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Que espécies de árvores devemos ter para garantir as sombras do futuro, uma vez que podemos contar com seca certa e ondas de calor cada vez mais frequentes em Lisboa?

As opiniões dividem-se. Poucas espécies mediterrânicas acolhem todas as exigências das cidades, nomeadamente numa cidade tão consolidada como Lisboa: rápido crescimento, sombra, resistência à seca, poda, poluição, forma das copas e arquitetura das raízes.

1. As espécies de árvores que mais resistem

Tal é evidente na mancha verde das ruas de Lisboa, sendo a maioria das árvores exóticas. Apesar destas árvores serem consideradas aclimatadas à cidade, estão aclimatadas para uma realidade que está a deixar de ser a nossa e não estamos inteiramente seguros de que sejam à prova de alterações climáticas.

As espécies mediterrânicas estão mais capacitadas para enfrentar adversidades, como as ondas de calor. Foto: Leonardo Rodrigues.

Apesar de reconhecer a importância de espécies não mediterrânicas que foram aclimatadas com sucesso, João Tiago Carapau afirma que o caminho far-se-á essencialmente com espécies autóctones e mediterrânicas, pois “não valerá a pena, a prazo e para futuro, apostar em visões do passado, sendo que as exigências de manutenção serão maiores e os recursos mais escassos”.

A razão para isto é primordialmente a escassez da água, “cuja prioridade será assegurar o consumo humano”.

As espécies mediterrânicas estão mais capacitadas para enfrentar adversidades, como as ondas de calor, numa “adaptação progressiva ao longo de milhares de anos”. E que espécies: a oliveira, o zambujeiro, a figueira, a alfarrobeira, o cipreste, o sobreiro e a azinheira. “Pela sua fenologia e configuração de copa, a manutenção em espaço público lança diversos desafios aos urbanistas e paisagistas”.

Apesar de sempre que possível o caminho da sombra dever ser feito debaixo de árvores, nos sítios onde isso não é possível, as sombras terão de ser telas ou outros elementos inorgânicos.

Aquilo em que todos concordam é que a diversidade é a chave para salvaguardar a saúde do arvoredo urbano, para evitar situações como a grafiose dos ulmeiros, que, nos anos 1970 e 80 eliminou quase por completo esta espécie da nossa cidade.

Em 2017, morreu o último ulmeiro do Jardim Gulbenkian.

Leia também o primeiro artigo desta série

2. O verdadeiro jardim mediterrânico não se rega?

Não só de árvores vive uma rua ou um jardim. Há uma enorme diversidade de arbustos, bolbos e ervas para integrar. Tem-nos sido dada uma ilusão do que pode e deve ser um jardim, no entanto muita da nossa imagética coletiva não se coaduna com a realidade do clima mediterrânico. É no confronto de eventos extremos que a realidade se torna uma evidência, caindo a nossos pés – os relvados secam e as folhas caem.

Oliver Filippi, autor do The Dry Gardening Handbook, tem sido uma voz ativa sobre as más escolhas de espécies e o mau uso dos sistemas de irrigação nos jardins. “Não é a seca, mas o mau uso de irrigação que limita a abrangência de plantas nos jardins mediterrânicos”, lê-se no seu livro.

Olivier Filippi, com a mulher Clara, dirigen um viveiro no sul da França dedicado a plantas tolerantes à seca para jardins secos. Desde os anos 1980, viajam pelo mundo para pesquisar regiões de clima mediterrânico. Olivier traduz paisagens mediterrâneas em plantações de baixa manutenção tolerantes à seca e livres de pesticidas para espaços públicos e privados. Fotos: APEJECM – Mediterranean Gardening Association, Portugal

Dá o exemplo das encostas da Califórnia e Sicília onde, com o calor intenso, a rega constituiria o equivalente a uma pulverização de herbicida. Filippi vai mais longe, dizendo: “se uma planta morre quando tiramos a rega, lamento, não estava adaptada às condições e o seu desaparecimento abre lugar a uma que esteja”.

Esta sua evidência aplica-se apenas findo o primeiro verão – momento em que as plantas, com raízes estabelecidas, já podem e devem abandonar os sistemas de rega e resistir por si.

Há quem se assuste com este pensamento, julgando que um jardim mediterrânico equivale a um aborrecimento e secura total. No entanto, com planeamento e conhecimento, a evidência contraria o que se pensa: a flora mediterrânica é, na verdade, mais rica do que a das regiões temperadas.

Apenas na Bacia do Mediterrâneo, a flora existente soma 25 000 espécies, nada menos do que 10% das espécies mundiais.

Se mudarmos a lente, descobrimos que, à escala mundial, existem 75 000 plantas que habitam climas que se enquadram no mediterrânico. Esta tipologia de climas não se encontra apenas na Bacia que lhe dá nome, estando distribuída por mais quatro regiões do planeta: Califórnia, Chile, litoral sudoeste da Austrália e cabo ocidental da África do Sul. Isto é algo constatável no Jardim Botânico de Barcelona, que dá morada apenas a espécies mediterrânicas destas cinco regiões.

É um facto que as estações refletem-se na paisagem e que nem todas as plantas mantêm a sua forma intacta e luxuriante, o que é sinal de vida e de adaptação: umas despem as folhas, outras desaparecem totalmente, outras perdem a apenas a parte área. São estratégias de sobrevivência que desenvolveram ao longo dos tempos para resistir à seca e às temperaturas elevadas. Assim que as primeiras chuvas caem, a vegetação ressurge, preenchendo os vazios gerados pelo verão.

É, portanto, para aí que deve caminhar o nosso foco: plantas mediterrânicas ou de climas ainda mais extremos, com capacidade de resistência. Isto é verdade para muitos jardins e parques. Contudo, as árvores de arruamento e muitos jardins continuarão a ter de obedecer e resistir a exigências específicas, cujas plantas mediterrânicas nem sempre conseguem responder.

Os jardins mediterrânicos precisarão sempre de água – preferencialmente apenas da que cai do céu e da respetiva captação da mesma -, há que contar que nem sempre receberemos a água desejada, pelo que tem de ser feito o maior aproveitamento de água possível, compensado a escassez e as oscilações.


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Leonardo Rodrigues

Nascido na Madeira, o seu coração ficou por Lisboa. Estudou comunicação na FCSH – UNL e fotografia no Cenjor. Depois de muitos ofícios, é a contar histórias que se sente bem. Acha que não existem histórias pequenas, anseiam é por ser bem contadas. Quando não está a escrever, é aprendiz de jardineiro. @leonismos no Twitter.

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1 Comentário

  1. Sim, sem dúvida que temos de preservar e criar sombra plantando arvores, na montanha, nas aldeias, nas vilas, nas cidades, em todas as ruas, estradas, autoestradas, becos, tudo. Árvores, arbustos e bordaduras verdes dão um bem estar que dinheiro nenhum substitui.

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