Eu, que não sou de cá, acho sempre que deve ser uma experiência extraordinária ser turista em Lisboa. Como se não fossemos todos turistas nesta cidade, lisboetas ou não, perante predicados tão válidos quanto o sol, a comida, a hospitalidade e a autenticidade, mais ainda quando são vendidos num bilhete combinado.

“Não amas Lisboa?”, pergunto-me. “Bem… sim”, enquanto observo esta efervescência de vida que me contagia. “E também… não”, quando experiencio esta efervescência de vida que me condiciona. 

Lisboa tende a refletir o que sinto. Quando estou feliz a cidade é romântica e o sol tem uma luz bonita e invulgar. Quando estou azeda, a cidade também está. Por todo o lado ouço ruído, aguça-se-me a sensibilidade aos cheiros alheios, a multidão atropela-me a caminhada, a minha impaciência já de si refinada, apura-se, e a luz do sol é demasiado brilhante para o que os meus olhos conseguem suportar. Lisboa é vítima de mim. Já não lhe bastava ser vulnerável a estados de espírito, como ainda a olho através de um postigo com óculos de quem sofre de uma miopia típica de quem está cá, mas não é de cá, de quem sente pertencer cá sem o ser, de quem a olha de fora sem o conseguir fazer. Ah, inconstância! 

O que Lisboa realmente me promete – e cumpre – não é a felicidade ou falta dela, mas antes um reflexo da minha existência, tão sujeita a variações de intensidade quanto as variações de altitude das colinas, ora encantadoras porque autênticas, ora insuportáveis pelo mesmo motivo. 

Talvez a melhor forma de a amar seja de longe para lhe sentir o pulso, apesar de mim.

O que seria de Lisboa, se tivesse evoluído para uma cidade sem buracos na calçada, sem cheiro a sardinha assada, sem uma multidão ofegante a caminho da Sé e do Castelo? O que seria de Lisboa sem as filas para o 28, a correria para o comboio no Cais do Sodré, o desaguar de gente apressada na estação do Rossio? O que seria de Lisboa sem um Chico em cada tasca, sem a bica, sem o grasnar das gaivotas, sem os pastéis de nata quais ervas daninhas? O que seria de Lisboa, sem um certo caos e indisciplina?

Suspeito que, mesmo quando aceitamos algumas mudanças como positivas e permanentes, procuramos, talvez inconscientemente, formas de recriar o atrito porque acreditamos que a cidade implodiria sem ele (ou implodiríamos nós?). Mas Lisboa não seria Lisboa se se deixasse colonizar. 

A cidade tem uma dinâmica própria, fulgurante e expressiva, com o dom de evoluir e ainda assim honrar a sua história, indiferente aos postigos através dos quais é olhada e sentida.

Lisboa não gasta a herança dos reis que a definiram, dos arquitetos que a ergueram, dos calceteiros que lhe desenharam o chão, das varinas que a apregoaram, dos poetas que a versaram, das fadistas que a cantaram. Antes nobilita a sua memória; consolida-se, independentemente da nossa felicidade ou azedume. E, no entanto, a renovação da cidade também exige um certo esquecimento, cultivando em nós um otimismo irracional para deixar a novidade triunfar. E, a baralhar e dar de novo, Lisboa canta-nos o fado mais uma vez, rejuvenescida. Continua uma cidade velha, mas infinitamente nova, deliciada com a inconstância que nos provoca a sua efervescência.

Lisboa é caos, é certo, mas cada um de nós cria a sua própria ordem dentro dela. A ambivalência é talvez a única atitude honesta em relação a uma cidade como Lisboa: dizer simplesmente que a amo é tão radical quanto a afirmação de que a odeio. Mas não odeio. Como poderia alguma vez fazê-lo? Mais depressa a amo no caos do que a odeio na perfeição.


Imagem do avatar

Sónia Santiago

Depois de anos no marketing de duas multinacionais — Navigator Company e Roca — percebi que o que realmente me movia são as marcas com história. Hoje sou Diretora de Marketing do Grupo O Valor do Tempo, onde lidero a comunicação de 13 marcas que têm em comum a mesma missão: contar a História de Portugal de forma autêntica, original e com elevação.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *