Pedro Folque, que antes achava que cantar “era só no carro” ou no chuveiro, não adivinharia o que está a viver. Aos 23 anos, é gestor de operações na Dona Ajuda, uma instituição particular de solidariedade social (IPSS) com morada no Mercado do Rato, que “liga quem precisa de ajuda a quem pode ajudar” através de uma loja em segunda mão e eventos. Um dia, depois do trabalho, decidiu ficar para ver no que se transforma a Dona Ajuda à noite: um coro comunitário.
Agora, Pedro pode dizer que está mais afinado. Já canta sem vergonha fora do carro e do chuveiro. Desde novembro que a Dona Ajuda reúne um grupo de adultos para cantar às quartas-feiras à noite.

Cristina Veloso, vogal da direção e uma das fundadoras do projeto, conta que não esperava tanta adesão: “Fomos arrancar na pior altura do ano, com um frio de rachar. No primeiro ensaio, apareceram 30 pessoas. E, a partir daí, foram-se multiplicando”. Atualmente, têm um grupo de WhatsApp com 90 membros interessados.
“As pessoas dizem: ‘Nem pensar’, mas depois divertem-se e ficam e, na semana seguinte, já vêm.” Também Cristina, que inicialmente fora para garantir que os ensaios estavam a correr bem, acabou por ficar.

O coro Dona Ajuda Canta é aberto a todos (com ou sem experiência musical), sem nenhum custo associado. Embora esteja a ser equacionada a possibilidade de pedir donativos, que contribuirão para o trabalho da instituição e para a remuneração do maestro.
“Voltar ao sentido de comunidade e de bairro”
O projeto do coro, iniciado em novembro, vem completar a missão que a Dona Ajuda já assumia junto da comunidade. “Tinha na sua origem esse papel de associação de bairro, que ao longo do tempo foi-se perdendo. Mas está agora a desenvolver vários projetos para devolver ao bairro o que o bairro dá à Dona Ajuda”, diz Pedro Folque.
Através desta atividade cultural, é possível “trazer as pessoas que, de outra forma estariam em casa sem fazer nada, muitas delas sozinhas, para um espaço seguro e aberto a todos”, conta Pedro.

Este coro comunitário integra pessoas dos 20 aos 80 anos, mas a maior parte dos membros está na casa dos 50. Pedro Folque apela a que mais jovens se juntem, “trazendo outro tipo de vozes”. Para isso, é importante que o coro dinamize apresentações à comunidade e que “se passe a palavra”.
O primeiro evento ao público aconteceu no dia 15 de janeiro. Os novos rostos do coro comunitário foram cantar as janeiras pela vizinhança – num supermercado no Largo do Rato e no quiosque das Amoreiras.
Nuno Pinto Magalhães tem 68 anos e sempre viveu no Bairro da Estrela. Lembra-se de, em criança, ir ao “verdadeiro” Mercado do Rato, quando ainda aí se apregoava o peixe e se vendiam as flores.
A experiência com a música tinha ficado guardada desde os tempos de jovem, quando fez parte do coro da escola. Foi a mulher, voluntária na loja social da Dona Ajuda, que o desafiou a integrar o coro comunitário.
Após seis ensaios, o morador que nunca pensou voltar à música sabe agora que é “baixo” (o tipo de voz masculina mais grave) e que o coro é um lugar onde pode continuamente aprender. “Não há competitividade nenhuma, a competitividade é cada um tentar cantar o melhor possível”, conta.

Mesmo em dias de chuva, os participantes “vêm porque gostam de vir”, mantendo o espírito de grupo. Formam um conjunto diversificado, com diferentes profissões, desde advogados a jogadores de râguebi, economistas a enfermeiras, que de outra forma nunca se cruzariam no bairro. Mas a música aproxima-os às quartas-feiras à noite: “São várias vozes e o maestro organiza-nos. A sensação que temos é de harmonia”.
Um espaço para “exteriorizar e fazer arte”
Desafiado por um membro de outro coro que dirige (o Lisbon Community Choir), Alberto Araújo é o maestro dos ensaios noturnos no Mercado do Rato, há quatro meses.
Começa pelo aquecimento: pede aos participantes que repitam os sons e gestos que ele faz. Ensaiam-se as vozes, distribuídas segundo naipes, das mais agudas para as mais graves. Por partes, Alberto vai ensinando as músicas, corrigindo sempre que necessário. Os momentos de convívio também são incentivados. E riem entre si, perante o resultado.
“A verdade é que as pessoas saem daqui muito mais animadas. Faz diferença terem um espaço durante a semana onde podem exteriorizar e fazer arte”, afirma Alberto, fazendo um balanço positivo do projeto.

Apesar de reconhecer que já existem vários coros a fazer um bom trabalho, o maestro acredita que o Coro Dona Ajuda Canta se diferencia, por ser “um espaço sem muitas regras, para que as pessoas se sintam o mais à vontade possível para poder experimentar a sua voz e cantar em conjunto”.
Trata-se de um coro recente, onde ainda predominam mulheres e adultos, mas, segundo a fundadora Cristina Veloso, aspira a ser “o coro mais diversificado e inclusivo possível”.
O convite está feito para todos os que têm uma quarta-feira à noite para ocupar e, sobretudo, “aqueles que acham que não sabem cantar”.

*Este texto foi editado por Catarina Reis

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