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No início da Rua da Junqueira, em Belém, deixou de existir via BUS, obrigando elétricos e autocarros da Carris a competir pelo espaço com o restante tráfego rodoviário. Foto: Inês Leote

Neste troço a rua da Junqueira, onde antes se lia BUS, em letras garrafais desenhadas no alcatrão, está agora tinta preta. Foi eliminada a faixa exclusiva para transportes público no sentido poente-nascente do troço com início junto ao cruzamento da Rua da Junqueira com a Calçada da Ajuda. A prioridade dada ao transporte público foi retirada, após vários anos de vigência do anterior esquema de circulação. Ou seja: o compromisso de Lisboa com os transportes públicos esta semana andou para trás uns metros.

Aqui, há vários anos a prioridade era dada aos veículos de transporte coletivo no sentido do centro da cidade a partir das zonas de Algés, Belém e Restelo, diariamente, entre as 7 horas e as 21 horas – com exceção para o acesso a garagens.

O que representava uma continuidade num dos eixos fundmentais de transportes públicos ribeirinho, o que começa na Rua da Junqueira e se estende, de forma mais ou menos contínua, até à zona oriental da cidade, passando por Alcântara, Santos, Cais do Sodré, Terreiro do Paço e continuando, depois, pela Avenida Infante Dom Henrique.

A azul, o troço de via BUS eliminado pela Câmara Municipal de Lisboa na Rua da Junqueira. Fonte: Google Earth

Na manhã de sábado, dia 1 de outubro, a Junta de Freguesia de Belém anunciava o facto como “boa notícia”: depois de contestar, nos últimos anos, este troço de via BUS no início da Rua da Junqueira, em Belém, junto do Museu dos Coches e do Palácio, a Câmara Municipal de Lisboa ouvira os lamentos da Junta e avançou com a eliminação, ao longo de cerca de 350 metros.

Agora, permite-se a circulação de todos os veículos a partir de Belém, o que obriga os elétricos da carreira 15E, bem como os autocarros que ali circulam com destino ao centro da cidade a dividir o espaço com o restante tráfego rodoviário.

A razão invocada para esta decisão?

Em publicação nas redes sociais, a Junta de Freguesia de Belém diz que se tem “batido pela reversão do sentido único Alcântara-Belém (exceto para transportes públicos)”, alegando que a impossibilidade de o trânsito particular atravessar a Rua da Junqueira no sentido Belém-Alcântara causou “durante vários anos inúmeros constrangimentos ao trânsito e tornou a vida dos moradores da Rua do Embaixador e de todos os que se dirigem ao Hospital Egas Moniz (vindos do sentido Algés-Lisboa) num inferno”.

A Junta de Freguesia de Belém explicava que a intensidade do trânsito nesta rua residencial, era a razão para o pedido de eliminação da via reservada a transportes públicos, que agora foi acolhido pela CML.

A Rua do Embaixador é a pequena rua interna, paralela à da Junqueira, que parte da Calçada da Ajuda e vai desembocar nela um pouco mais à frente, percorrendo todo o troço BUS agora eliminado. Era utilizada como forma de contornar a impossibilidade de entrar diretamente na Rua da Junqueira – outra possibilidade, mais larga e usada, era a própria Av. Brasília, que tem duas vias para cada lado.

“O corredor premium” dos transportes públicos de Lisboa e a decisão de “andar para trás”

Ou seja, foram prioritizados os direitos dos vizinhos daquela rua – isto sem que se conheçam estudos que indiquem qual a intensidade do trânsito. Este passo coloca, por outro lado, em questão, o corredor de transportes coletivos. Entre Belém e a Baixa este é um importante eixo de transportes públicos e integra os percursos da única carreira de elétricos articulados da cidade, a 15E, bem como das carreiras de autocarro:

  • 727, que termina o percurso na estação de comboios Roma-Areeiro;
  • 751, que termina na estação de comboios de Campolide;
  • 714, que circula entre o concelho de Oeiras e a Praça da Figueira.

São carreiras que servem milhares de pessoas por dia.

Peões atravessam junto à recém apagada inscrição que sinalizava o troço de via BUS eliminado na Rua da Junqueira. Foto: Inês Leote

A opinião dos especialistas em redes de transporte coletivo é consensual no que respeita à competitividade das linhas de elétrico modernas: devem circular, ao longo de todo o seu trajeto, em canal próprio, não sendo aconselhável a partilha do espaço com o tráfego de veículos particulares, já que este cria conflitos e leva à redução da velocidade comercial de circulação e, por consequência, à perda de competitividade do transporte público.

Em Lisboa, a velocidade comercial média da frota da Carris é de 14,1 km por hora, inferior a velocidades comerciais médias de 20 km por hora registadas em várias cidades europeias. Nem por isso, a procura do único elétrico articulado da cidade diminui. No primeiro semestre deste ano, a carreira 15E transportou 2,18 milhões de passageiros.

“Prolongar a via BUS, não retirá-la”

Filipe Moura, professor de Sistemas de Transportes no departamento de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico, não tem a certeza “que o retirar deste bocadinho [de via BUS] vá agravar muito os tempos de viagem”, mas questiona a eliminação do troço por parte do município. “Deveriam ter a coragem de fazer um canal mais contínuo, com menos descontinuidades, e essa é uma decisão política difícil”.

No caso da carreira de elétrico 15E, diz o especialista em mobilidade, pôr termo às descontinuidades do canal de circulação de transportes públicos implicaria “prolongar” a via BUS. “Não é retirar a faixa BUS, que é necessária para promover o transporte coletivo”. Para além de não eliminar o troço em causa, Filipe Moura sugere tornar a Rua do Embaixador numa rua de acesso local, impedindo que esta sirva de acesso alternativo de não moradores à Rua da Junqueira.

Filipe Moura considera que a CML deveria ir mais longe na priorização da circulação do elétrico, intervindo “desde Algés”. Isso implicaria, explica, “dedicar completamente a Rua de Pedrouços só ao elétrico e eventualmente ao tráfego local. E existem alternativas – a Avenida da Índia e a Avenida Brasília – dois corredores de grande capacidade”.

O anterior vereador da mobilidade de Lisboa, Miguel Gaspar, considera este “o corredor premium da CML”, por se tratar do corredor do elétrico 15, “onde estamos mais a apostar”, relembrando que esta carreira fará ligação ao futuro LIOS Ocidental, a linha de elétricos prevista e que fará a ligação de ligará Alcântara ao concelho de Oeiras, passando pelo Alto da Ajuda e o Restelo.

Obviamente crítico da atual política, Miguel Gaspar diz que a recente supressão veio “sacrificar o transporte público de toda a cidade com um benefício – discutível – de alguns a nível micro local”, explicando que a vontade da Junta de Freguesia de Belém de eliminar este troço já não é recente. Miguel Gaspar diz que a própria Carris identificou a Rua da Junqueira como um dos 10 corredores de transportes públicos “prioritários” para a cidade.

A atual aposta do município neste corredor está já em andamento através da renovação da carreira 15E, cuja frota vai passar dos atuais 10 elétricos articulados, adquiridos há mais de 27 anos, para 25, num investimento de 43,4 milhões de euros.

O primeiro dos 15 novos veículos articulados, mais compridos e com maior capacidade de transporte de passageiros, deverá chegar à Carris no segundo trimestre de 2023 – tal como a Mensagem já referiu – e permitirá o aumento da frequência de passagem dos elétricos, que atualmente circulam entre Algés e a Praça da Figueira, bem como a expansão da carreira, que deverá chegar, numa primeira fase, a Santa Apolónia, e, numa segunda fase, até ao Parque das Nações.

Apesar de o semáforo ainda indicar a presença de uma via BUS, os transportes públicos deixaram de ter prioridade no cruzamento da Rua da Junqueira com a Rua Alexandre de Sá Pinto. À esquerda, a inscrição BUS apagada da via de circulação. Foto: Inês Leote

Esta é uma decisão que tem de ser tomada com a assinatura de um vereador ou um presidente de câmara – e devia apresentar como fundamento um parecer técnico da Direção Municipal de Mobilidade e da Carris.

Na procura de respostas para o encerramento deste corredor BUS, a Mensagem procurou falar com a Câmara Municipal de Lisboa, com o gabinete de Ângelo Pereira e com a Direção Municipal de Mobilidade, não tendo obtido, até à data de publicação, qualquer resposta. Foram igualmente enviadas questões à Carris e à Junta de Freguesia de Belém que ficaram, até ao momento, sem resposta.

No início da Rua da Junqueira, os autocarros dividem agora o espaço com o restante tráfego rodoviário. Foto: Inês Leote

As metas de Lisboa para a mobilidade

Este retrocesso, embora pequeno, pode ser significativo? Segundo o MOVE 2030, o documento que orienta a estratégia de mobilidade de Lisboa para a próxima década, em 2017, 46% das deslocações na cidade eram efetuadas de automóvel particular e apenas 22% era feita com recurso à rede de transportes públicos. Até 2030, a Câmara Municipal de Lisboa quer que as deslocações feitas com automóvel alcancem os 34%, uma descida de 26% na utilização do carro.

Esta meta é acompanhada pelos objetivos de ação climática da Câmara Municipal, comprometida em reduzir em 70% as emissões de gases com efeito de estufa até 2030, face a valores de 2002. Já no final do passado mês de abril, a Comissão Europeia anunciou que Lisboa integra o lote de 100 cidades europeias com o objetivo de se tornarem neutras em carbono até 2030.


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Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 30 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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3 Comentários

  1. Artigo tendencioso.
    Pelas considerações que faz e as bicadas que tenta dar no actual presidente da CML, nas insinuações que faz sobre a política de mobilidade, pelo palco que dá ao anterior vereador da mobilidade (que só fez asneiras em Belém – pergunte-lhe pela pseudo-ciclovia da Rua Fernão Mendes Pinto, por exemplo – e por falar em estudos que sustentem a reversão desta medida mas não fala em estudo para a implementar nem para a manter.
    O lobby e a política que saiu derrotada nas últimas eleições não para nem percebe que os lisboetas não quiseram a radicalidade.

  2. O excesso de automóveis na cidade é a gordura que entope o aparelho circulatório da cidade. Mesmo com o anterior executivo, Lisboa arrastava-se para a mobilidade so século XXI.
    Este artigo põe o dedo na ferida, mas é claro que os devotos do acidente Moedas não gostam. Este executivo encontra-se em total contra-ciclo com as várias capitais europeias, acompanhado de uns velhos lá para os lados do Restelo. Se se aguentar até ao fim do mandato, serão 4 anos de estagnação da cidade, se não houver retrocesso!

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