Manuel Banza tem 28 anos. Vive em Arroios, perto do jardim Constantino, junto do buliço da Avenida Almirante Reis e das ciclovias do Saldanha. É analista de dados numa empresa de comunicações e desloca-se pela cidade, “sempre que possível”, a pé e de bicicleta, sobretudo desde que as ciclovias chegaram ao eixo central da cidade. Quando não dá, vai de transportes públicos.

Os dados são profissão e gosto. Vai buscá-los, números, estatísticas, tabelas, com conhecimentos que o utilizador comum não domina. E junta-os, agrega-os, combina-os até que deles se faça sentido. Está “sempre a tentar fazer alguma coisa”, fora do trabalho, “para ir praticando Python e Power BI” – a linguagem de programação e uma ferramenta para apresentação de dados. “Escolho um tema e faço ”, conta. Depois, oferece-os para consulta simplificada. Recentemente combinou essa paixão com outra: Lisboa. Mais particularmente com os bairros da cidade.

Foi buscar a inspiração ao conceito da cidade dos 15 minutos: a ideia com que a “Maire” de Paris, Anne Hidalgo, ganhou as últimas eleições, em junho do ano passado. Ouviu falar da ideia e achou “espetacular”. “Será que também podíamos aplicar este conceito” em Lisboa?

Manuel Banza, analista de dados. Foto: Orlando Almeida

A 15 minutos de tudo, sempre

O ponto de partida é uma premissa de sustentabilidade e conveniência urbanas: a partir de um qualquer ponto da cidade, cada cidadã ou cidadão deve ser capaz de satisfazer as suas necessidades num raio de deslocação que não deve ultrapassar os 15 minutos. A ideia foi cunhada pelo urbanista Carlos Moreno e privilegia as deslocações a pé, de bicicleta ou de transportes públicos, evitando, sempre que possível, a utilização do automóvel. Esta abordagem do planeamento urbano assenta na ideia da autossuficiência da vida de bairro, da proximidade a serviços e infraestruturas e coloca o foco na promoção da sustentabilidade e da qualidade de vida, favorecendo as relações de vizinhança.

A repartição das finanças, a loja de roupa, o jardim, a sala de espetáculos, o escritório, a lavandaria, a esplanada e o supermercado – tudo isto deve ser rapidamente alcançado na cidade dos 15 minutos.

É o planeamento urbano, isto é, o desenho e a disposição das ruas, de braços dados com as condições de acessibilidade, que determina a possibilidade de estabelecimento destas pequenas centralidades que permitem reorganizar o quotidiano de quem vive na cidade. Cidades de média ou grande dimensão, como é o caso de Lisboa, podem conter, no seu interior, várias cidades de 15 minutos. Com tudo à mão de semear, com acessos e transportes seguros, confortáveis e eficientes, criam-se as condições para isso.

Escolas, cabeleireiros, mercados, espaços verdes, teatros, escritórios, universidades, transportes públicos ou centros de saúde. A lista pode ser mais, ou menos, compreensiva, mas pressupõe, sempre, a existência de condições para uma vida mais local, caracterizada pela conveniência e acessibilidade.

A cidade dos 15 minutos faz-se de usos mistos, é funcional. Faz-se de ruas que reúnem lojas, casas, escolas e escritórios, que possibilitam a concentração de serviços e atividades e, por consequência, o rápido acesso a estes, numa lógica que promove a diminuição da dependência automóvel. Este modo de fazer cidade tem tido reflexo nas políticas de gestão urbana adotadas em Paris.

Manuel Banza diz que gostava de ter mais dados para analisar. Foto: Orlando Almeida

Anne Hidalgo, a primeira mulher a assumir Paris, tem avançado com ambiciosos projetos. No mês de janeiro, propôs que os Campos Elísios fossem um grande passeio público, quase sem carros, com mais espaço para peões, canais de circulação para bicicletas, espaços verdes. A edil parisiense, que ganhou o segundo mandato, tem vindo a desincentivar a utilização do automóvel na cidade, anunciando medidas como a eliminação de 72% dos lugares de estacionamento à superfície.

Em números absolutos, significa a remoção de 60 mil dos 83.500 lugares espalhados pelas ruas da cidade. Cada lugar pode significar a devolução de 10 metros quadrados ao usufruto público. Recentemente, a capital francesa lançou o repto aos munícipes: o que fazer com o espaço recuperado?

Os bairros dos 15 minutos de Lisboa

O conceito pode ser uma realidade em qualquer bairro do mundo. Lisboa não é exceção e a cidade já inscreveu objetivos nesse sentido. E aqui entra Manuel Banza: foi isso mesmo que tentou perceber, para determinar que freguesias de Lisboa estão mais próximas da concretização desta ideia de cidade.

Manuel analisou sete das 24 freguesias da cidade: Alvalade, Arroios, Belém, Benfica, Campo de Ourique, Lumiar e Marvila. “Idealmente, queria fazer de todas, mas pensei que ia perder um pouco o interesse”. Então, diz, escolheu freguesias que estivessem “espalhadas pelo mapa”, pelas várias zonas da cidade. O mesmo que fez para as sete selecionadas seria fácil fazer para as restantes, garante. “Era algo que se fazia em dez minutos”. “O código está feito, só tinha que replicar”.

Para a análise, escolheu 12 parâmetros:

  • Estações de metro;
  • Hospitais;
  • Escolas;
  • Universidades;
  • Ciclovias;
  • Espaços culturais;
  • Museus;
  • Supermercados;
  • Mercados municipais;
  • Parques;
  • Hortas urbanas;
  • Espaços de cowork.

Foi buscar os dados ao Lisboa Aberta – o portal de dados abertos da CML – e à plataforma colaborativa de mapeamento OpenStreetMap. Foi esta a ferramenta que utilizou para definir até onde se pode chegar em 15 minutos, a pé ou de bicicleta, sempre a partir do “ponto mais central de cada freguesia”. Os dados que usou estão disponíveis para consulta pública, a grande maioria é disponibilizada pelo próprio município. Mas há que compilá-los para os cruzar e, depois, apresentar. Foi o que ele fez.

Depois de agregados, dispôs os dados em mapas de freguesia que permitem a interação do utilizador. Quem navega nos mapas pode escolher determinadas camadas de informação, tornando visível a localização dos serviços e infraestruturas associadas a cada parâmetro. Quanto maior a concentração de diferentes tipologias de serviços e infraestruturas dentro do perímetro calculado para uma deslocação de 15 minutos, maior a aproximação de cada freguesia ao conceito original. Foi, pelo menos, essa a ideia de Manuel Banza quando publicou os mapas, a 3 de janeiro.

Alvalade, o jackpot

Afinal, que freguesias lisboetas passam no teste dos 15 minutos? Apesar de não ser taxativo na resposta, deixando espaço para análise e interpretação de quem visita o site e consulta os dados, Manuel Banza avança que, entre as sete analisadas, é Alvalade a que “está mais preparada para o conceito da cidade em 15 minutos”. Dentro do perímetro dos 15 minutos, encontram-se, entre outros, três estações de metro, várias instituições de ensino superior, jardins, o Teatro Maria Matos, a Aula Magna, galerias de arte, dois museus e igual número de mercados municipais.

Alvalade “acaba por ser um jackpot”. O primeiro fator que destaca são os transportes. “Tens várias estações de metro bastante perto”, diz. Mas também a Cidade Universitária, com faculdades “de todas as áreas”, uma “boa rede” de escolas, “muitos parques” e “algumas ciclovias”.

Fora da análise numérica, sublinha o “espírito muito bairrista” da freguesia. “Conseguias ter tudo ali, não havia nada que faltasse”. “Uma pessoa que viva em Alvalade não precisa de ir para um centro comercial, não precisa de pegar no carro para fazer alguma coisa – tem tudo a pé, ou de bicicleta, ou de transportes”, diz. 

Arroios com potencial

Arroios é outra das freguesias “com mais potencial”. Dentro do perímetro estão “vários hospitais e clínicas”, escolas, espaços de cowork e “uma grande quantidade de espaços culturais”. Apesar disso, tem ainda “poucas ciclovias” e caracteriza-se pela “falta de espaços verdes”.

Marvila menos destacada

Menos destacada na análise de Manuel Banza está a freguesia de Marvila. Os hospitais mais próximos estão a mais de 15 minutos de distância do ponto de partida e a maioria dos espaços culturais e de cowork estão concentrados na frente ribeirinha.

Belém… não muito positivo

Belém também não se destaca pela positiva. Com poucas ciclovias, poucos espaços de cowork e sem universidades dentro do perímetro que parte do centro do território, esta é, segundo a análise de Manuel, uma das sete freguesias menos preparadas para ser uma cidade de 15 minutos. Para além disso, a freguesia “não tem nenhum mercado de Lisboa dentro da área”.

O analista de dados revela que tem ideias para trazer novas funcionalidades à análise do conceito entre os vários bairros lisboetas. A localização das hortas urbanas foi adicionada recentemente e uma das coisas que “está em plano” é a atualização do mapa interativo do site, para que seja possível que cada utilizador defina o seu próprio perímetro no mapa da cidade. Assim, a partir do local de residência ou emprego, cada pessoa poderá determinar a sua cidade dos 15 minutos e as infraestruturas que lá podem encontrar-se.

Ao município, Manuel Banza pede a divulgação de mais conjuntos de dados. “Gostava muito” de ter os dados relativos à mobilidade da cidade, de “perceber de onde é que as pessoas vêm”.

Ciclovias ajudam a que os bairros se aproximem. Foto: Orlando Almeida

Coincidência ou não, os bairros com o desenho mais alinhado com a cidade dos 15 minutos são alguns dos que evidenciam maior dinâmica e resiliência em tempo de pandemia. Segundo dados oficiais a que a Mensagem teve acesso, Alvalade e Arroios, assim como Campo de Ourique, integram o lote de freguesias da cidade com as menores quebras económicas motivadas pela atual crise.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 28 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta – , o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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22 Comentários

  1. Que trabalho fantástico, muito interessante. Vou tentar fazer este exercício, moro em São Domingos de Benfica, mesmo no limite da freguesia com a freguesia de alvaiade. Parabéns ao autor, tinha interesse em ver o estudo completo.

  2. Acho muito interessante. Recomendo um livro, escrito por um amigo arquitecto/urbanista David Sim. O livro chama-se “Soft City”, em inglês. Tem página no FB, tanto o livro como o David. Recomendo vivamente a sua leitura.

  3. Uma análise espectacular.
    E importante para conhecimento do cidadão comum, qdo procura habitação. Parâmetros que conheço, pois vivo em Alvalade e como arquitecta estou atenta aos vários conceitos urbanisticos.

  4. Muito interessante, e confirmo por experiência própria essa facilidade de vida em Alvalade e em Arroios. O problema é só as pessoas comuns conseguiram comprar ou alugar casa em Lisboa e em particular em Alvalade ou em Arroios onde para uma família com filhos, um T3/T4 não fica por menos de 3500000/1200 euros. Quem pode pagar isto?

  5. Muito interessante! Deviam ser estes os dados, e especialmente análise dos mesmos, a informar o planeamento e investimentos na cidade!

  6. Muito bom artigo, parabéns pelo trabalho e obrigada pelas referências bibliográficas.

  7. Para quem como eu “viveu” e “estudou” o centro histórico da capital em 2008, nomeadamente durante a tese de mestrado dedicada por inteiro a Lisboa e à sua possível relação com a bicicleta, este trabalho consolida aquilo que, repetidas vezes, digo aos meus alunos: quando escolherem o local para comprar ou arrendar casa, não olhem só para o preço do imóvel, mas também para a distância e tempo que irão ter para chegar aos locais de trabalho/estudo/compras/lazer e , claro, fazer (mesmo) as contas a quanto irão gastar com a sua mobilidade. É que ter carro (por vezes até mais que um) e utilizá-lo diariamente pode consumir entre 30 a 50% de um orçamento familiar. Parabéns ao Manuel Banza pela paixão e também ao Frederico Raposo, por tão bem ter escrito este artigo. Partilhei.

  8. O velho Bairro de Alvalade foi concebido em 1945 sob o “conceito de vizinhança” onde as áreas habitacionais estavam ligadas a estruturas vitais como escolas, zona de comércio e ateliers com mais de 100 lojas, a igreja e os seus logradouros verdes de Caldeira Cabral, pai da arquitectura paisagista em Portugal. Vindo da escola de Berlim, Caldeira Cabral implementa aqui um modelo de sustentabilidade ambiental único. Cada morador aqui tem uma horta lavrada em escritura e defronte uma zona verde de lazer que foi abandonada pelas instituições responsáveis ao longo do tempo: IGFSS, CML e JFA. Hoje estes logradouros estão a ser destruídos para parqueamento EMEL perante o silêncio autárquico e meios de comunicação social.

  9. Parabéns pelo estudo. Moro na Freguesia de Belém e estou inteiramente de acordo. Infelizmente o que está previsto, são mais torres (600 fogos) para habitação de renda acessível.

  10. Muito interessante, obrigada. Mas parece-me que faltam 2 aspectos:
    . As colinas, com seus passeios estreitos, a subir e descer, que tornam tudo muito longe.
    . Os peões, para quem prefere andar a pé. Os passeios estão em muito mau estado – mesmo na Almirante Reis, bonitos mas cheios de poças logo que chove, ou com pedras soltas – e sobretudo nas colinas, onde estamos sempre a escorregar, ou tropeçar. Nos bairros mais ricos, por exemplo à volta do Saldanha, puseram placas de cimento: é facil de andar, empurrar um carinho de bébé, ou um carinho de compras, andar com muletas. Não acontece nas subidas ingremes das colinas.

  11. São bons pontos de discussão, que o Manuel Banza de certeza vai considerar no modelo. Obrigada!

  12. Moro em Belém e não concordo com algumas das conclusões: há um polo universitário, os mercados de algés e ajúda ficam muito perto, as acessibilidades não se podem considerar apenas a pé, de bicicleta ou trotineta. Há transportes públicos, desde elétrico ao autocarro e mesmo combóio. Falta apenas o metro. E tudo a 15m, se eu quero ir para Letras de que me serve morar perto do Técnico? E as pessoas idosas ou com limitações de saúde têm de andar de bicicleta? E as crianças pequenas, e os volumes a transportar, e as zonas que não são planas? Uma coisa é contemplar as várias vertentes, outra é só querer uma ou outra. Para mim Belém está muito razoável, hospital, CCB, restelo, ajuda, algés, centros comerciais, museus e palácios, rio, universidade, monsanto, falta mesmo o metro e mais estacionamento nalguns locais. E até fizeram uma ciclovia recentemente.

  13. José, pode entrar na aplicação do Manuel Banza e verificar a avaliação. No caso, não tem a ver com bicicletas… tem precisamente a ver com todo o tipo de transportes. Muito obrigada pelo seu comemtário.

  14. Eu não li o estudo completo , mas do que li há várias coisas que me deixam curioso, o Manuel banza quer uma universidade no limite de cada bairro? O Manuel Banza acha que Belém ou Benfica não está bem servida de infraestruturas? Outra coisa que se fala muito na cidade hortas , com a falta de água que há acha que é boa ideia? Com certeza que todos os bairros , cidades podem sofrer melhoramentos. Agora não pode é querer meter o Rossio dentro da rua Betesga em todos os bairros, e para combater as alterações climáticas que tanto se fala não é só a qualidade do ar que interessa, mas também convém ter cuidado com os solos ou esquecem-se?

  15. Excelente reportagem, elaborei um guião para os meus alunos de Geografia do 11º ano realizarem um trabalho individual e relacionarem com as áreas urbanas. Foi um trabalho realizado durante o confinamento, mais um instrumento de avaliação e que os alunos tiveram gosto em fazer. Muito obrigada!

  16. Ficamos contentes por saber disso, Maria. Muito obrigado pelo comentário.

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