Foto: Inês Leote
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Olá, vizinho/a

Fomos engolidos pela polémica do momento em Lisboa, nos últimos dias. Sim, os jacarandás do último troço da Avenida 5 de Outubro.

Vamos recordar como tudo começou: a Câmara Municipal de Lisboa anunciou o abate e a trasladação de 47 jacarandás no âmbito da construção de um parque de estacionamento subterrâneo de 400 lugares (anunciou mas nas redes sociais, porque a intervenção já há muito que estava no site da autarquia). E este era o título do nosso texto, porque era isso que estava em causa no levantamento popular – seguido de petição – que uma série de cidadãos preocupados provocaram.

É sempre comovente ver uma cidade a mexer-se para defender as suas árvores. E como um assunto local, hiperlocal, que diz respeito a um pequeno troço de uma avenida de Lisboa, se tornou nacional. O nosso texto precedeu a avalanche que veio a seguir: publicações em jornais nacionais, posts nas redes sociais … e mais de 40 mil assinaturas na petição. Carlos Moedas foi à SIC fazer esclarecimentos e convocou uma conferência de imprensa, inclusive… por causa de um quarteirão em Lisboa.

O debate até mobilizou gente como a Maria (vamos preservar o resto do nome), nossa leitora, que vive a muitos quilómetros e nos escreveu:

“Vivo no Porto, sou lisboeta de coração. Venho juntar-me a este grupo para que os nossos jacarandás sobrevivam”.

Há ou não há poesia nisto? Um grupo de lisboetas e não lisboetas que se une pelas árvores lilás e exóticas que chegaram do Brasil, no século XIX, que anunciam o calor, crescem rápido e são resilientes à poluição – como explicou o Leonardo Rodrigues nos seus textos pioneiros sobre elas na Mensagem (sempre dos mais lidos do ano).

Mas nem tudo é poesia: como em todas as polémicas, também esta foi pasto para a desinformação – até porque era perfeito para isso, com posições extremadas. E, a nosso ver, tornou-se um caso de estudo de como funcionam as coisas, hoje. E de como não devem funcionar. Daqui, tiramos algumas lições de vida, para jornalistas, mas sobretudo para políticos.

A primeira lição para políticos é que não é sensato anunciar, com papéis espalhados pelos troncos, que se vão “abater” 25 árvores – sobretudo das mais queridas da cidade. Porque as pessoas amam as suas árvores, as pessoas amam cada vez mais as suas árvores. E o choque inicial inquina o debate. Por isso, quando se quer fazer uma operação destas – ou melhor, precisa (e já lá vamos) – é melhor explicar tudo antes, e anunciar depois. Mostrar o que se traz, explicar tim-tim por tim-tim porque se vai fazer isto.

Neste caso, até nem era difícil:

  • Há números para mostrar: haverá mais 41 árvores naquele local, no final do projeto, entre elas jacarandás novos. O projeto mostra-nos uma avenida mais verde do que aquela que temos hoje
  • Haverá razões para o abate: algumas mazelas graves que impedem o transplante, segundo os serviços da CML, nomeadamente (e ironicamente) por causa da convivência atual das árvores com os carros no estacionamento. A CML pôs tudo num documento, aqui, mas não terá divulgado o suficiente. Ou não o fez com linguagem simples para os cidadãos preocupados.
  • O projeto novo trará uma rua melhor, mais pedonal e com espaços verdes – os jacarandás estão atualmente rodeados de carros por todos os lados.

Mas explicando ao mesmo tempo: não se conseguiria evitar o abate? Redefinir o desenho do projeto de intervenção em Entrecampos, de forma a preservar as árvores que lá estão?

A segunda lição para políticos é que as simbologias contam, e muito, nestes tempos de redes sociais. Qualquer coisa que oponha árvores e grandes empreendimentos de interesses imobiliários é lenha para se queimar. Se calhar era melhor ter mais cuidado num caso em que há um enorme projeto como o da Feira Popular, de muitos milhões – mesmo que contenha jardins futuros ou até habitação acessível. E a atitude mais sensata será proteger o que houver para proteger. Ou seja, árvores.

É verdade que já esteve para ser pior. O projeto discutido em 2018 previaabate das árvores todas daquele troço – foi depois alterado, já em 2022, com o executivo de Moedas, reduzindo essa necessidade.

Em todo o caso, não se percebe porque a entrada para o parque de estacionamento não fica nos terrenos da Feira Popular, que vão ser intervencionados.

Quando se colocam estacionamentos e árvores em luta, os memes para a internet fazem-se sozinhos. Mesmo em casos como este, em que os novos planos para a zona até retiram o estacionamento dos carros da superfície e da proximidade dos jacarandás – o que lhes causa as tais maleitas, não só aqui mas em toda a Avenida 5 de Outubro e restantes Avenidas Novas.

Terceira lição para políticos: o que os cidadãos achavam há cinco anos não é o que acham hoje, e querem muito ser ouvidos. O que haverá na zona final da 5 de Outubro será melhor cidade do que temos hoje? Certamente. Não é difícil, naquela ferida aberta. O que o processo nos mostra é que temos de ter cidades mais ágeis, que os tempos mudam rápido, as mentalidades também, por isso, os projetos devem ser mutáveis. E que há hoje mais perguntas, porque a informação circula mais rápido também.

Por isso tudo, não é bom anunciar sessões de esclarecimento e começar as intervenções no local antes delas acontecerem, porque com isso só estão a passar uma mensagem: “os cidadãos não têm capacidade de mudar nada”. E esse é um caminho perigoso, menosprezar a força cidadã.

Para o jornalismo, há uma lição triste: por mais que tentemos ser rigorosos, explicar o que há para explicar, ter calma e falar com especialistas, parece que a desinformação, o ativismo, as precipitações levam sempre a melhor. Mesmo que seja assim, a nossa missão continua a ser a mesma: fiel da balança. Foi o que tentámos fazer, sabendo que talvez não tenhamos conseguido como previmos – provavelmente muitos leitores ficaram-se pelo título.

Há conclusões. As redes sociais trouxeram-nos imensos desafios, mas poucos serão maiores do que para políticos e jornalistas. Temos de saber lidar melhor com isso.

E importa não esquecer, no meio da comoção: faltam árvores em Lisboa, para não “assarmos ao sol” – já lembrava o Frederico Raposo nesta reportagem. Por cada 50 metros quadrados de verde na cidade, a temperatura desce 1ºC. Sabia?

Faltam árvores, mas Lisboa tem dado muita importância àquelas que existem e resistem. Estamos no distrito em que existe a grande maioria do Arvoredo de Interesse Público (um selo estatal que classifica e tem o dever de proteger árvores). Em Portugal, há cerca de 400, e só aqui são 118. Grande parte na freguesia da Misericórdia. O que é tanto uma sorte como uma maldição, como nos explicava Paulo Reis Mourão, investigador académico: uma árvore classificada está na sombra de muita burocracia para ser cuidada.

E quando uma árvore é vandalizada ou cortada, a história dela não pode ser reposta. É um testemunho de comunidade que vai com ela. E uma sombra que torna a vivência em Lisboa mais difícil.

É tudo isto que devemos lembrar e aprender com os protestos – ouvi-los, apesar dos exageros. No domingo, anuncia-se mais um, no Instagram: um piquenique à sombra dos 47 jacarandás, na 5 de Outubro.

E já que falamos tanto de árvores, aqui vai uma seleção de histórias das quais foram protagonistas, na Mensagem:

Até breve.

– Catarina Carvalho e Catarina Reis



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