Quando a jornalista Mariana Correia Pinto conheceu Maria de Fátima Castro pela primeira vez, pensou: “Esta mulher dava um romance”. Seria a história de uma mulher que herdara do pai uma ilha (um tipo de habitação operária da cidade do Porto) e que se recusava a vendê-la. Queria, antes, reformá-la e garantir habitação a quem não a consegue ter.
“A ilha é parte da minha família. Não está à venda. Ponto final parágrafo”, dissera Maria de Fátima a dois investidores que lhe bateram à porta.
Mariana Correia Pinto contou a história dela em 2020, no formato que melhor conhecia: a reportagem, publicada no jornal Público. Mas a ideia de transformar esta história em algo mais, esticando a realidade para o plano da ficção, nunca mais abandonou Mariana.
Por isso, quando Luísa Pinto, encenadora, atriz e diretora artística da Narrativaensaio – AC, a desafiou a escrever uma peça de teatro relacionada com os 50 anos do 25 de Abril, não hesitou:
“Quando eu penso em democracia, há uma coisa que está por cumprir: o direito à habitação… Para mim, a dona Fátima é Abril. Há pequenos gestos que podem cumprir Abril hoje.”
“Uma Rua de Cada Vez” é a história de Maria de Fátima (e da crise da habitação) contada em palco. Um espetáculo com dramaturgia de Mariana Correia Pinto, encenado por António Durães e Luísa Pinto, que se estreou no dia 7 de março em Vila Nova de Famalicão, com o apoio de uma bolsa da DGArtes (Direção-Geral das Artes) e da DGLAB (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas).
A digressão nacional passa agora por Lisboa, subindo ao palco do Clube Estefânia, Arroios, no dia 29, pelas 21:00 – bilhetes à venda aqui. Uma oportunidade para se pensar nesse direito que ficou por cumprir, ainda para mais em Lisboa, uma cidade marcada pela especulação imobiliária: o direito à habitação.
Dilema: vender ou não vender um bairro operário?

Três personagens em palco: Amélia (interpretada por Luísa Pinto), Paulo Jorge (interpretado por Cláudio Henriques) e Vera (interpretada por Gabriela Amaro).
Amélia é a proprietária de um bairro operário numa cidade por nomear (uma forma de nos distanciarmos da ilha portuense que faz parte da história real). Amélia é, evidentemente, um reflexo de Maria de Fátima. Paulo Jorge, o sobrinho herdeiro, um homem de 40 anos com duas filhas, estagnado na carreira. Depois, há Vera, cuidadora de Amélia, uma jovem na casa dos 20/30 anos, que se encontra numa situação profissional precária, que a impede de aceder ao mercado da habitação.
Entre eles, um conflito: vender ou não vender o bairro operário. Mas não há vilões. A autora Mariana convida o espectador a pôr-se na pele destas personagens. “Nunca quis criar nem heróis, nem vilões. Estamos a viver em bolhas, há uns que são a favor e outros que são contra o investimento privado, e parece que as duas hipóteses não podem conviver nem dialogar, eu queria muito que a peça não fosse para esse extremismo”.
É que se, por um lado, Amélia quer honrar a vontade do pai em manter o bairro, Paulo Jorge vê ali uma oportunidade para fazer mais dinheiro e garantir um futuro melhor para as filhas.
“O sobrinho é uma personagem em que muita gente se poderá ver ao espelho… se a Amélia tem um gesto extraordinário, o Paulo tem nele as contradições que todos nós temos e faz-nos questionar: quais são os limites das nossas convicções?”.
Já Vera, uma jovem desiludida com o país, que trabalha para Amélia a troco de uma casa no bairro, assume-se quase como uma intermediária dos dois. Com este triângulo narrativo, o dilema em palco torna-se tão real que Mariana recorda como, depois da estreia, as filhas de uma amiga passaram a viagem de regresso a casa a perguntar: “Vendias ou não vendias o bairro?”.





O jornalismo ao serviço do teatro
Aqui, “Maria de Fátima é coautora”, diz Mariana Correia Pinto. “Uso muitos elementos na Amélia que são a dona Fátima: é o gesto, é a mulher que herdou um bairro operário mas não o quer vender, primeiro porque prometeu ao pai que não venderia, e depois porque quer contribuir para que haja casas a preços justos…”.
Mas também as outras duas personagens são o reflexo de pessoas com as quais Mariana se foi cruzando ao longo da vida: “Fui procurando as outras personagens dentro de mim e fora. Perguntava-me como é que lhes dava densidade, e era sempre indo buscar ao real…”.
O trabalho jornalístico tornou-se, pois, ferramenta para se dar vida a estas personagens, fazê-las chegar mais longe. “No jornalismo, tens um compromisso com a verdade que no teatro não tens. O teatro dá-te liberdade, e nesse sentido tens uma capacidade de chegar à emoção, é essa a grande ferramenta da arte.”
Foi a segunda vez em que a jornalista se aventurou na escrita dramatúrgica depois de, em 2023, se ter estreado com “Anónimo Não É Nome de Mulher”, um manifesto pelas mulheres presas, torturadas e silenciadas pela opressão, uma peça que lhe fora também encomendada também por Luísa Pinto.
Os pequenos grandes gestos, na vida e no teatro
Mas a história de Maria de Fátima não é a única que é aqui contada. Ao longo do espetáculo, vão surgindo vídeos de entrevistas que Mariana fez a pessoas que, de alguma forma, fazem cumprir Abril através de pequenos (grandes) gestos.
“Perguntei-me: ‘será que a dona Fátima é assim tão invulgar? Que outras pessoas é que, à sua escala, no seu prédio, tentaram tornar a cidade mais habitável?'”.
A discussão estende-se para além do direito à habitação: é também sobre a importância dos pequenos gestos versus a descrença no sistema – muito presente na personagem de Vera -, que tem vindo a ganhar raízes e que justifica parte do crescimento da extrema-direita.
Mariana recorda, aliás, como o grande gesto de Maria de Fátima se vê agora embargado pela falta de pagamentos do IHRU para continuar com as obras naquela ilha. “É com este tipo de falhas do Estado que o populismo cresce. Se o Estado nos falha, quem é que nos está a dar soluções?”, questiona a dramaturga.
Mas o gesto de Maria de Fátima lançou uma semente. E relembrá-lo através do teatro permitiu que a própria, que marcou presença na estreia, ganhasse novo ânimo. “Foi uma das grandes alegrias de ter feito isto: ela ficou bastante adoentada nos últimos anos e parecia desanimada…”. Quando Mariana lhe anunciou que a estreia estava marcada para dia 7 de março, Maria de Fátima disse-lhe: “Foi o dia em que o meu pai morreu, isto é um sinal…”. E ela, que já só saía de casa para ir ao hospital, decidiu ir.
“Foi a prova de que a arte pode mudar a vida de alguém: agora, a Maria de Fátima liga-me todos os dias, as pessoas vieram ter com ela, a agradecer-lhe o gesto, e ela sentiu-se muito valorizada.”
E incita à mudança. É que nem todos os gestos têm de ter a dimensão do de Maria de Fátima: “Todos podemos ter esses pequeninos gestos. Ajudar a vizinha a levar as compras é um gesto que faz uma pequena revolução. Vivemos num mundo individualista, com pressa, mas é possível outra forma de viver e de estar, basta perguntarmo-nos que cidades é que queremos construir”.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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