, no inesquecível 25 de Abril que inundou as ruas de cravos vermelhos e de liberdade.
Este projeto de investigação é em parte inédito: curado por Paulo Almeida Fernandes, é a primeira vez que, num só espaço, se reúnem todos os momentos considerados revolucionários da história da cidade.
O passeio começa diante de um imenso mapa de Lisboa, por onde o comissário da exposição, Daniel Alves, traça a georeferência das seis revoluções do tour que percorre em cerca de duas horas seis séculos de história, circunscrita entre o Terreiro do Paço e o Marquês, e a Sé de Lisboa e a Assembleia da República.
Daniel Alves não é um guia comum. Historiador e investigador do Instituto de História Contemporânea da Nova FCSH, o comissário além de saber do que fala, conduz o passeio com bom-humor, numa espécie de jogo onde vai deixando pistas para que os participantes descubram pormenores dos bastidores das revoluções.

Os lisboetas contra os espanhóis
A primeira sala tem como anfitrião a estátua equestre de D. Nuno Alves Pereira, um dos personagens da Revolução de Avis, ocorrida após o rei D. Fernando I morrer sem deixar um herdeiro varão. Para piorar, a única filha, a princesa Beatriz, tinha casado com o rei de Castela, o que precipitou a vontade dos espanhóis em reclamar o trono português.
Após um cerco a Lisboa, que resistiu por três anos à investida, com direito a um surto de peste nas hostes espanholas, os vizinhos invasores foram vencidos na célebre Batalha de Aljubarrota, em 1385. Por essa altura, os revolucionários em Lisboa já tinham decidido que seria o Mestre de Avis quem sentaria no trono, coroado D. João I de Portugal.
As cenas do cerco e da batalha estão ilustradas em dois quadros e uma ampliação de um desenho da Sé de Lisboa – por onde o padre (para azar dele, espanhol) foi atirado pela janela após se recusar a tocar os sinos que convocariam os revolucionários à rua.
A revolução seguinte, mais de um século depois, também teria direito ao seu defenestrado. O movimento desta vez reconduziu um rei português ao trono, ocupado pelos sucessivos Filipes I, II e III após o desaparecimento de D. Sebastião em 1578.

A Restauração ocorreu a 1 de dezembro de 1640, quando 120 revolucionários invadiram o Paço da Ribeira, em Lisboa, e prenderam a Duquesa de Mântua, vice-rainha e a serviço de Espanha. Já o secretário-geral, Miguel de Vasconcelos, teve pior sorte.
Como parecia ser moda nas revoluções da época, Miguel de Vasconcelos foi alvejado e, não satisfeitos, os revolucionários ainda o atiraram pela janela. Um imenso armário datado de 1640 domina o espaço, pois seria num móvel semelhante que o secretário-geral teria se escondido dos lisboetas em fúria.
A voz do povo chega ao poder
As duas próximas revoluções do passeio estão ligadas entre si e separadas por menos de duas décadas. Em 1820, com a Corte no Brasil, os liberais da época decidiram instalar a república em Portugal. A chamada Revolução Liberal costuma estar identificada no Porto, mas Lisboa também ferveu durante o período.
A 15 de setembro daquele ano, um movimento de oficiais, com apoio popular e da burguesia, depôs os regentes e constituiu um governo interino. A corte voltaria um ano depois do exílio no Rio de Janeiro, mas era tarde: em 1822, foi promulgada a primeira Constituição Portuguesa, dando voz ao povo português.

A sala traz uma pérola da comunicação da época: uma espécie de bisavô do telégrafo, que através de um jogo de espelhos para refletir a luz do sol, combinado com um telescópio de longa distância, levava mensagens por Portugal fora, fazendo com que as notícias entre Lisboa e o Porto, e vice-versa, levassem sete horas para ser transmitidas.
A voz do povo português, porém, por pouco não foi silenciada em 1836. Mais precisamente em setembro daquele ano, quando os revolucionários reagiram à intenção de D. Pedro IV em dar marcha-atrás e promulgar a Constituição. Os chamados setembristas, porém, reagiram a tempo e conseguiram manter o texto original de 1822.
Contra os velhos inimigos da República
Revoluções, agora, só no século XX. E logo no início, em 1910. Uma metralhadora e a bandeira dos carbonários dão as boas-vindas a um salão oval, onde reina não um rei, mas uma miniatura do navio Adamastor. Dos canhões do cruzador, foram atiradas as balas que alvejaram a monarquia em Portugal.

Por entre os disparos do Adamastor, no dia 5 de Outubro, os lisboetas subiram às varandas do Paços do Concelho, em Lisboa, não para atirar alguém por uma janela, mas para gritar a plenos pulmões “viva a República!“.
Além de uma voz, a República tinha um rosto e uma imensa foto traz uma rapariga ainda jovem que posaria como modelo para as estátuas que representariam a a efígie de uma república que, pouco tempo depois, seria escrita por quase meio-século assim, com “r” minúsculo – após o Estado Novo usar os canhões, agora para silenciar o povo.
A última sala do passeio começa com uma cadeira, o mobiliário uma presença constante em toda exposição, pois o assento vazio, seja num imponente trono ou numa prosaica espreguiçadeira, é um sinal de alerta revolucionário.
O espaço dedicado ao 25 de Abril foi o mais emocionante do passeio para os leitores da Mensagem, muitos deles testemunhas da última revolução em solo lisboeta.
A exposição traz uma relíquia: um mapa que permaneceu anos escondido dentro de um velho livro, com o passo a passo dos revolucionários, incluindo o contacto telefónico do Capitão (Salgueiro) Maia e de outros.
À saída, avista-se uma cabine de votação. O voto o resultado direto do 25 de Abril, um direito no qual os visitantes são convidados a exercer, num pleito simbólico para se decidir não por partidos políticos mas, entre os temas cruciais da democracia, qual o mais importante: a ameaça à liberdade, a perda da independência, o combate à desigualdade, a conquista da democracia, a luta contra a pobreza, a falta de direitos no trabalho, o direito à habitação ou a emergência climática.
O resultado parcial dessa eleição revolucionária será dado em meados de outubro. A exposição, por sua vez, segue até 5 de janeiro, com passeios regulares e visitas guiadas.

Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
✉ alvaro@amensagem.pt

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