Em Lisboa, há bairros inteiros quase ou totalmente desprovidos de árvores. Nos bairros da freguesia do Areeiro, por exemplo, é o caso do Bairro do Arco do Cego onde nenhuma das ruas interiores tem arvoredo (sem contar com os escassos e diminutos espaços verdes e a Magalhães Lima), de muitas ruas do Bairro dos Aviadores (entre o Campo Pequeno e a Av. de Roma) e praticamente de todo o bairro (entre a Alameda e a Praça Francisco Sá Carneiro). E é normal encontrar caldeiras onde deveriam existir árvores e onde elas, na verdade, não estão.

E embora muitas ruas possuam espaço suficiente para a colocação de pequenas árvores ou espaços verdes, nunca foram alvo de uma intervenção deste tipo. Como as ruas Capitão Ramires, Cidade de Bucareste e Carlos Mardel. Mas apesar do problema estar patente e à vista de todos, nada se fala ou está previsto para a transformação de lugares de estacionamento ou esplanadas em lugares de estacionamento em locais de plantio de novas árvores.

Por isso é que nasceu um manifesto pelas mãos de cidadãos do Areeiro, como eu, nas caldeiras das árvores de Lisboa, onde víamos escrito: “Aqui devia estar uma árvore”, “Onde está a árvore?”.

Entretanto, os manifestos já foram retirados.

Onde faltam árvores

Actualmente, e apenas na freguesia onde resido (Areeiro), faltam árvores nos seguintes arruamentos:

Avenida Afonso Costa: 6 (todas no espaço verde do separador central)
Alameda Dom Afonso Henriques: 6 no espaço verde central
Avenida Duque de Ávila: 2 caldeiras vazias
Avenida Guerra Junqueiro: 3 árvores mortas em caldeira
Avenida João XXI: 1 árvore em toco ainda na caldeira
Avenida Manuel da Maia: 1 árvore em falta
Avenida Óscar Monteiro Torres: 4 caldeiras vazias
Avenida Sacadura Cabral: 2 árvores jovens mortas em caldeira
Avenida São João de Deus: 1 caldeira vazia
Rua Alves Redol: 1 árvore em falta (embora esteja em plena passadeira) e 1 árvore morta em caldeira
Rua Alves Torgo: 6 (palmeiras restando aqui a última população de palmeiras do Areeiro)
Rua Capitão Ramires: 2 árvores jovens mortas
Rua Cervantes: 1 caldeira vazia
Rua Edison: 2 árvores jovens mortas em caldeira
Jardim Fernando Pessa: 8 árvores em falta
Rua José Acúrcio das Neves: 1 caldeira vazia
Rua Ladislau Piçarra: 2 árvores mortas (frente ao Filipa de Lencastre)
Logradouro da EB Luís de Camões: 27 árvores em falta (a maior concentração do Areeiro)
Praça de Londres: 1 árvore morta no separador central
Praça Francisco Sá Carneiro: 1 árvore morta em espaço verde
Praça João do Rio: 2 árvores em falta no jardim
Praça Pasteur: 2 caldeiras vazias
Rua João Villaret: 2 árvores mortas em caldeira (sendo que aqui há 24 novas árvores plantadas e cerca de 40 novas árvores num novo espaço verde interior)
Rua Presidente Wilson: 1 árvore morta em caldeira

No total contei 66 árvores em falta (sem incluir os espaços privados, como jardins de condomínios, vivendas e espaços verdes do INE e do IST).

Este levantamento foi realizado entre 7 a 9 de setembro de 2023 e foi confrontado na plataforma de Dados Abertos da CML, onde localizei 66 939 registos de árvores em Lisboa, sendo 1552 dos quais no Areeiro. Contudo, o mapa não está atualizado, não incluindo, por exemplo, as novas plantações na João Villaret nem árvores recentemente abatidas.

O mapa parece ter a intenção de incluir as árvores de rua e aquelas que estão em espaços verdes ajardinados, mas nestes últimos realiza frequentemente grandes sub-avaliações. Designadamente no Logradouro da EB Luís de Camões, onde apenas 13 árvores são registadas num alinhamento que parece abstrato e que não corresponde à real situação das árvores.

Apesar destas lacunas, é possível usar esta plataforma para estimar que 4,25% das árvores do Areeiro estão em falta. Considerando as omissões conhecidas, é possível estimar que o número real seja superior.

Em novembro de 2016, num levantamento semelhante, já havia contado 75 caldeiras vazias ou tocos que pediam replantação. Em Abril de 2021, o levantamento foi atualizado identificando 46 árvores por replantar (das quais 22 apenas no Logradouro da EB Luís de Camões). Isto significa que houve uma evolução positiva desde 2016, a par com uma degradação entre 2021 e 2023 – apesar do reforço em dezenas de novas plantações, há cerca de dois anos, na Afonso Costa, João Villaret, Capitão Ramires e Barão de Sabrosa cujas quantidades ainda não parecem ter entrado na plataforma de dados abertos da CML (o que deveria merecer reflexão e correção).

Foto: Inês Leote

Uma proposta

As ondas de calor vieram para ficar (produto direto das alterações climáticas), a Câmara Municipal de Lisboa inscreveu na sua estratégia “Lisboa Verde 2020” a mitigação das vagas de calor através da criação (designadamente de “sistemas de sombras”) e, em Lisboa, a situação registada no Areeiro aplica-se a praticamente todas as freguesias.

Por isso, seria interessante que os nossos decisores políticos considerassem:

1. A reposição urgente de árvores em todas as caldeiras vazias e de todas as jovens árvores mortas dispersas pela cidade. Algumas caldeiras estão vazias há mais de 8 anos.
2. A criação de novas caldeiras (através de um pedido de indicação de novos locais a moradores para os envolver no processo) e realizar a plantação com moradores dessas ruas (para criar ligação e empatia entre as árvores e quem vive ao seu lado). Definir como objectivo a criação de “corredores verdes” que liguem todas as ruas da cidade (a começar pelas grandes vias estruturantes do Areeiro: Av de Roma, Almirante Reis e João XXI).
3. Considerar a instalação de mais pérgolas em Jardins públicos (por exemplo nas laterais da Alameda Dom Afonso Henriques) protegendo bancos que sejam estrategicamente colocados sob a sombra nas horas de maior calor durante o verão.
4. Ponderar a instalação de pequenos acumuladores de águas pluviais em tanques subterrâneos que possam servir para acumular águas da chuvas que podem ser usados na lavagem de ruas e na rega de jardins e espaços verdes.
5. Seria útil planear a instalação de pérgolas em passeios públicos com trepadeiras de baixo consumo de água posicionadas por forma a bloquear a radiação direta do Sol.
6. Considerar a instalação de termómetros de rua em candeeiros, com registo, exposição pública e registo centralizado de dados, que permitam manter um mapa de calor urbano atualizado e em tempo real assim como a multiplicação de medidores da qualidade do ar (humidade, partículas leves, etc.).
7. Introduzir em Lisboa árvores de rua co-cuidadas por moradores com contratos formais: como já acontece – de certa forma – na Xavier Cordeiro, Nunes Claro e Vítor Hugo. Os moradores das ruas poderiam ser contactados porta a porta pela divisão de espaços verdes da CML e subscreverem um contrato em que assumem a manutenção de uma caldeira de árvore perto de sua parte e onde podem plantar, com formação e apoio da CML pequenas plantas ou arbustos de baixo consumo de água.
8. Porque os arbustos e vegetação rasteira de baixo consumo de água arrefece a temperatura local através da evapotranspiração (processo em que a água é movida das raízes das plantas para as suas folhas) e evapora arrefecendo o ar no processo: seria de ponderar a substituição em alguns locais (p.ex., no Bairro do Arco do Cego) da “floresta” de pilaretes por algumas floreiras (como as que já aqui existem ou como aquelas que se observam na Almirante Reis ou na Manuel da Maia).
9. Para aumentar a quantidade e qualidade de espaços verdes funcionais seria importante transformar todas as zonas expectantes da cidade de Lisboa como “jardins provisórios” com plantações de plantas de baixos consumos de água que podem ser movidas para outros locais logo que esteja a começar no local novas construções (usando, por exemplo, grandes vasos).
10. Porque os “telhados verdes” aumentam a qualidade de vida através da redução de ruído, aumento do valor das propriedades, contribuem para o embelezamento do espaço urbano e reduzem os custos de energia e protegem os edifícios contra a exposição solar excessiva deveria ser ponderada a instalação destes equipamentos inicialmente em edifícios camarários (começando p.ex. no Pavilhão do Casal Vistoso). Considerar ainda a instalação de muros verdes, algo que numa cidade com tanto declives (como o das Escadas da Acúrcio das Neves) pode ser aplicado a vários locais.
11. Para reduzir a irradiação noturna de calor seria importante plantar árvores nas bermas das grandes vias de trânsito de Lisboa. Começando, por exemplo, pela Avenida Gago Coutinho ou nos locais que a estreiteza geral do passeio o permitir na Almirante Reis.
12. Por fim, seria importante estudar o exemplo holandês e ponderar a instalação de pequenos telhados verdes nas paragens de autocarros com pequenos jardins aéreos de baixo consumo de água.

Aumentar a quantidade de árvores na cidade de Lisboa, como em qualquer cidade, seria muito importante porque:

1. Desde logo, porque as árvores absorvem dióxido de carbono e libertam oxigénio, ajudando a melhorar a qualidade do ar e a reduzir a poluição do ar absorvendo, também, poluentes atmosféricos, melhorando assim a saúde respiratória dos habitantes da cidade.
2. O aumento da quantidade de árvores no nosso ambiente urbano aumentaria a quantidade de sombra e evapotranspiração, reduzindo a temperatura ambiente e tornando a cidade mais habitável durante os meses quentes de verão.
3. Mais árvores em Lisboa levaria também a um aumento da biodiversidade na cidade. As árvores fornecem habitat e alimento para uma variedade de espécies de vida selvagem, incluindo aves, insetos e pequenos mamíferos.
4. A presença de árvores e áreas verdes na cidade contribui para a qualidade de vida dos seus habitantes. As áreas arborizadas proporcionam locais para relaxamento, lazer e recreação, bem como reduzem o stress e promovem o bem-estar mental.
5. As árvores ajudam a absorver a água da chuva, reduzindo o risco de inundações – uma realidade cada vez mais presente num contexto de alterações climáticas galopantes – e ajudando na gestão sustentável da água em Lisboa.
6. Não nos podemos esquecer que as árvores também podem ajudar a reduzir a poluição sonora, funcionando como barreiras naturais ao som algo que seria especialmente importante nas muito barulhentas grandes avenidas da cidade como a Almirante Reis ou a Avenida de Roma.
7. Por fim, e não menos importante, ter mais árvores na cidade oferece oportunidades para que os residentes se conectem mais e melhor com a natureza, aprendam sobre o ambiente natural e desenvolvam um maior respeito pela biodiversidade.

Não tenho dúvida de que o aumento da quantidade de árvores em Lisboa não apenas tornaria a cidade mais agradável e saudável para os seus habitantes, mas também seria um importante contributo para a sustentabilidade ambiental e para a criação de um ambiente urbano mais equilibrado e resiliente. O que é de especial importância num contexto cada vez mais grave das alterações climáticas.

*O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico


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7 Comments

  1. Curioso esse movimento espontâneo, será que foram beber ao movimento Eu Também em Coimbra ou foi uma acção cidadã que surgiu simultaneamente?

  2. Parabéns Rui Martins. Gostei muito do seu artigo e trabalho de levantamento do estado da flora urbana de Lisboa. Eu moro na Rua Luís Pastor de Macedo ao Lumiar. Não entendo nada do assunto mas, como poderia ajudar?

  3. Caro Rui Martins, Parabéns pela iniciativa. Gostava de fazer o mesmo na freguesia de Arroios, onde vivo, e a situação é igual. Cheguei a reportar algumas árvores em falta na plataforma na minha rua lx, mas nada acontece. Precisamos absolutamente de árvores na cidade.
    Cumprimentos
    Mafalda Roma

  4. Parabéns pela iniciativa e pela insistência num tema tão importante. Mas será que estes artigos chegam aos responsáveis da CML? Parecem cada vez mais divorciados da realidade e das preocupações dos cidadãos… Deviam distribuir estes artigos em panfletos à entrada das reuniões da assembleia municipal! Está aqui tudo o que interessa.

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