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Uma cidade, muitas cidades. Na instalação Prisma de Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, na Galeria Oval, espaço central do MAAT, inaugurada hoje, passam vídeos contínuos em formato quase natural de cidades muito diferentes, como Pequim, Cincinnati, Hong Kong, Lisboa, Los Angeles, Macau, Paris, Xangai, Cidade do México, mas que nos parecem muito iguais: é que o artista não capta os seus monumentos e idiossincrasias, mas aquilo em que todas as cidades são iguais, nas gentes, nas ruas.

Todas iguais? Sim, na igualdade de olhares, corpos, cores, sinais. Cidades, um ponto é tudo. “Queria conseguir de alguma maneira eternizar o efémero do dia a dia. A rotina da cidade, a realidade com mais tempo de absorção. São frescos da cidade”, diz Vhils.

Às vezes não as conseguimos distinguir, e é esse jogo que Vhils quer que joguemos: “Sabes onde é?”, pergunta. Parece um cenário espanhol, mas não pode ser. “Cidade do México!”, revela.

As cenas de rua, captadas em ultra câmara lenta – 2000 frames por segundo, um segundo transformados em 1 minuto e meio – ao nível do olhar, interpelam-nos como se nos cruzassemos com elas do outro lado da rua. Como num passeio. Objetivo: “Desacelerar o tempo, absorver a beleza e tudo o que perdemos.” O tempo lento das imagens contrasta com o tempo rápido que sabemos ser o destas metrópoles.

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Acompanhámos Vhils na sua exposição Prisma, no MAAT. Vídeo: Stephen O’Regan/People of Lisbon

Estes momentos foram captados a partir de 2014, pelo próprio artista em cidades onde Vhils estava a trabalhar. Começou por olhar. E daí surgiu esta ideia. Começou em Hong Kong e terminou em Cincinatti, “20 dias antes da pandemia”. O que também é um marco, no mundo que mudou mais do que pensávamos que podia mudar. “Quase que apetece falar com estas pessoas e dizer-lhes o que vai acontecer!”

Em todos os vídeos, o olhar de Vhils capta a cidade, sim, mas também o olhar dos outros sobre essa cidade. Três ângulos, na verdade: o do artista, do público, dos retratados. Prisma, portanto.

“Nós e o outro – na mesma rotina, nas mesmas clivagens”, como ele explica. Nós e os outros, todos iguais, anónimos, nas cidades que sabemos marcam tanto as diferenças, vivem dessas diferenças: “Entre o que está no centro e fora, com preconceitos históricos à mistura, do próprio corpo, do diferente. Esta exposição vem contrapor isso.” No final… “estamos todos no mesmo sítio.”

Vhils a questionar o nosso lugar nestas cidades, como sempre. Política? De certa forma. O questionamento do sistema, da cidade que “se está, no fundo, nas tintas para nós” – seres banais, urbanos, anónimos. E, no entanto, seres retratados no museu. Quem são? Agora, em vídeo, Vhils faz estas figuras o mesmo que faz às paredes em que trabalha: numa parede “de que ninguém quer saber”, ao dar-lhe novo contexto, todos reparam nela.

Uma entrevista para seguir, antes ou depois de uma visita ao MAAT – até setembro.


Catarina Carvalho

Jornalista desde as teclas da máquina de escrever do avô, agora com 49 anos está a fazer o projeto que melhor representa o que defende no jornalismo: histórias e pessoas. Lidera redações há 20 anos – Sábado, DN, Diário Económico, Notícias Magazine, Evasões, Volta ao Mundo… – e segue os media internacionais, fazendo parte do board do World Editors Forum. Nada lhe dá mais gozo que contar as histórias da sua rua, em Lisboa.

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