80 mil copos de água, 4 mil descargas de autoclismo ou 800 duches de 5 minutos. Desde que as piscinas de Loures implementaram um projeto de reutilização de água, conseguem poupar o equivalente a isto todos os dias.

Para cumprir a norma portuguesa que estipula os requisitos de qualidade e tratamento de águas, as piscinas desperdiçam diariamente 2% do seu volume de água. Mas a Câmara Municipal de Loures teve uma ideia, em conjunto com a empresa municipal Gesloures: armazenar essa água em reservatórios e reutilizá-la na rega e limpeza de ruas. 

Assim, enquanto os utentes da piscina bracejam dentro da piscina, a água cai continuamente para dentro de caleiras e essa mesma água, que antes era colocada nos esgotos, agora é encaminhada para reservatórios, onde é filtrada e tratada. 

Na piscina de Santo António dos Cavaleiros, uma das piscinas de Loures, o trajeto da água termina de duas formas: a Junta de Freguesia recolhe-a para utilizar na limpeza dos espaços públicos ou o sistema de rega encaminha-a para o jardim mais próximo.

São vários os jardins de Loures que podem beneficiar deste modelo de aproveitamento de água. Foto: Inês Leote

Um mergulho contra as alterações climáticas

Com a temperatura da Terra a aumentar, prevê-se que os períodos de seca sejam mais intensos e frequentes nos próximos anos, aponta Sara Correia, responsável pela área de recursos hídricos na Associação ZERO: “Se tivermos uma redução significativa da precipitação, em virtude das alterações climáticas, e a procura por água se mantiver ou agravar, a situação ficará mais complicada.”

Para diminuir a pressão sobre os recursos hídricos, é necessário arranjar estratégias e a reutilização de água no setor urbano é uma delas. Diz a ambientalista que podemos “reutilizar mais do que aquilo que estamos a fazer neste momento”.

A nível nacional, a percentagem de reutilização de águas residuais tratadas não chega aos 2%.

Por essa razão, Nuno Vitorino, presidente do conselho de administração da Gesloures, vê este projeto municipal de eficiência hídrica como “uma gota de água num oceano”, mas não deixa de ser um bom ponto de partida. “Nós não vamos deixar de ir às piscinas. O desperdício de água vai sempre existir, mas podemos aproveitar uma pequena parte”, afirma.

No espaço de um ano, a empresa Gesloures aplicou o sistema de reaproveitamento em três piscinas do município: primeiro na Portela, depois em Santa Iria de Azóia e, desde novembro, em Santo António dos Cavaleiros.

Atualmente, estas infraestruturas poupam cerca de 20 metros cúbicos de água por dia. “Essa água foi desperdiçada durante anos, mas o importante é que houve um momento de transição e agora as águas estão a ser aproveitadas”, diz Nuno Vitorino.

A  gestão da água é uma responsabilidade partilhada com as Juntas de Freguesia e tem-se revelado proveitosa para todas as partes, como explica o presidente da Gesloures: “Nós percebemos que todos estamos a poupar. Principalmente, as juntas que tinham de comprar água, agora vêm buscá-la aqui.”

O percurso “desconhecido” da água reutilizada

Sem sequer se dar por eles, os veículos de limpeza da Junta de Freguesia param nas traseiras do complexo de piscinas e abastecem-se de água diretamente dos reservatórios. Nas estações do ano em que a chuva é frequente, a água é recolhida com menos frequência, mas no verão chega a ser retirada várias vezes ao dia, conta Marco do Ó, técnico de manutenção das piscinas. 

Seguimos Marco pela zona subterrânea da piscina, uma espécie de gruta escura e ruidosa, onde se encontram os tanques de água e as máquinas que a filtram. Descreve-a como “a parte que toda a gente desconhece, mas que é necessária para a piscina funcionar”.

Marco do Ó, técnico de manutenção das piscinas de Loures. Foto: Inês Leote

Uma das questões que Marco do Ó antecipa é “como é que água com cloro pode regar um jardim?” Para os mais céticos, explica: depois de 24 horas de repouso, o cloro evapora da água e, assim, esta pode ter um novo fim.

A sensibilização tem um papel importante na desconstrução dos “mitos” associados à água residual tratada, afirma Sara Correia, da Associação ZERO. Apesar de não se tratar de água potável, pode ter outras finalidades. Até pode tornar-se numa cerveja.

“Ações locais geram impactos globais”

Os alunos da Escola Secundária da Portela, que integra o munícipio de Loures,  ficaram a conhecer de perto o processo de reutilização de água nas piscinas Gesloures. “Numa visita de estudo, explicámos o funcionamento deste reaproveitamento e a importância de encontrar novos métodos de gestão de água”, conta Telmo Simões, responsável pela implementação de atividades do projeto People and Planet em Portugal.

Este projeto é financiado pela União Europeia e, numa rede de 22 municípios por todo o país, pretende pôr os jovens a pensar “no que gostariam de melhorar na sua realidade local”, tendo a sustentabilidade (e, em particular, a escassez de água) como pano de fundo.

A iniciativa foi bem recebida pelos professores das escolas do município, que “por falta de tempo ou de recursos” nem sempre conseguem trazer estes temas para as salas de aula. Numa perspetiva de educação informal e participativa, Telmo, que está no projeto há quatro anos, explica: “Há sempre alguma coisa que os jovens podem retirar das nossas atividades: quer sejam fanáticos pelo tema, quer não se interessem muito”.

Uma das propostas feitas aos alunos da Escola Secundária da Portela foi, precisamente, divulgar o processo de reutilização de água das piscinas municipais com a comunidade local.

No futuro, o presidente do conselho de administração da Gesloures prevê, ainda, implementar o sistema de aproveitamento na Piscina Municipal de Loures. Por estar abaixo do nível das águas do mar, será necessário encontrar “uma solução, de modo a que a água possa ser bombeada e chegar aos reservatórios”.

Loures foi o “pioneiro” deste projeto de eficiência hídrica e já há outros municípios a querer implementar propostas semelhantes, que “vêm beber desta ideia”, afirma Nuno Vitorino.

*Texto editado por Catarina Reis


Maria Maia

Nasceu em Lisboa, em 2002 e cresceu entre a cidade e a periferia. Na universidade, ganhou o gosto e o ofício do jornalismo. Apaixonada por ouvir, interessada em conhecer e destinada a escrever sobre isso. É jornalista e produtora na Mensagem de Lisboa.


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