Há qualquer coisa de Verão Azul [série televisiva espanhola dos anos 1980 sobre as férias de verão de um grupo de amigos adolescentes na costa Sul de Espanha] nesta curta-metragem que segue a Maria Inês, espevitada capitã da areia, e as amigas dela, todas pré-adolescentes, pelas ruas do Bairro da Quinta do Loureiro, junto da Avenida de Ceuta.
Não há mar nem praia, mas há o bairro, os dias intermináveis com os amigos, o calor do verão, os gelados, e o jogo do gato e do rato do primeiro amor, que faz borboletas na barriga e vai durar para sempre.
Quem não teve um verão assim não sabe o que é viver. É essa beleza das coisas simples que fica dos 14 minutos e 42 segundos de Conseguimos fazer um filme.
Um workshop de vídeo com jovens do Bairro da Quinta do Loureiro, inserido no projeto Bairros: Workshops Artísticos Comunitários do Festival Iminente, criado por Vhils, e de que a Mensagem é parceira, transformou-se numa curta-metragem e chegou ao IndieLisboa.
A estreia será no dia 25 de maio, às 21h30, na sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, em Lisboa, na competição Novíssimos.
O lado B (de bonito) do Bairro da Quinta do Loureiro
A ideia do filme começou a formar-se na cabeça de Tota Alves, a realizadora, quando, depois de aceitar o convite do Festival Iminente para fazer um workshop de vídeo para miúdos da Quinta do Loureiro, foi conhecer o bairro – construído sobre o Casal Ventoso.

“Quando vim cá, achei que era tudo tão cinematográfico, as cores do bairro, a associação, o estúdio de boxe, o espaço da Fundação Aga Khan, que pensei que seria mais fixe tentar fazer um filme”, conta Tota Alves. “Em vez de um workshop de vídeo, que depois não tem um objeto concreto, um filme teria potencial para se expandir no tempo e na geografia. Dependendo de como corresse o projeto, poderia ter asas para voar. E foi isso que aconteceu”.
E aconteceu quase de forma orgânica.
Se a câmara não seguisse os personagens, dir-se-ia que estava ali, omnipresente, só a filmar a existência deles.
Daí o carácter documental do filme, a fundir-se com a ficção criada numa narrativa simples à volta da descoberta do amor pela protagonista, Maria Inês (Inês Cruz), numas despreocupadas férias de verão, durante as quais anda com as amigas (Joana Embaló, Mariana Rodrigues, Matilde Barata e Cláudia Maria) pelo bairro onde vivem, passando o tempo entre conversas de miúdas, colares e pulseiras de missangas que fazem juntas para vender e a rodagem de um filme que também entra no filme.
“Toda a narrativa foi desenvolvida coletivamente, procurando mostrar o que de bonito acontece nesta comunidade – a rua como um espaço público, um clube de boxe, um ringue de futebol, um espaço de teatro e os cantos de convívio informal entre jovens”, explica Tota Alves, autora e realizadora de duas minisséries da RTP – O meu sangue e Dolores, ambas de 2020, argumentista de Erro 404 (2024), e que se estreia agora em cinema com esta curta-metragem, Conseguimos fazer um filme.
“O resultado superou as expectativas, graças à riqueza do lugar e à dedicação das protagonistas. É uma ficção documental que conta uma história de amor e simultaneamente revela o processo de fazer um filme a muitas mãos”, diz a realizadora, que começou por perguntar a quem vive e desenvolve trabalho comunitário no Bairro da Quinta do Loureiro o que queria contar.
Entre os interlocutores estava gente do Casalense Futebol Clube, do grupo de teatro do Casalense, da Associação de Boxe Paulo Seco, da Fundação Aga Khan, entre outros. Ninguém tinha ideias concretas sobre o que queriam que ela filmasse, mas era para eles muito claro o que não queriam.
“A única coisa que não queriam era que a história fosse a mesma de sempre, associada ao consumo e ao comércio de drogas que existe aqui. Só me disseram: ‘tudo, menos isso’.”
E então a realizadora explica que começou a procurar “o tudo, que na verdade eram aquelas pessoas e as crianças e jovens que iam participar no workshop, que acabou por se transformar na rodagem de um filme”.





Tota Alves foi conhecer melhor o bairro e com a equipa dela – a direção de fotografia é de Victor Neves Ferreira, a direção de som de Tiago Galvão, a montagem de Paula Miranda e a produção de Viviana Martins (técnica de desenvolvimento comunitário) e de Andreia Nunes (Wonder Maria Filmes) – e com os jovens da Quinta do Loureiro, atores, personagens e co-autores, iniciaram o processo de construção do filme.
“Pedi-lhes para me guiarem pelos sítios onde costumam ir, vi-as existir, sentarem-se nos degraus das escadas a conversar ou a fazer pulseiras de missangas, irem ao campo ver o jogo, encostarem-se ao muro, a vida normal delas, mas sobretudo a ocupação do espaço público, que hoje já não é tão comum ver-se. Este é um bairro onde as crianças estão na rua, ocupam-na, e eu achei isso super-bonito”, diz a realizadora.
Tudo o que cinema não é e pode ser
Inês Cruz, 12 anos, é a Maria Inês, protagonista do filme e capitã do grupo de amigas que faz das ruas do Bairro da Quinta do Loureiro segunda casa, pátio, ponto de encontro.
As vidas das duas, personagem e atriz, cruzam-se. Têm as mesmas amigas, gostam as duas de dançar. Mas a Inês não está apaixonada pelo Ruben, isso é a Maria Inês e foi só para o filme. Se calhar vai ter um bocadinho de vergonha de se ver no grande ecrã, mas o filme “está giro”, sobretudo a cena de que mais gosta, quando ela e as amigas descem a correr “daqui de cima para baixo e depois até não sei lá”.



Para a amiga Joana Embaló também foi uma experiência incrível, esta de fazer um filme, tanto que quando for grande quer ser “atora”, apesar da dificuldade que foi lembrar-se “das falas”.
“Às vezes, era aborrecido, porque tínhamos de repetir várias vezes. Houve uma vez que nós estávamos a gravar e do nada começaram a cair jornais, lá de não sei qual andar”, conta Joana, que participou no filme como participa em todas as coisas do bairro e cuja cena preferida é aquela em que estão a fazer pulseiras de missangas.
Não houve um casting formal, não houve sequer inscrições para o workshop de vídeo. Sabia-se que ia haver a rodagem de um filme e os miúdos foram aparecendo.
“Estas crianças já tinham uma relação com todas as associações que quiseram participar no workshop comunitário. Algumas jogam no futebol-clube, outras fazem teatro, patinagem e dança cigana no Casalense, outras fazem boxe, outras fazem tudo, outras são amigas de amigos, outras são vizinhas”, conta Tota Alves.


O processo de construção do filme, da escolha das personagens ao guião e à própria narrativa, foi muito natural e dinâmico.
“Foi tudo aquilo que o cinema não é, mas também o que é e pode ser. O cinema pode ser muita coisa”, diz a realizadora que fez três dias de filmagens, cerca de duas horas por dia. Havia lugares mais ou menos definidos, assim como algumas falas, mas tudo o resto estava em aberto. “Os sets de cinema têm lugares muito bem definidos e palavras muito definidas. Aqui era o oposto disso”.
A realizadora sabia o que queria filmar e onde, os espaços do bairro que as crianças e os jovens e a população frequentam, o clube de boxe, o espaço do teatro Casalense, o campo de futebol, a Associação Aga Khan em frente aos degraus, a rua.
“Primeiro pus estes espaços na cabeça, depois percebi quem eram as pessoas que estavam mais interessadas em participar na rodagem do filme e finalmente comecei a pensar numa história que fizesse sentido e com que todos se identificassem”, explica Tota Alves. “É uma ficção, mas tem algo de documental. Propus a história às crianças, aos jovens, eles disseram ok, e começámos a filmar”.

Houve coisas que surgiram durante as filmagens que não estavam no guião, que, na verdade era muito aberto e foi sendo escrito.
“Estava definido que as amigas faziam pulseiras de missangas sentadas nos degraus das escadas, mas a conversa entre elas era livre. Só havia uma pequena troca de palavras que tinha de ser dita, que era quando o rapaz chega e pergunta o que estão a fazer e a Maria Inês responde ‘frango de churrasco.’ O resto é espontâneo”.
Um processo extraordinário para Tota Alves.
“Elas estão numa idade muito particular, é uma janela de tempo muito pequena, já não são crianças, mas também ainda não são jovens, e isso dura um ano ou dois no máximo e, por isso, foi espetacular trabalhar com eles neste tempo único”, diz a realizadora, que projetou muito a memória de si própria com essa idade na narrativa que criou.

A descoberta do amor, da sensação de atração por outra pessoa que se quer conhecer melhor, mas com quem não conseguimos falar, de quem fugimos, fingindo que não estamos interessados, mas estamos, aquele jogo do gato e do rato que nos traz sensações estranhas ao corpo, as borboletas na barriga, os sentimentos bonitos que nos fazem ter vontade de viver.
Foi isso que Tota Alves quis trazer a esta história, “essa ideia de descoberta do amor. No fundo, é aí que está a fronteira entre o que é ficção e documentário. Tudo o que é a história de amor é ficção. Tudo o que é a existência deles é documental”, explica a realizadora.
“Então, o filme tem duas narrativas, a ficcional e documental, através da qual se mostra que foi feito por muitas mãos. Na verdade, foi na montagem que percebemos que o filme seria mais rico se mostrássemos o processo de realização e é assim que as duas narrativas acontecem em paralelo”.
Também foi quando acabaram de montar o filme que decidiram mudar-lhe o título. “Olhei para a Paula [Miranda], a montadora, e disse: ‘Pá, conseguimos fazer um filme. Está feito’. O filme era para se chamar Projeto Loureiro, porque estas cores faziam muito lembrar um filme chamado Florida Project, mas quando acabámos de o montar, percebemos que tinha de se chamar: Conseguimos fazer um filme. E assim ficou”.
Conseguiram fazer um filme e conseguiram levá-lo ao IndieLisboa.
“Fiquei muito feliz. Foi o primeiro filme de nós todos e do bairro e de repente vê-lo numa tela enorme e poder convidar os pais, as mães, as tias, as primas, para a estreia, é uma festa. Vai ser uma espécie de celebração, um parto coletivo de toda a gente”.

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