A cidade dos 15 minutos, conceito teorizado pelo urbanista Carlos Moreno, está a ganhar tração. Fala-nos de uma cidade que satisfaz as necessidades das pessoas em 15 minutos, com recurso a deslocações a pé, de bicicleta e de transporte público. Nesse raio temporal de deslocação, a cidade deve ser capaz de oferecer um alargado conjunto de serviços e infraestruturas: eescolas, cabeleireiros, mercados, espaços verdes, teatros, escritórios, recintos desportivos ou centros de saúde.

Mas há uma escala de ação mais pequena, que remete para a vida à porta do prédio, para a vivência e o usufruto da própria rua. Ana Sousa Pereira chama-lhe “a cidade de um minuto”. O projeto que co-fundou, com parceiros da cooperativa BiciCultura, intervém aí mesmo, à porta de casa, instalando parklets pelas ruas de Lisboa.

Ana Sousa Pereira, num dos parklets instalados na freguesia de Campolide. Foto: Rita Ansone

O que são parklets? São uma espécie de esplanadas pop up – mas sem o serviço de café. São bancos de jardim, no meio da rua. Estruturas com mobiliário urbano para usufruto público. E convidam à promoção das relações de vizinhança e à permanência na rua.

Os parklets são normalmente instalados em locais que anteriormente eram destinados aos carros. E as possibilidades multiplicam-se. Podem ter bancos, mesas, floreiras, lugares para estacionar bicicletas ou elementos para as crianças brincarem.

Facilmente instalados no espaço público, são peças de urbanismo tático, termo do jargão urbanístico que se refere a alterações temporárias ou de baixo custo no ambiente construído, com o propósito de operar mudanças positivas no espaço das cidades. E estão a tornar-se moda no mundo inteiro.

Onde antes estacionava um automóvel, há agora um local de estadia. Ali, cabe um banco e duas floreiras. Foto: Rita Ansone

“Mini oásis” na cidade de um minuto

O projeto de Ana tem o nome sParqs, numa alusão ao inglês sparks. Fagulha, faísca, centelha, em português. Ana quis que os parklets dessem origem a “pequenas fagulhas para acender novas ideias acerca do espaço público urbano”. Foi assim que surgiu a inspiração para o nome. São spaces for parks instead of parking spaces, o mesmo que dizer, em português, lugares para parques em vez de lugares de estacionamento.

O objetivo, conta, é “criar espaços e funcionalidades” onde antes apenas paravam carros. “Teres sombra, natureza, qualquer coisa brincável para os miúdos, sítios para sentar”. Tudo isto na cidade de um minuto, em frente à porta do prédio, no lugar da rua monótona, preenchida na totalidade pelo estacionamento dos automóveis dos vizinhos. Já é assim na Rua General Taborda, na freguesia de Campolide, local que acolheu dois dos primeiros parklets da cidade.

Podem surgir como cogumelos, em qualquer lugar onde haja estacionamento na cidade. Basta que haja vontade. O primeiro parklet do projeto surgiu no Mercado de Arroios, numa iniciativa que, segundo o vereador da mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Miguel Gaspar, veio mostrar “como o espaço público pode ser utilizado de forma diferente”. Para que surjam é, contudo, necessária a autorização das juntas de freguesia locais e do próprio município, através da Direção Municipal de Mobilidade, responsável pela emissão de pareceres vinculativos em situações que contemplem a ocupação ou supressão de lugares de estacionamento automóvel.

O mais recente parklet foi montado na Avenida José Malhoa, em Lisboa. Foto: Bruno Maltez (sParqs)

Depois do Mercado de Arroios, foram, há duas semanas, montados os parklets da Rua General Taborda e na semana passada foi a vez da Avenida José Malhoa receber uma estrutura destas. À exceção de Arroios, o mobiliário urbano e as próprias estruturas foram cuidadosamente desenhadas por Bruno Maltez, arquiteto e co-fundador do projeto, com os “bitaites” dos restantes responsáveis.

Ana Sousa Pereira (que tem o cargo honorário de presidente da câmara das bicicletas em Lisboa e é membro do Conselho Editorial da Mensagem) conta como o projeto “nasceu com uma base ativista”. A mobilidade sustentável – a pé, de transportes públicos, de bicicleta – é o que a move enquanto cidadã ativa. A ocupação de lugares de estacionamento com parklets, para além de cumprir a “missão social” a que se propõe o projeto, a de “melhorar a qualidade do espaço público para estar”, é também uma forma de promover a transição modal do carro para outros modos de deslocação, porque, considera, a disponibilidade de estacionamento na cidade “é o principal driver” da utilização do automóvel.

A ocupação de espaço que recentemente se destinava ao estacionamento é importante porque, “primeiro, é o que mais há” na cidade. Mas há, depois, uma outra missão: “criar contraste”. “É diferente ver este espaço aqui. É muito mais fácil perceber que a rua está cheia de carros. É só carros e, de repente, há aqui um mini oásis”.

Os primeiros parklets foram financiados a 70% pelo Fundo Ambiental, sendo ainda co-financiados pela Junta de Freguesia de Campolide e pela Junta de Freguesia do Beato, freguesia onde, em breve, surgirá uma estrutura deste tipo junto a um espaço de co-work. Depois de implementada a fase piloto do projeto, “a ideia é expandir numa base comercial”, testando o modelo de negócio social que escolheram. “Queremos resolver um problema social, mas tem de ser financeiramente viável”, diz Ana, acrescentando que não querem depender de apoios do município.

Em 2020, participou com o projeto no capítulo lisboeta da Women4Climate, iniciativa mundial de mulheres líderes nas áreas da ação climática e sustentabilidade ambiental. Foi uma das 15 finalistas.

“Podemos ter muitos mais espaços destes espalhados pelas ruas”. Mas, para o fazer, “é muito difícil não recuperares espaço ao carro, porque ele ocupou praticamente a cidade toda, mesmo a este nível capilar das ruas dos bairros”. “Se toda a gente andar de carro, não há espaço para mais nada”, aponta.

“Quando melhoras o espaço público, isso reflete-se em vendas”

A Cantina Minúscula é um pequeno restaurante da Rua General Taborda. Talvez não tão exíguo quanto o nome indique, mas é um espaço pequeno. Camille Bichindaritz é o rosto do negócio que abriu há mês e meio. Como no interior não cabem muitas pessoas e há que aproveitar o “bom tempo de Lisboa”, quis pedir autorização à CML para montar uma esplanada no lugar de estacionamento em frente à porta, aproveitando a isenção de taxas municipais de ocupação do espaço público aprovada pelo município durante o período pandémico e prorrogada, no passado dia 1, até ao final do ano.

A intenção coincidiu com o contacto de um dos fundadores da sParqs, que lhe explicou o projeto. “Fiquei interessada”, conta. “Achei que ia ser bom, mesmo não sendo meu”.

Os parklets, ao contrário das esplanadas, têm associado um carácter de espaço público, de livre fruição, não estando a sua utilização associada a uma lógica comercial. Qualquer pessoa pode ali sentar-se, passar o tempo, conviver, mas, para os estabelecimentos comerciais, um parklet pode ser uma “forma de se posicionarem em termos de marketing e de devolver à comunidade”.

A pedonalização da Times Square, em Nova Iorque, trouxe em 2010 um aumento de 71% na faturação do comércio local.

“A nossa ideia é tentar que isto faça sentido para os negócios locais”, diz Ana. “Quando melhoras o espaço público, isso reflete-se em vendas”. A pedonalização da Times Square, em Nova Iorque, trouxe em 2010 um aumento de 71% na faturação do comércio local. Uma maior qualidade do espaço público significa, também, uma rua com mais vida, um comércio local mais vivaz.

Entre um carro ou o parklet com uma mesa, uma floreira e bancos à sua porta, Camille não hesita: “claro” que prefere a nova estrutura de madeira, com um degrau que acompanha a inclinação daquela rua de Campolide. Nas duas curtas semanas que o parklet leva em frente ao restaurante, a diferença já se fez sentir no negócio. “Antes as pessoas não reparavam que isto era um restaurante ou que estava aberto e com o parklet as pessoas veem que há algo em frente e é cool”.

Por agora, a estrutura ainda não tem a sinalização, por instalar, que vai explicar às pessoas o carácter público daquele espaço. “A maioria das pessoas pensa que é a minha esplanada”. Não é, apesar dos benefícios para o negócio, que reconhece. O parklet é de todas as pessoas, é da rua. É uma mudança que “leva tempo”, diz Camille.

Descendo a Rua General Taborda, chega-se ao cabeleireiro de Vanda Pinto, no número 93. Há 18 anos que ali está. Sempre viu carros estacionarem à porta do seu negócio, até que, há duas semanas, ali foi montado o segundo parklet da rua. Para já, o balanço que faz “é positivo”. Os clientes “acham engraçado” e até já testemunhou o novo espaço público lotado. “Na sexta-feira esteve aí um casal com uma filha. Ficaram nesse banco e depois veio o pai”, para quem já não houve espaço. “Teve de se encostar à floreira”. Em conversa, aponta logo a solução: a extensão do banco à custa de algum do espaço ocupado pela floreira.

Há 18 anos que o cabeleireiro de Vanda Pinto ocupa o número 93 da Rua General Taborda, em Campolide. Foto: Rita Ansone

Ana regista a sugestão. Os parklets são moldáveis, podem ter diferentes formas, elementos e tamanhos. E são adaptáveis. Se não resultarem numa rua, podem ser desmontados e instalados num outro local. Para instalações futuras, Ana revela o desejo de que alguns possam ser “mais focados nesta coisa de serem brincáveis”. Para isso, basta imaginá-los e construí-los “de forma diferente”.

“Lisboa tem um desígnio para ser uma cidade de esplanadas, para viver a rua”

“Na cidade de Lisboa, um lugar de estacionamento é usado por três carros por dia, em média”, diz o vereador Miguel Gaspar, reconhecendo a ineficiência. Os carros que circulam apresentam uma ocupação média de “1,2 pessoas”. Ora, “uma esplanada serve 20, 30 pessoas, à vontade, ao longo do dia. É um espaço com muito mais eficiência quando é usado para estes fins”, sublinha.

Entre 21 de maio de 2020 e 31 de maio de 2021, foram montadas 299 esplanadas em lugares de estacionamento na cidade de Lisboa

Durante a pandemia, o espaço ao ar livre da cidade adquiriu renovada importância. Impulsionado pelas exigências de saúde pública e pelos incentivos municipais – a isenção das taxas de ocupação do espaço público e o apoio de 50% na compra de equipamento para esplanada até 2,5 mil euros – a cidade testemunhou uma “explosão de esplanadas”.

Sem grande alternativa, muitas das novas esplanadas da cidade tomaram conta de lugares anteriormente destinados aos carros. Segundo dados da autarquia, entre 21 de maio de 2020 e 31 de maio deste ano, a CML deu autorização para a instalação de 299 esplanadas em lugares de estacionamento, entre 370 pedidos enviados para análise.

“O balanço que fazemos é bastante positivo”, diz o vereador. “As esplanadas estão a ser usadas [e] as pessoas estão a ter essa experiência. Lisboa tem um desígnio para ser uma cidade de esplanadas, para viver a rua, para as pessoas estarem a viver no espaço público”.

Quando a pandemia terminar, e apesar de a última palavra pertencer às juntas de freguesia, a “intenção” da CML para as esplanadas que ocupam lugares de estacionamento passa por continuar a “permitir a utilização daquele espaço no futuro”. “Vemos com muito bons olhos esta ocupação de espaço público”, diz Miguel Gaspar, acrescentando que esta “é uma medida que faz parte da estratégia de devolver o espaço público às pessoas”.

Sobre o aparecimento de parklets pela cidade, considera que vêm provar que “é possível utilizar a cidade de outra maneira”. A multiplicação destas estruturas, por se encontrarem a uma “muito micro-escala” depende do “desafio” de moradores, comerciantes e das próprias juntas de freguesia.

Ana Sousa Pereira lança uma proposta: a criação de “um subsídio aos cidadãos que quiserem implementar” um parklet nas suas ruas. E pede uma mudança nas regras do município, para que cidadãos e “outro tipo de negócios”, para além da restauração, possam ocupar lugares de estacionamento com estas estruturas.

“A questão do parklet é ser uma opção para outros negócios que beneficiam das pessoas ali a passar, não necessariamente restauração”. “Uma lavandaria ou uma livraria”, por exemplo.

Uma tendência mundial

Cidades de todo o mundo tiraram partido das exigências pandémicas para dar novo fôlego à vida de rua. À medida que os processos de desconfinamento avançavam, as esplanadas e espaços exteriores eram os primeiros com permissão para abrir.

No início da pandemia, Vilnius foi uma das primeiras a agir. Fechou 18 ruas ao trânsito e promoveu a expansão de esplanadas pelas ruas e praças da cidade. Vários centros urbanos seguiram a capital da Lituânia. Nova Iorque fechou ruas ao trânsito automóvel e abriu esplanadas em ruas e lugares de estacionamento adjacentes, ao abrigo do programa Open Streets.

Em setembro do ano passado, Bill de Blasio, mayor da cidade norte-americana, anunciou que a iniciativa, originalmente de carácter temporário, passa a ser permanente. Nessa altura, mais de 10 mil estabelecimentos de restauração haviam aderido à iniciativa.

A 14 de junho deste ano, Paris anunciou que as esplanadas da era covid estão para ficar. Os 9800 cafés, restaurantes, livrarias e lojas de música da capital francesa que montaram esplanadas temporárias durante o período pandémico vão poder mantê-las ao longo de todo o ano, ocupando um lugar de estacionamento automóvel. Durante a primavera e o verão, os estabelecimentos poderão expandir ainda mais as esplanadas, ocupando até três lugares de estacionamento.

*Acrescentado parágrafo final (14h46)


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 29 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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5 Comentários

  1. Bom dia! A ideia é excelente e deveriam multiplicar-se como cogumelos. Deixo, todavia, um alerta. A questão da manutenção. Quem assegura que estes espaços continuarão funcionais, aprazíveis e sem a sensação de desleixo daqui a uns tempos. Como sabemos quer o sol, quer a chuva, quer ainda o relativamente pouco sentido colectivo das nossas vidas leva os espaços públicos à degradação. Como evitar? Serão as JF a fazê-lo. Tem os recursos necessários? Muitas vezes há dinheiro (subsídios ou incentivos) para fazer mas não para cuidar.

  2. O artigo suscita-me uma questão: os espaços públicos livres de carros têm que estar obrigatoriamente preenchido com parklets, floreiras, trotinetes ao pontapé, esplanadas para quem quer consumir? O espaço público tem que estar sempre disponível para ser comercializado? Não pode estar simplesmente livre de obstáculos para as pessoas passearem?

  3. Mais um excelente artigo sobre a importância da cidade libertar as suas ruas do excesso de carros que as atrofiam. Esperemos que os cépticos, a pouco e pouco, vão percebendo a importância desta tendência. Mas, ainda mais importante, esperemos que alguns políticos desonestos que ainda usam o estacionamento “à borla” como bandeira eleitoral se deixem desses disparates, e façam uma oposição honesta que exija mais e melhor trabalho do actual executivo.

  4. Tito, a manutenção destes parklets piloto em particular será uma colaboração entre a cooperativa promotora, os negócios locais circundantes e as Juntas de Freguesia. É um piloto e serve justamente para experimentar e aprender coisas que ajudem a informar decisões para projetos futuros.

    Miguel, tem razão em que a cidade precisa de mais espaço livre para circular e passear a pé. Entretanto, o conceito dos parklets não se foca nisso mas sim na qualidade do espaço público para acomodar necessidades de parar e descansar, de conviver, de usufruir do sol e do ar livre, de olhar e beneficiar de tudo o que árvores, plantas, flores nos oferecem a nível de saúde mental e de sustentabilidade ambiental. Os parklets não são esplanadas. Esplanadas são espaços privados, extensões dos espaços interiores de cafés e restaurantes. Parklets são espaços públicos ou privados de acesso público. Como são os bancos de jardim, os parques/jardins públicos, etc, as próprias estradas, etc.

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